Resgate de um olhar

pai

Estava eu com meu pai, um senhor pouco grisalho para seus 76 anos de idade. Embora sua pele lisa não denuncie sua idade, sua enfermidade lhe cobre de uma aparência frágil e melancólica. Seu olhar comumente ausente, vez ou outra desperta diante de algum estímulo. É como uma estrela que brilha no meio de uma noite nublada por um mínimo vão entre nuvens densas. E nesse momento, o vejo vivo, como se despertasse de um coma profundo ou de um pesadelo inconveniente.

Ele olhou para mim, como há muito tempo não olhava, e me pediu para aumentar o som. Demoro alguns segundos para digerir aquele olhar profundo, tão vivo e tão efêmero. A trágica história de Juliana, José e João é cantada por Gilberto Gil. Em outro coma mais leve ele entrou, como se viajasse no tempo quando ouviu aquela música pela primeira vez. Ele até esboçou um sorriso com o canto dos lábios. Ou, sabe-se lá, era o riso nervoso de quem tomou consciência de que era parte daquela história. Um expectador impotente diante da desgraça iminente. Como eu diante de sua doença, da angústia de minha mãe, ou do medo do rumo que meu destino escolheu.

“O espinho da rosa feriu Zé, e o sorvete gelou seu coração…”

Observo sua fisionomia como quem observa um quadro em um museu, quando tentamos desvendar o que o criador pensava, sentia, queria te dizer. Não havia nenhuma mensagem para mim. Senti-me tola, porque não se pode em um olhar desvendar uma vida. Suas dores e amores. Mas seu olhar, aquele efêmero que traguei como último cigarro de um condenado, quase a implorar voltou a me fixar e me pediu uma nova canção. “Disparada”… sinto saudade dessa música…

“…Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…”

Ele voltou a habitar seu mundo particular. Não sei o que ele pensava. A música lançada um ano antes de eu nascer, não poderia ser mais atual. A luta pela sobrevivência, pelo reconhecimento, pela vitória. A ira contra a força que nos leva constantemente para baixo ou para a desistência…

A música acaba e ele pensa em voz alta: Nossa… E seu olhar desaparece novamente por detrás de seus pensamentos nublados…

Gostou desse post? Clique na foto abaixo e leia também “Não, meu pai não é um herói”

eu e pai

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7 pensamentos sobre “Resgate de um olhar

  1. Pois é, minha irmã… Outro dia me dei conta que talvez ele já tivesse partido definitivamente e eu não tivesse me despedido dele… fiquei com a sensação de despedida presa na garganta… Inevitável pensar em quantas vezes eu perdi meu pai e em quantas vezes enfrentarei a morte desse pai ainda vivo, sempre diferente e sempre voltando em vislumbres a ser ele mesmo.

  2. Não quero mais me despedir dele… Não sei que memória ele guardará em sua mente. De alguém que se despediu antes da hora, ou de alguém que simplesmente… se despediu… Prefiro tentar dar a ele só um sorriso e ter mais chance de que sua última lembrança de mim seja essa… só meu sorriso…

  3. Comentar?? De que jeito?? Minhas filhas, meus filhos, meus amores. Estamos unidos e teremos sempre a lembrança do pai que ele foi, da pessoa que conheci, amei e admirei muito. Só meu filho caçula não teve essa chance.

  4. Amadinha!! Como apaixonada por tudo o que possa melhorara vida sei que depois de muito relutar os tradicionalistas na área da saúde também já entenderam os efeitos estimuladores da música nos seres vivos até planta cresce mais viçosa!! E em pessoas com doenças cognitivas ‘degenerativas’ das quais também sei bem de onde vem, enfim,,, já sabem quanto estimula e os retira ainda que temporariamente do mundo em que se recolhem tão especialmente. Ponha músicas de sua geração todos os dias pra ele… e verá…, depois faça uma pequena rotina de buscá-lo e breves diálogos sobre o assunto depois me conta… beijo irmãzinha!!

  5. Ceres, muito lindo seus textos… e mas mais bonita ainda a motivação de escrever algo sobre o papai, diante dessa situação. Engraçado ver a mamãe dizendo que não pude conhecer o “antigo pai”. Pra mim, digamos assim, tô satisfeito com o pai que conheci, pois tive ótimas experiências com ele e tenho ótimas memórias. Fico feliz de saber que você poderá ter mais momentos agora com ele, de que poderá compartilhar mais com a mamãe o desafio de viver com ele e o ajudar ele assim como ele está. Outro dia ouvi uma notícia na TV, da morte de um compositor, e lembrei na hora do papai! Foi o cara que inventou aquela música Ronda, que eu sei de cor só porque o papai cantarolava ela em tudo o que era canto!

    Bjão!

  6. Oi Ceres! Que texto bonito!Vc me fez chorar de saudades. De saudades dos tempos em que vivíamos todos aqui em Vila Velha, nós os seis irmãos e mais as três primas.Éramos uma família grande e feliz, vivendo uma simplicidade onde não faltava carinho e alegria. Senti saudades das comemorações dos muitos aniversários onde sempre havia um bolo confeitado de glacê branco coberto de côco ralado; sinto saudades dos passeios em que toda a família fazia à noite pelas ruas tranquilas apreciando as estrelas, os adultos conversando e nós as crianças correndo e brincando em volta deles…Que saudades!
    Embora tenhamos tomado rumos diversos o amor que nos uniu permanece em cada um de nós como um grande abraço!

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