A Sagrada Família

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Acordei animada. Eu sempre fui uma admiradora de Gaudí e sabia que a Sagrada Família iria causar um efeito arrebatador em mim. Fui caminhando até lá e quando cheguei em uma rua próxima, pensei estar perdida. Parei para pedir informação e um rapaz me indicou a primeira direita. Desacreditei que a ajuda seria útil, mas ao virar a esquina, no final de uma estreita ruela com árvores quase nuas, as quatro torres da fachada frontal do templo apontavam pro céu. Vistas pela lateral da igreja, pareciam fundidas em uma só e a cada passo que eu dava as que estavam atrás da primeira iam aparecendo. Foi uma sensação muito parecida com o primeiro encontro do meu olhar com o Coliseu e a Fontaine de Trevi em Roma. Esse despreparo ao se deparar com alguma coisa tão gigante que livros e imagens de televisão não conseguem retratar. A emoção explodiu em mim e eu chorei. Lágrimas de espanto, de surpresa. Toda aquela grandiosidade amedronta. E mais assustador é pensar em uma mente que concebe isso. Quantas maravilhas o homem foi e é capaz de fazer…

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Enquanto caminhava para a parte frontal da construção, mais e mais surpresas se revelavam. Creio que a melhor definição dessa fachada, a da Paixão, foi feita pelo próprio criador.

 “Alguien encontrará esta puerta demasiado extravagante; pero yo querría que haga miedo, y para conseguirlo no ahorraré el claroscuro, los motivos entrantes y salientes, todo lo que resulte de más tétrico efecto. Es más, estoy dispuesto a sacrificar la misma construcción, a romper arcos y a cortar columnas para dar idea de lo cruento del Sacrificio”
Antoni Gaudí

Alguém encontrará esta porta extravagante demais; mas eu queria que desse medo, e para conseguir não pouparei o claro-escuro, os motivos entrantes e salientes, tudo o que resulte de mais tétrico efeito. E mais, estou disposto a sacrificar a própria construção, a romper arcos e a cortar colunas para dar ideia da crueldade do Sacrifício.

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Dessas palavras só o que posso dizer é que ele conseguiu. Cada escultura guarda uma emoção diferente e suas formas estilizadas e modernas não impedem de parecerem vivas, a observar os meros mortais que perplexos, são hipnotizados por aquela visão, mas que nunca alcançarão o entendimento completo de tudo que elas expressam.

Resolvi pagar o pacote completo para visitar o templo, as torres, o museu subterrâneo e o áudio guia. Não me arrependi e se tivesse que dar um conselho para alguém, é que se tiver a oportunidade de ir até lá, façam o mesmo. Alguns lugares podem ser admirados apenas pela beleza, mas outros, como a Sagrada Família, precisam também ser entendidos.

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Comecei meu tour pela torre. Depois de arrastados quarenta minutos em uma fila consegui chegar à escada caracol de metal que leva ao elevador. Na lateral, funcionários do atelier estavam parcialmente escondidos por detrás de uma janela de vidro, tapada pelo esboço de uma das esculturas que vira poucos minutos antes na fachada da igreja. O elevador que só comporta doze pessoas em cada viagem, me levou até o ponto mais alto permitido, só algumas escadas a mais podiam ser subidas a pé. A altura impressiona. Pude localizar o prédio em formato de oviga que me fez ter ideia da extensão que havia andado.  A vista de Barcelona lá de cima é linda, claro. Mas a construção é tão impressionante que a vista panorâmica foi o que menos fisgou meu olhar.

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A escada da torre é muito estreita, passando apenas uma pessoa de cada vez, o que explicava a espera na fila para subir. Não é possível que muita gente vá ao mesmo tempo. Toda a parede que separa a torre do lado externo, é repleta de ‘janelinhas’ cujo formato e posição lembram telhas sobrepostas vazadas que dá espaço para a luz. Em um trecho ou outro há pequenas sacadas, que também pedem a colaboração dos turistas que se revezem a fim de que todos possam visitá-las. O que mais me impressionou no começo foi olhar a ponta das torres que exibem cachos de frutas feitos de mosaico. Para visualizá-las eu olhava para baixo e pude perceber a dimensão da altura que me encontrava. A gravação que ecoava as badaladas do sino me chamaram a atenção para a parede interna formada por janelas mais altas e muito finas. Quando olhei para dentro, o caracol formado pela arquitetura era colorido pela sol que atravessava as centenas de janelinhas que rodeiam toda a torre.

