Lenta despedida

Alzheimer_30

É assim pela manhã. O sol desperta, e, curiosamente, esse homem que acorda diversas vezes pela noite, dorme profundamente. Abrimos a porta balcão para clarear o quarto. Eu ou minha mãe. E nos cuidados que meu pai necessita, construímos uma cumplicidade, muda e silenciosa, ilhadas por um mar de frustrações que nos rodeiam diariamente. Tentativas constantes de estimulá-lo, de entender o que ele quer, o que pensa.

E com o quarto já claro, posso vislumbrar o único momento do dia que vejo paz no rosto adormecido. Pouco a pouco o despertamos. É hora do banho, do alimento. Ele levanta em silêncio. Eu o dispo lentamente, com todo o respeito por um homem que não tem mais direito à privacidade merece. Pergunto se dormiu bem. Às vezes ouço resposta, um gemido ou recebo um olhar. Indecifrável olhar.

No banho, ensaboo seu corpo enrugado, sua intimidade. Há pouco tempo ele ainda retraía a musculatura da perna quando eu chegava nesse ponto. Agora parece ter se rendido. Enxugo o corpo curvado. Passo pomada na pele judiada, nas feridas que insistem em não abandoná-lo. Coloco a fralda, as roupas, a sandália, sempre na mesma ordem. Como um boneco sem vida ele aceita cada movimento meu, em silêncio. Ausência de palavras que me angustia. A vida fez essa brincadeira sem graça de calar um poeta.

Toma seu café e me faz a mesma pergunta matinal que se repete no decorrer de todo o dia. Mal entendo a pronúncia, mas já conheço sua aflição. “Que dia é hoje?” diz ele. E calmamente eu respondo uma, duas ou quinze vezes. Quantas vezes ele tentar recuperar o controle do tempo. Enquanto faço sua barba, ele dorme novamente. Loção, pois ele sempre foi um homem vaidoso. “Pronto pai! Já tá bonito! Pode levantar.” Ele me olha. Só me olha. Às vezes, horas depois, ele diz: “obrigado por fazer minha barba”. E eu sempre me emociono ao ouvir essas palavras.

O dia se arrasta para ele, numa aflição de quem deseja que o tempo passe logo para chegar a hora de almoçar, do lanche, do remédio da noite, de dormir. Prisioneiro de seu corpo, me pego desejando que sua lucidez se despeça de vez. Tenho a esperança que isso o deixaria em paz. E quando o dia adormece, me sento ao seu lado e de minha mãe, no sofá da sala. Flagro com frequência o olhar dela em direção à ele. Seu olhar pergunta: “Por quê?”. E o olhar dele responde: “Não sei, mas obrigado, Bel”. É como ele a chama. Bel, seu grande amor. Ela suspira e volta a assistir a novela.  Esconde por trás de sua aparência delicada, a fortaleza de uma mulher que enfrentou a doença precoce de seu homem, e essa lenta despedida.

É noite. Ele caminha para cama, vai dormir. Lentos passos que parecem carregar todas as dores acumuladas pela vida. E eu me pergunto em que parte dele ficaram guardadas as alegrias? Ele deita. Eu apago a luz e fecho a porta. Penso: Pai, descansa em paz.

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10 pensamentos sobre “Lenta despedida

  1. Que difícil assistir tão de perto o sofrimento de alguém tão querido. Eu não consigo acreditar, sempre que o vejo ele me dá algum sinal de que se lembra de mim e me emociona muito. E vcs, exaustao física e emocional, imagino que deva doer muito. Obrigada por cuidar dele e de sua mãe e por manter seu lindo sorriso. Só admiro vc e sua mãe mais a cada dia! Beijo

  2. Só o AMOR, somente o amor, nos faz ter Amor pelo nosso próximo. Porque toda essa compaixão, cumplicidade, generosidade vem deste sentimento maravilhoso que o AMOR. E quando O temos; sentimos e enxergamos em um simples OLHAR o que o outro quer dizer. Lindo!!!! Quero que o universo lance sobre todos nós este AMOR !!!1

  3. Passei por isso a uns 40 anos (tenho 71) e sei como é difícil e doloroso. É preciso diariamente refazer as energias e mesmo que não tenhamos esperança de reversão do quadro, acreditar que estamos fazendo o que é preciso fazer com delicadeza, com solidariedade e compaixão. Carregue-o diariamente no seu coração até o coração de Deus, lá pelo menos encontrarão Paz.

