Medos e memórias

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Não lembro com detalhes dessa casa que vivemos. Tenho alguns flashes apenas na cabeça. Um jardim de inverno onde o mormaço reinava, a edícula que servia de escritório e biblioteca para a imensidade de livros que meu pai acumulava dia a dia e da sala onde apresentávamos peças de teatro nas tardes de domingo dirigidas pelos irmãos maiores para o seleto público de tias e tios. Lembro do comprido corredor do quintal e do som do velotrol, que no auge da busca por adrenalina, alcançávamos sua velocidade máxima. Era quando minha mãe aparecia na porta da cozinha para gritar sobressaltada que tomássemos cuidado com a irmã menor que podia se machucar. Forte imagem ainda guardo também do jardim de frente da casa. O jardim que meu pai sonhara, mas que diferente dos sonhos, não tinha nem paciência nem talento para cuidá-lo. Alguma lembrança tenho da cozinha. Eu, nas memórias muitas vezes distorcidas não posso afirmar ao certo, mas creio que era bem pequena em proporção à casa térrea e grande. E o engraçado é que conforme escrevo essas palavras, mais e mais lembranças ressurgem. É meio como um móvel empoeirado que não nos damos conta. Daí assopramos e uma nuvem dissipada revela as inúmeras partículas que se mostram contra a luz do sol que entra pela janela. Mas voltarei minha atenção ao foco desse texto, dessas palavras que se refugiam de minha mente e que protestam em busca de serem registradas. Que mantêem-se vivas concretamente não mais só em minha memória, mas nas folhas de um papel. Tolas elas… podem eternizar-se ou simplesmente morrerem, amassadas raivosamente e jogadas em um lixo qualquer…

Meu pai nunca teve apreço por animais domésticos, tão pouco repudiava. Mas como minha mãe nunca teve vontade de criá-los e tinha um bom argumento para não ceder, foram poucas as ocasiões que tivemos bichinhos de estimação, e ainda assim não duraram muito tempo. Para minha mãe, e diga-se de passagem não tiro sua razão, cuidar de seis filhos já era trabalho suficiente que dividia com meio período que se dedicava como professora de cegos. Eu sempre tive medo de animais, desde criança. Lembro quando eu tinha cerca de nove anos, que um filhote de cachorro foi adotado pela pressão da maioria da tropa de crianças que espalhavam euforia pela casa. Como todo bom filhote, ele era uma graça. Seduzia a todos com seus grandes olhos e pêlo brilhante. Um autêntico tomba-latas que se tivesse ficado muito tempo conosco, provavelmente teria se tornado o mais comum dos cachorrros. Mas filhotes tem esse dom, o de superar os padrões de beleza. Deve ser a meiguice do olhar, a sua fragilidade ou o comportamento destrambelhado que rouba risos das crianças e encanto dos adultos.

E nessa casa que poucas imagens ficaram registradas em minha memória, que eu, através da janela do quarto com grades, observava meus irmãos brincando com aquele brinquedo vivo. E eu invejava. Meu desejo era igual de todas as crianças. Pegar e sentir o pêlo macio, vê-lo interagir e brincar com ele, mas meu medo era maior. Às vezes, quando os irmãos cansavam de brincar com ele — como é de praxe das crianças que abandonam seus interesses da mesma força que o desejam com intensidade – eu criava coragem e ia lá.

Hoje por pura casualidade de não conviver com muitos animais, não me perguntam tanto. Mas por muitos anos, cada vez que eu não conseguia controlar o medo ou disfarçá-lo, o justificava por ter sido mordida por cachorros três vezes quando criança. Na verdade, eu acreditei nisso por muito tempo. Hoje, adulta, eu sei que não fui mordida. Lá com meus nove anos, quando eu ia escondida brincar com aquele pequeno vira-lata para tentar me aproximar no ritmo que meu medo permitia, ele mordiscava minha mão, como qualquer filhote o faria, apenas isso. Era um desafio para mim. Eu me aproximava lentamente. Certificava-me que estava com sapatos fechados para proteger os pés. Que a porta da cozinha estava aberta para eu correr no caso de uma emergência e de que ninguém estava me olhando para que eu não sentisse a vergonha que me expor como uma covarde.

Poderia citar aqui as inúmeras experiências assustadoras, constrangedoras e intimidadoras que passei em minha vida por conta dessa fobia. Não é fácil conviver com medos, principalmente os medos que a maioria não sente. Eu poderia ter medo de monstros ou ladrões. Teria sido infinitamente mais fácil porque a grande maioria o tem. Mas medo do animal mais popular de toda a humanidade? Quem o entenderia? A resposta é minha mãe… Claro, mães na maioria entendem os receios mais intensos da alma de um filho. Talvez ela entendesse porque também sentisse, eu não sei…

Depois que tive filhos, eu aceitei ter gatos. Claro, havia algumas condições. Eu trancava meu quarto à noite quando eram filhotes para não correr o risco de acordar com eles brincando com meus pés, eu os alimentaria, mas não teria contato físico com nenhum. Alguns eram como intrusos que eu respeitava por trazer aos meus filhos todas as vantagens que uma criança adquire em conviver com um bicho de estimação. Outros me conquistaram, poucos, mas conquistaram. A que eu mais gostei era uma gata vira-lata achada em um estacionamento; Sascha, do “Pedro e o Lobo”. Ela era rajada de cinza e tinha um temperamento particular. Certa vez, colocou um cachorro para correr. Mas o que eu mais gostava daquela gata, é que ela me entendia. Mantinha uma distância de um metro de mim apesar de estar sempre próxima. Quando eu cozinhava, estava deitada ou indo para o ponto de ônibus para trabalhar, lá estava ela com sua devida distância respeitosa. E eu chorei quando ela morreu. Assim como chorei por Baguera e Frida, outras gatas com temperamentos muito distintos e muito queridas. E aprendi a conviver com alguns medos também.

Estou chegando na metade de minha vida. Digo isso porque sou otimista. Me recuso a pensar que poderei morrer antes dos 90 anos. Ainda guardo comigo um desejo de morar em uma casa com espaço e ter um cachorro. De criá-lo de forma a conquistar a mesma confiança que foi adquirida com algumas gatas que passaram por minha vida. Mas ainda sinto medo… Demorei muito tempo para perceber a coragem que existia dentro de mim. Não tenho medo de mudanças. Nem de sentimentos intensos. Nem de arriscar ou desnudar-me emocionalmente diante das pessoas. O julgamento alheio me atinge sim, mas eu administro. E daí que a gente percebe que medos existem em todos. E que nossa única responsabilidade é tentar vencer os próprios e respeitar o dos outros. E que as causas dos nossos medos, na grande maioria das vezes são tão irreais como as mordidas imaginárias que recebi na infância. E isso me dá uma coragem danada de sadia para continuar adiante…

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2 pensamentos sobre “Medos e memórias

  1. Na minha memória aquela cachorrinha pretinha, muito esperta, para brincar dava pulos e arrancava a roupa do varal. Eu tinha que lavar novamente…ninguém merece. Adorei o texto e sua suaves lembranças. bjs

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