Meus olhos são teus olhos

meus olhos são teus olhos

Quando eu era criança, a profissão da minha mãe me encantava. Era um orgulho dizer que ela e minha tia eram as duas das três únicas professoras de deficientes visuais do ensino público estadual da cidade de São Paulo. Guardo as lembranças de quando ela me levava ao EE Silva Jardim, no Tucuruvi. Atravessávamos o corredor escuro e frio de entrada. Como seu horário era flexível, frequentemente os sons dos alunos vinham de dentro das salas. Virávamos à esquerda, a lanchonete ficava em frente. Ao lado, a sala de minha mãe. Nada de lousa, poucas cadeiras e muitas histórias.

Cada aluno trazia consigo uma história de luta, na maioria, pela sobrevivência. Suas mães eram guerreiras anônimas. Transportavam seus filhos, muitos com deficiências motoras também, por longas distâncias, para dar-lhes a chance de inclusão na sociedade, de seguirem os estudos e carreiras profissionais. Quase todos eram pobres, pois quem tinha condições financeiras buscava apoio em instituições particulares. Alguns casos de sucesso forneciam combustível para a chama, da paixão de minha mãe, continuar acesa. Acompanhamos no decorrer de todos esses anos, alunos que construíram suas famílias, se tornaram independentes, trabalharam em RX, fizeram letras, psicologia.

D.Izabel, minha mãe e de mais cinco filhos, adotou aquelas crianças em seu coração. Dividia a árdua tarefa de cuidar de sua prole e da casa, acompanhar nossos estudos, com as tarefas exaustivas de professora de cegos. Seus alunos eram integrados em salas comuns. E todas as lições passadas pela professora de sala eram enviadas à minha mãe, para transcrevê-las para o braille. Com ela, sempre estava a pasta verde de papelão com as lições dos alunos e a pesada máquina de braille com nove teclas, cujo som de seu manuseio está guardado em minha memória. Normalmente trazia serviço para casa, e arrumava tempo para adiantar o que não era possível fazer em seu horário de trabalho. Pois é, ainda não tínhamos a tecnologia tão avançada. Nada de computadores que falavam.

Hoje recebi um e-mail, que trouxe à tona todas essas lembranças, e uma em especial. Eu tinha cerca de onze anos, e minha mãe, procurando formas de atender os alunos com mais rapidez e eficiência, trouxe um livro didático de ciências, um gravador e algumas fitas K7. Pediu-me para ler o livro em voz alta e gravar a matéria para que os alunos pudessem estudar sem que fosse necessário esperar que todos os textos fossem transcritos.

O e-mail que recebi fala sobre a Audioteca Sal e Luz, uma instituição sem fins lucrativos que surgiu por volta de 1986. Nada mais é que uma biblioteca que já conta com quase 3000 títulos. São livros falados, todos gravados para que deficientes visuais possam ter acesso à informação didática, literatura, textos religiosos e até apostilas de concursos. São emprestados sob a forma de fita K7, CD ou MP3. Para ter acesso ao acervo, basta se associar. Os livros podem ser solicitados pelo telefone. Basta escolher o título pelo site, e eles enviam gratuitamente pelos Correios. A maior preocupação, é que se não atingirem um número significativo de associados, esse projeto irá se extinguir. Só quem tem o prazer na leitura, sabe dizer que é impossível imaginar o mundo sem os livros.

A instituição conta também com voluntários que podem gravar os livros em cabines especialmente montadas para esse fim. Um lema muito usado pelos voluntários é “Meus olhos são seus olhos”.

A Audioteca Sal e Luz não precisa de dinheiro, mas necessita de divulgação! Se você conhece algum cego ou deficiente visual, fale sobre esse trabalho. Quem puder fazer com que a Audioteca chegue à mídia, por favor, fique à vontade. É tudo do que eles precisam. Quantos deficientes visuais poderão ser beneficiados e não receberam essa informação?

Audioteca Sal e Luz. Rua Primeiro de Março, 125- 7º Andar. Centro – RJ. CEP 20010-000 Fone: (21) 2233-8007 Horário de atendimento: 08:00 às 16:00 horas http://audioteca.org.br/noticias.htm

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