Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro

485225_441872995899299_1267066271_nHoje encontrei esse texto na internet. Essas coisas que fazem a gente pular de página em página e de repente nem sabe como caiu naquela que te chamou a atenção de forma especial. Claro, que eu, cujas ferramentas de trabalho sempre foram pincéis, tintas, lápis, papéis e teclados, não poderia ter me identificado mais com o texto que segue abaixo
.”Conversando sobre um amigo – digamos apenas que ele é da ˜área de humanas˜ – que se encontra em apuros financeiros, meu marido perguntou:

– Mas afinal, o que ele faz?

Minha resposta foi imediata, sem censura e sem rodeios:

– Ah, você sabe como é, faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

E foi aí que me ocorreu.

Quase todos os meus amigos podem ser definidos exatamente assim: gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

Tenho pouquíssimos amigos que construíram uma sólida e tediosa carreira de sucesso em alguma respeitável multinacional.

Meus amigos, quase todos, fazem, fizeram ou farão trampos de:

design gráfico, tradução, revisão, revisão ABNT, programação, decoração, consultoria de moda, webdesign, transcrição, preparação de originais, editoração, legendagem, publicidade, jornalismo, aula de inglês, de francês, aula em faculdade, em cursinho, mestrado, doutorado, com bolsa, sem bolsa, consultoria/assessoria/gerenciamento de redes sociais, assessoria de imprensa, produção de eventos, crítica de arte, de música, de cinema, cenografia, curadoria, agitação cultural, mapa astral.

Escritores, roteiristas, resenhistas, romancistas, colunistas, cronistas e poetas. Professores, palestrantes, repórteres, artistas e fotógrafos. Produtores, atores e diagramadores. Bailarinos, músicos e psicanalistas. Pós-graduandos em ciências sociais, antropologia e história. Estudantes de graduação em filosofia. Ou, para resumir com termos que nossos tiozões reaças entendem bem: “tudo puta, bicha e maconheiro” ❤

Um monte de coisas. Que não dão dinheiro. Nenhuma delas. Nem se juntar tudo.

E eu, que sempre me senti tão sem turma, tão sempre trabalhando quietinha e sozinha em casa, tão avessa ao mundo real repleto de gente com uma CLT na mão e o firme propósito de ganhar dinheiro na cabeça. Eu, que sempre me senti oprimida por aquela propaganda no metrô que mostra um jovem sorridente “decolando na carreira” depois de concluir seu MBA em administração. Eu, finalmente, sorri e me dei conta:

Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro – esse é o meu clube, essa é a minha vida.

Somos bichinhos estranhos, nós que somos gente de humanas e fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro. Pulamos de frila em frila sempre achando que o de agora vai durar e que o contratante vai pagar em dia. Ignoramos solenemente o fato de que o frila de 2009 pagava exatamente o mesmo que o frila de 2013. Acima de tudo, baseamos toda a nossa vida na convicção de que o próximo frila será melhor, mais interessante e mais bem pago que o atual.

Escrevemos, traduzimos, cantamos e sapateamos. Nosso talentos são múltiplos. Nossa versatilidade é incomparável. Nossa paciência é infinita. Nosso único defeito: não somos uma categoria unida. Se unidos fôssemos, estaríamos nos anúncios do metrô agora mesmo: “venha ser gente de humanas e fazer um monte de coisa que não dá dinheiro você também!” Mas não. Em vez disso, estamos aqui, cada qual surtando com seu próprio prazo e seu próprio cliente inadimplente – ou, no meu caso, tentando escrever mais um texto acadêmico e, em vez disso, escrevendo besteira no blog.

Tenho uma teoria de que nós, gente de humanas que fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro, só teremos nosso valor devidamente reconhecido pela sociedade o dia em que o governo quiser subsidiar a vinda de tradutores, fotógrafos, poetas e psicanalistas cubanos. Aí sim seremos importantes – aí sim seremos potência.

Até lá, continuaremos fazendo um monte de coisa – e fingindo para a nossa família e nossos amigos com carteira assinada que ganhamos algum dinheiro.”

Texto retirado de  http://recordarrepetirelaborar.wordpress.com/

Constantemente eu escuto: Nossa, você é tão talentosa! Só precisa de um bom emprego. Você é tão criativa, mas o que seria bom mesmo é arrumar um emprego com carteira assinada. Quem sabe um concurso público? Para conseguir segurança, benefícios e dinheirinho certo todo mês…

— O que você faz?
— Desenho, pinto, escrevo e sou webdesigner .
— E para ganhar dinheiro?
¬¬

Pois é… triste. O texto acima é perfeito, só gostaria de acrescentar uma opinião. Acredito realmente que a desvalorização da área de humanas se relaciona diretamente à importância que as pessoas e a sociedade de uma maneira em geral valorizam a arte, a cultura, a filosofia e até a beleza que não se resuma no corpo, em roupas ou bens de consumo.

Não basta “os que não sabem ganhar dinheiro” se mobilizarem. Já viu movimento de professores mobilizar a sociedade? É necessário e urgente que as pessoas enxerguem como vital a necessidade de arte, beleza e questionamento para crescimento de uma sociedade. Imaginem esses dois diálogos.

— Você fez faculdade?
— Artes Plásticas.
— Ah.

ou

— Você fez faculdade?
— Medicina.
— Hummmm

Na área de humanas o desenvolvimento não é valorizado. É como se valesse menos a dedicação e empenho em se tornar um melhor artista ou pensador. E nossa sociedade não precisa tanto de cura da alma como do corpo? Enquanto isso, nós, “gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro”, seguimos lutando nossas batalhas com pincéis, lápis e teclados por pura paixão pelo que fazemos. Acho até que essa paixão deveria existir mais em muitos “profissionais que fazem coisas que dão dinheiro”.

Gostou desse texto? Leia também Vida de blogueira e não deixe de assistir o video “Te atreves a soñar?”, clicando nas imagens abaixo

Te atreves a soñar?

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