O sedutor mistério medieval e os castellers

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Foto extraída: http://wartotheworld.blogspot.com.br/2010_11_01_archive.html

Após o pôr-do-sol a noite caiu rapidamente, mas ainda era cedo para encontrar-me com Joan. Ele sairia do trabalho e participaríamos do meeting do CS em Barcelona. Eu estava ansiosa por isso, pois a comunidade de lá é bem ativa e achei que seria uma ótima oportunidade de conhecer outros viajantes. Enquanto não chegava a hora, decidi me embrenhar dentro do famoso bairro gótico. Desculpem-me quem acompanha esse relato com frequência, mas não há como não ser repetitiva. É lindo! 

É o bairro mais importante que forma o centro histórico de Barcelona e considerado um dos núcleos medievais mais extensos de toda a Europa. Andar por aquelas ruelas estreitas forradas de enormes pedras é uma sensação inenarrável para quem, como eu, se delicia com construções antigas. Eu ficava imaginando que para me sentir em séculos passados, só faltavam as pessoas se vestirem com roupas de época. Quanto ao lixo que provavelmente infestava os centros urbanos das antigas cidades, eu apaguei da imaginação porque não tinha nada de romântico nisso simplesmente. Os enormes paredões das construções de pedra colaboravam para a escuridão da noite avançar rapidamente e só era quebrado pelas luzes amareladas dos velhos lampiões de rua. Tudo ali fazia crescer o clima de um mistério sedutor.

Comprei uma cerveja muito barata em um pequeno mercado que, ao contrário da luz da rua, era iluminado com as frias lâmpadas neon em um exagero de intensidade que chocava os olhos já acostumados com a luz difusa. Um indiano que, parecia ser o dono, desconsiderava a presença dos clientes brigando em alto e bom som com um senhor de idade avançada que parecia ignorá-lo por completo, mantendo em seu rosto a feição tranquila e serena de quem assiste a um pôr-de-sol da varanda de casa.

Sentei-me em uma praça sob o ar frio da noite. Atrás de mim uma bela fonte onde um rapaz desenhava fornecia a trilha sonora calma da água que jorrava. À minha frente, eu observava a igreja em frente à praça. Depois do século XIX, quando a estrutura original do bairro passou a sofrer alterações, muitas praças foram construídas para substituir cemitérios paroquiais. Lá estava eu sobre os fantasmas do passado, em um terreno que um dia foi considerado sagrado, não havia como não me emocionar… Um bar colocara algumas mesas na praça na ausência de calçadas. Um casal apaixonado fixava o olhar um do outro, naquela ânsia de ler o ser amado, de gravar os traços, de interpretar os modos. Foram interrompidos pelos latidos histéricos do cachorro que até então repousava ao lado da cadeira. Talvez ele soubesse que naquele momento a atenção para ele estava fora de questão, mas não resistiu ao ver outro cão, muito menor que andava soberbo limitado pela coleira da dona que assustou-se com a presença do cachorro maior. A aparência deles me fez lembrar do início do desenho dos 101 Dálmatas, onde os cães assumem a postura dos donos chegando até a aparentarem fisicamente com os humanos. Ou seria o inverso?

Despertei desse ‘déjà vu’ de uma cena de um filme de Wood Allen com o telefonema de Jo. Conversamos um pouco e depois fui em direção ao meeting que ficava em um bar próximo de onde eu estava, mais uma vez frustrada pela máquina fotográfica que eu não conseguia manipular para paisagens escuras. Eu estava um pouco tímida porque Joan me mandou uma mensagem dizendo que se atrasaria um pouco. Eu não senti durante toda a viagem nenhuma apreensão em ficar sozinha, pelo contrário, foi uma solidão recebida de braços abertos e que me ofereceu uma intensa sensação de tranquilidade. Mas entrar em um ambiente público onde eu não conhecia ninguém me deixou nervosa. Circulei pelo bar. Os ânimos já estavam alterados. Não encontrei nenhuma recepção como ocorre nos meetings em São Paulo, então comprei uma cerveja e me sentei em um balcão um pouco mais distante do burburinho.

