De Salvador para Hollywood – Wagner Moura

04-04-2013_Wagner_Moura_Contradicao

Wagner Moura, o baiano de Salvador é um dos mais queridinhos atores brasileiros. Conquistou o público desde sempre, mas sem dúvida nenhuma sua atuação em Tropa de Elite o consagrou. Ainda assim fica difícil não mencionar outros trabalhos que adorei, como Abril Despedaçado, Deus é Brasileiro e Caminho das Nuvens. Recebeu inúmeros prêmios de melhor ator, todos merecidos. Marcou sua presença no cinema brasileiro, no teatro, na televisão. Tem uma banda que cultua a música brega e estudou jornalismo também. Inteligente e consciente de sua responsabilidade social, se posiciona com frequência em relação a questões ambientais, contra a homofobia, às causas de violência contra a mulher, exploração de trabalho infantil, prostituição e outras mais tão importantes quanto estas. Não dá para não se apaixonar por esse cara! Eu pessoalmente podia dar casa, comida e roupa lavada. Mas quando ele me pediu em casamento eu estava muito confusa e ele acabou se conformando e tocando a vida… hahaha. Tá, tudo bem. Eu escorreguei aqui. Vamos ao que interessa.

Como figura pública e popular que é, não está livre das consequências de sua visibilidade. Quando participou de um tributo à Legião Urbana pela MTV, recebeu críticas pesadas. Como sempre, usou de sua inteligência e bom senso com a resposta humilde e sincera digna de pessoas que conquistam meu respeito.

“Não me importo com as críticas, apenas com o meu prazer. Se eu fosse pensar no que os outros pensam, eu nem saía de casa. Naquele show eu não estava trabalhando, estava vivendo.”

Em outra situação, quando foi alvo de um humorista desses que seguem a linha Pânico na TV, deu uma resposta que apesar de comprida e de ter rodado ao monte pelas redes sociais, acho que vale ser registrada e lida por quem ainda não teve a oportunidade.

“Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do por favor, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo “que coisa horrível” (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.
O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.
Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência
Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então agüenta! O que que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro (Ramos) também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.
No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a “cagada” que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos. Será?”

Pois é, muito legal termos motivos para nos orgulhar de um brasileiro numa terra tão cheia da “Lei de Gérson”, celebridades relâmpago e alienação. Mas a novidade é que agora seu talento foi reconhecido nada menos no mais famoso mercado de cinema do mundo, Hollywood. Não estou discutindo cinema cult aqui e quantos outros países desenvolvem filmes lindíssimos. Mas não podemos negar o que significa na carreira de um ator ser reconhecido na América.

Wagner Moura vai estrear em Hollywood. Não será um mero figurante e vai contracenar com Matt Damon, Jodie Foster, William Fichtner e Alice Braga (outra brasileira se destacando aí!). Do diretor Neill Blomkamp,a trama se passa em 2154, quando a humanidade, nada diferente de hoje, está dividida entre os ricos e pobres. Os ricos vivem em Elysium, um estação espacial que oferece todo o luxo e assistência necessária para uma vida confortável. Já os pobres estão na Terra, destruída e sofrendo com a escassez e outros resultados da superpopulação. Aí entra o personagem principal, Max, e sua missão é ir pra Elysium e tentar salvar a sua vida e da galera toda que está na Terra se f*dendo. Devido a sua atuação excepcional em Tropa de Elite, o diretor deu total liberdade para o ator poder criar e se sentir a vontade para interpretar seu personagem em Elysium. O filme ainda não estreou, mas será lançado no Brasil em 20 de setembro. Nem é o tipo de filme que mais aprecio, mas não vou perder!

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