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Nesse ponto, muitos turistas voltaram para descer pelo elevador. Eu e alguns poucos curiosos descemos pela escada. Daí em diante, as janelas das laterais externas foram ficando mais e mais espassadas. O ‘caracol’ se fechou até não restar mais nada além da escada que na parte interna era aberta e não tinha apoio nenhum. É difícil descrever como me senti na descida por aqueles degraus. A sensação clautrofóbica de estar sendo ‘esmagada’ pelas paredes só era quebrada quando uma ou outra janela dava vazão para a luz do sol. Eu só pensava quando aquela escada iria parar de se estreitar. Meus passos eram inseguros como se eu estivesse andando na escuridão sem conhecer o caminho. Fiquei profundamente irritada ao ver nomes escritos nas paredes. Como alguém pode ser tão desrespeitoso e cego para não perceber o valor daquele patrimônio?

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Passei por algumas portas trancadas por cadeados e outras por grades, até chegar na de saída na lateral do interior do templo. Foi como um choque térmico. Eu sozinha, em silêncio na escada escura, parecia estar diante de outro monumento muito distinto quando saí ali. A cor terra escura das paredes externas, não sugerem em nada a claridade que se esparrama dentro. Fui até o fundo da igreja para ter uma ideia global da construção. Os raios de luz do sol atravessavam os vários vitrais colorindo a igreja, cuidadosamente planejados para espalhar uma luminosidade harmônica e suave, criando um efeito de recolhimento. Talvez por isso o burburinho dos muitos turistas parecia tão contido. As colunas coloridas são altíssimas, chegando a mais de 20 metros de altura. Na parte superior elas se bifurcam em três, sustentando o teto como troncos sustentam as copas das árvores.

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O áudio guia sugere que fechemos os olhos, voltemos nossas cabeças para o alto e depois de ouvir a música que toca no fone por alguns segundos, abrir lentamente os olhos. E sim, era como se eu estivesse em um bosque de pedras. Gaudí havia se inspirado nos elementos da natureza para cada detalhe do projeto. Conchas, estrelas, ondas, árvores e animais podem ser identificados nas formas de qualquer parte onde desvie o olhar. É completamente indescritível falar sobre esse monumento, o que causa uma frustração em mim ao arriscar essas palavras. Não há um só metro quadrado dessas paredes que um olhar atento não se encante, não se surpreenda e não se emocione.

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Saí pela Fachada de Natividade. Por ela Gaudí começou a construção. Sabendo que não estaria vivo para ver o fim dessa obra, optou por completá-la para dar ideia da concepção global e da estrutura do templo. Escolheu pelo tema dizendo:

“Si en vez de hacer esta fachada decorada, ornamentada, turgente, hubiese comenzado por la Pasión, dura, pelada, como hecha de huesos, la gente se habría retraído.”

Se em vez de fazer esta fachada decorada, ornamentada, turgente, começasse pela da Paixão, dura, pelada, como feita de ossos, as pessoas ter-se-iam retraído.

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Essa fachada é toda ternura e encanto, repleta de animais e anjos. Nenhum detalhe foi inserido por acaso. Para tudo há uma simbologia. Como as tartarugas, uma do mar e outra da terra, que remetem ao tempo e os camaleões, às mudanças. Seus pórticos possuem cenas que representam a fé, a esperança e a caridade. E no centro, bem ao alto, o presépio encena o nascimento de Jesus. Segundo o projeto original de Gaudí, essa fachada seria inteiramente pintada numa explosão de cores vivas e alegres.

Caminhei para o museu. Estava bem vazio. Maquetes, esboços e fotos antigas registram a história do templo, desde sua concepção, construção, a parcial destruição durante a Guerra Civil Espanhola e os projetos para conclusão dela. À princípio, previsto para 2026 ou 2030, não me lembro ao certo.

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Quando acabei meu tour, não tive coragem de ir embora de imediato. Sentei em frente à Fachada da Natividade e fiquei ali ‘brincando’ de encontrar animais. Assim como essas palavras, nenhuma foto que eu tirei pode descrever o que vivenciei ali. Imagens que estão gravadas em minha memória. A mim só resta uma esperança de um dia vê-la terminada, sem os andaimes que disfarçam sua beleza e com a torre central que será mais alta que todas já feitas.

Mais fotos, acesse o link https://www.facebook.com/media/set/?set=a.551143771573146.1073741825.100000325830399&type=1

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3 pensamentos sobre “A Sagrada Família

  1. Esse relato não poderia chegar em melhor momento do que quando se comemora a paixão, morte e ressureição de Cristo. Verdadeira mensagem de amor, da capacidade incrível de criação do homem. Lindo ! Parabéns!

  2. Ceres, realmente vc tem se superado. Como consegue conlocar em palavras sentimentos tão intensos e verdadeiros!! Nenhuma foto seria capaz de reproduzir o impacto que essa obra nos causa, mas suas palavras em muito se aproximam do susto que nos causa a Sagrada Familia! Saudades de vc, menina

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