  4. “Ausência de palavras que me angustia. A vida fez essa brincadeira sem graça de calar um poeta.” Ah, Ceres, amiga, como você conseguiu traduzir tão bem essa doença atroz! Estou comovida, emocionada, lembrando-me de minha mãe que se perdeu também nessa escuridão.

  5. Você me fez chorar, com sua sensibilidade maravilhosa! E creia que você está fazendo muito bem para todos.
    E essa sensibilidade é a herança desse homem que você cuida hoje, com tanto carinho.

  6. Iracy, compadre de Alfredo e Izabel por conta do batismo de Thaís sua filha. Claro que estamos um tanto atrapalhado para percorrer este mosaico, nem sempre conto com a ajuda protetora das filhas Miriam e Patrícia. Todavia, na medida do possível conseguimos ler o texto de Ceres e ele nos levou, por seu conteúdo, até a Parábola do Bom Samaritano prefigurado na pessoa de sua filha Ceres. Como sabemos alguém estava caído à beira da estrada, vítima de assalto (já havia naquela época de Cristo), tendo passado por ele um levita e um sacerdote, sem que o assistisse; um samaritano, porém, passou por lá, desceu do seu cavalo, foi ao encontro da vítima, prestou-lhe os primeiros socorros, colocou-a no seu cavalo e levou-a até a hospedaria, acomodando-a, saiu pagou o dono da hospedaria e disse-lhe cuide bem dele, na volta, passo aqui de novo e se tiver despesas a maior pagarei. O Samaritano, sem nada perguntar, fez pela vítima tudo o que precisava ser feito para resgatar-lhe a vida. Assim a vejo Ceres, a Samaritana do pai Alfredo, cujo carinho deve estar marcando a “lenta despedida” do papai, com certeza, ainda que não se comunique, quanta coisa bonita diria o “poeta” Alfredo se pudesse dizer-lhe algma coisa, vai guardar o segredo para si. Ainda que a comunicação não se faça por palavras, os pensamentos do papai Alfredo estão falando. Sobre a mamãe não fazia idéia do quanto deve estar sofrendo por causa deste quadro que atingiu o seu amor da vida, sua relação com Alfredo sempre foi rico em qualidade, passando-nos a mensagem de que “só pelo amor vale a vida”, que Deus lhe a força necessária para seguir até o fim, qualquer que seja ele, deve contar com a autoria de Deus. Ouvimos, certa feita, do Padre Jorge, um dos Canadenses tam bém conhecido de Alfredo e Izabel, que nesta situação, a do Alfredo, Deus está sofrendo junto com ele, amparando-o, no possível, para suportar a surpresa. Contrariando, com licença da Ceres, Deus não vai responder a pergunta que costumamos fazer ” Por que isto ?”, mas o máximo que faz é responder ” Para que isto ?” As controvérsias da vida “uns gozam por toda a vida”, ignorando a existência de Deus, outros sofrem, mas sem que saibam, esse Deus os acompanham no seu sofrimento. Por fim encerrando o já longo discurso esta frase de Billy Graham, Pastor Evangélico, ” Pregue o Evangelho, se necessário for use também palavras.” Grande abraço, beijo maior ainda, para todos os envolvidos neste quadro, Izabel, filhos, netos, bisnetos, a famiage toda como dizemos à Izabel por seu tamanho, e a você, Ceres, obrigado pelo testemunho de vida, acredite você é preciosa aos olhos de Deus.