Pouco tempo depois chegou um rapaz para conversar comigo. Josep, muito simpático, parecia tão deslocado quanto eu apesar de estar em sua própria cidade. Como toda boa surpresa, me encantei com a inesperada conversa ouvindo suas narrativas a respeito dos ‘castellers’. Ele era membro do ‘Colla’, grupo originário de profunda tradição catalã que formam castelos ou, como é mais conhecido, torres humanas. Mas essa não é apenas uma mera representação cultural como dança por exemplo. Voluntários de todas as idades, sexos, convicções políticas ou religiosas, se unem com um único objetivo; promover a democracia, desenvolver a cooperação e o espírito de equipe, além de superar os limites constantemente. É sempre fascinante nos depararmos com pessoas que possuem brilho nos olhos e acho a conservação de tradições culturais tão fundamental no mundo que me senti contagiada pela energia dele.

Dois amigos dele chegaram pouco tempo depois. Não consegui conversar muito porque falavam muito rápido e a música naquele momento estava tão alta que nem insisti. Joan também chegou em seguida e ele é sempre uma companhia agradável. É um amigo que tenho admiração e carinho profundos e certamente sempre terá um espaço reservado em minhas recordações.  Fui ao banheiro antes de irmos embora. Apenas um banheiro funcionava criando uma fila ao lado do balcão do bar. Na minha frente, dois rapazes jovens puxaram conversa comigo enquanto esperavam a vez. Ao responder qual era a minha nacionalidade, um deles solta:

— Aqui temos uma tradição. Quando há uma brasileira na fila, entramos em dupla no banheiro.
Eu fiquei alguns segundos assimilando aquela frase. É impressionante quantas sensações e pensamentos podemos vivenciar em segundos. Eu olhava os dois rindo da piada preconceituosa e machista pensando o quanto queria retribuir na mesma moeda. Minha vontade era só dizer; ‘vai babaca, cala a boca’. Nunca consegui entender gente assim ou que ri do tombo alheio, sei lá. Só sinto uma tristeza pela condição humana que chegou a esse ponto, de não perceber o próprio ridículo.
— Vocês vão entrar juntos? Disse calmamente apontando para os dois, com um sorriso no rosto.
Enquanto um virou-se contrariado sem falar mais comigo, o outro levou na esportiva. Sorriu e disse:
— Vale! Como eres rapida, eh?

Eu fui alertada por muita gente antes de viajar sobre o fato de ser mulher e brasileira, sozinha em uma terra estranha. Falavam sobre os preconceitos que existem e da visão deturpada que algumas pessoas tem de nós. Ouvi histórias das mais variadas, inclusive de pessoas que conheço, confio e sei que não inventariam. Até acho que nosso comportamento se diferencia mesmo do deles. Somos mais sorridentes. Mantemos mais contato físico, como abraços que não vemos a menor malícia. A postura mais distante e cerimoniosa deles pode até causar um enfrentamento cultural, mas hoje em dia acredito mesmo que uma situação como essa que eu passei foi só um fato isolado. Em trinta e quatro dias de viagem, além dessa, só passei por uma situação parecida com o vigia da Catedral Vieja de Salamanca. Todo o tempo restante fui tratada com respeito e de forma muito acolhedora. Eu poderia estar alerta em qualquer outro lugar, mas não dentro do grupo do couch surfing, formado na grande maioria por jovens, viajantes, que vivem em um mundo globalizado e que a ideologia do grupo é compartilhar culturas e enriquecer os momentos que um viajante está em uma terra estranha dando-lhe apoio e suporte. Enfim, talvez eu que esteja velha e intolerante demais.

Terminamos a noite entre saideiras, conversas sobre ‘castellers’ e couchsurfing. O meeting em si me decepcionou um pouco, mas a noite valeu. Ainda teria uma festa, mas pensando em Joan que trabalharia no dia seguinte e pelo fato de eu não ter me entrosado muito com os outros couch surfers, acabei desistindo de ir. Antes de dormir eu só pensava se um dia eu teria a chance de voltar à Barcelona e assistir à uma apresentação de torre humana. Planos para o futuro…

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