  7. Ceres, quanta beleza na sua sensibilidade de poeta e nessa fina proximidade e com paixão de seu pai, nesse sentir de seu coração, de sua alma de poeta também, como a sua! Pude viver situação similar com meu pai, lúcido até o final, mas se despedindo conscientemente da vida e da família à qual dedicou um amor sem limites! É dolorido…. e seu texto é capaz de transmitir essa dor, mas com leveza de traço e com um profundo amor e respeito por esse pai que deve se sentir orgulhoso da filha companheira na arte de poetar e nessa Bel, bela, sensível e guerreira, a seu lado, por todos esses anos!
    Com minha admiração e afeto
    Maria Rosa Duarte

  8. Ceres, seu texto me emocionou profundamente. Meu pai faleceu há 9 anos, após 4 anos desta mesma luta que seu pai. Eu e minha mãe cuidamos dele, dia após dia. Primeiro, ora nos divertindo, ora nos apiedando, ora nos agoniando com as alucinações que ele tinha – sempre envolvendo ladrões, traições e coisas afins. Depois, veio a fase da agressão. Meu pai, um homem sério que jamais havia soltado um palavrão em casa, agora nos xingava e tentava nos bater por achar que o estávamos enganado, quando ele pedia para comer e dizíamos que ele havia acabado de almoçar. Então, muito rapidamente, ele foi arqueando, dependendo cada vez mais de nós. Um médico como eu jamais vi igual, em toda sua misericórdia, bondade e competência, também era um homem orgulhoso, que mesmo aos 80 anos ainda estudava e trabalhava, fazia ele mesmo as compras do mês e pagava todas as contas. Minha mãe ou eu jamais soubemos quais eram as despesas de casa, porque ele tomava todas as responsabilidades para si. Mas a doença veio lhe roubar a independência , e com ela a dignidade, o orgulho, a vergonha. No meio da noite costumávamos acordar assustadas e nos batíamos na porta do quarto do meu pai: já o encontramos no chão, agarrado à porta do armário, que havia desabado com ele. Já o encontramos dentro do box do banheiro, sob a água e completamente vestido. O encontramos gritando em desespero, com o rosto colado à parede pedindo para que o tirassem dali, que ele estava preso… era apenas uma parede no quarto. E o encontramos, diversas vezes, de quatro no chão, cansado de andar em seu próprio quarto. Quando ele já não se sustentava sobre as pernas, o jeito foi a cadeira de rodas, mas nesta não ficou nem por seis meses. Ele passou a não sustentar o peso do tronco e logo foi para a cama – o que para nós foi até um alívio, pois morríamos de medo dele sofrer algum acidente grave. Tudo o que você descreveu, foi como um filme, repassando em minha mente cada banho, cada papinha dada – à princípio pela boca, e depois pelo boton da gastrostomia, cada curativo das escaras, cada fezes que, muitas vezes, tirávamos de seu corpo com as mãos, pois ele não conseguia expeli-las completamente. Nos revezávamos a noite inteira (juntamente com uma cuidadora de idosos que nos ajudava) para mudá-lo de posição de duas em duas horas – a luta contra as escaras era uma luta covarde, cruel e desigual. Quando fechávamos uma, abriam duas. Sua lucidez fora embora quase que completa, mas nada me convence de que ele não estava ali. Entre palavras desconexas, olhares perdidos e o sono induzido pelos remédios fortíssimos, eu via meu pai. Eram só alguns segundos, era um relance…mas ele estava ali, e a liberdade do desencarne foi uma alegria. Ele nos deixou sob o canto “segura na mão de Deus…” e partiu sem dor, sem maiores sofrimentos. Com seus filhos ao redor e coberto de amor. Ceres, eu morro de saudade do meu pai. Do meu pai sadio e também do meu pai doente. Sou tão, mas tão grata por ter tido a oportunidade de cuidar dele, de retribuir todo o seu amor, seu carinho e também a oportunidade de vida que ele me deu! Os últimos quatro anos que tive com ele me fizeram mais filha e ele mais pai do que toda uma vida. A minha visão espírita me diz que ele está muito bem e que iremos nos encontrar assim que possível. Mas não precisamos esperar isso para que ele saiba o quanto o amo, o quanto me orgulho dele, o quanto sou grata por ele e Deus terem me permitido estar com ele nos últimos momentos e o quanto vou amá-lo para sempre. Obrigada por compartilhar suas palavras comigo. Me fizeram reviver algo que, por mais triste que seja, também me traz alegria. As lembranças dele sempre serão boas lembranças. Um beijo

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