Barcelona e seus encantos

olhares vagando pela imensidão do mar, ou sabe-se lá, pelo infinito de seus próprios pensamentos.

olhares vagando pela imensidão do mar, ou sabe-se lá, pelo infinito de seus próprios pensamentos.

Passava um pouco das dez horas da manhã. Joan tinha acordado mais cedo e já tinha ido trabalhar sem que eu o visse sair. Ele havia separado para mim um mapa e me passado algumas coordenadas de como me movimentar pela cidade. Apesar de ser grande, algumas vias que cortam a cidade me ajudariam bastante. Optei por conhecer a orla primeiro, caminhando pela Rambla Poblenou, acompanhando a praia de Bogatell até Barceloneta, passar pelas marinas e seguir em direção ao bairro gótico.

A beleza apaixonante das crianças encapuzadas

A beleza apaixonante das crianças encapuzadas

Atravessei a Via Diagonal e a paisagem urbana com seus altos arranha-céus me lembrou a região da Faria Lima. Certamente ali havia um centro comercial e financeiro ativo e ficava um pouco distante do centro antigo. Era muito arborizada, como todo o resto que tive a oportunidade de conhecer, mas o inverno coloria a vegetação com cores pastéis ou simplesmente desnudavam os troncos das árvores. Encantada comecei a ficar, ao passear vagarosamente pela bela Rambla Poblenou, região do antigo centro industrial que liga as montanhas à costa. É uma avenida só para pedestres, muito chique, cheia de bares e restaurantes. A cada rotatória circular pude me deliciar com suas construções modernistas, inclusive o Casino D’Aliança Del Poblenou… lindíssimo. Da mesma maneira que me chamava a atenção desde o começo da viagem, ainda na Itália, as crianças encapuzadas continuavam a roubar sorrisos de minha boca. Em frente à uma mercearia com barracas do lado externo expondo uma variedade de legumes, frutas e verduras que coloriam a paisagem pastel, duas meninas buscavam a atenção de um chiuaua assustado.

Personagens que enriqueceram o cenário

Personagens que enriqueceram o cenário

Uma grande via paralela à costa litorânea, divide o bairro da praia. Acompanhando a avenida movimentada, um parque revela sua tenra idade através do tamanho das árvores ainda em crescimento. A imagem da praia me fascinou. Mesmo para nós brasileiros, acostumados com as paisagens paradisíacas do nosso litoral, a praia de Barcelona não passa sem causar surpresa. Não diria que nem pelos atributos naturais em si, ainda que o mar seja uma fonte inesgotável de admiração, mas todo o clima pela qual ela faz parte. Pessoas se exercitando, caminhando à pé ou de bicicleta, alguns de patins com seus fones de ouvido, as marinas que sempre inspiram à uma boa tela de pintura com seus milhares de mastros disputando lugar no céu, as construções e a arte modernas que se misturam à tradição, os estacionamentos de bicicletas para aluguel, as palmeiras trazidas de alguma terra distante… Talvez seja um dos lugares que eu tenha mais dificuldade de descrever, porque o fascínio que ela emana vai muito além das belezas concretas concebidas por formas, cores e texturas.

A tranquilidade existente em uma cidade grande

A tranquilidade existente em uma cidade grande

Com exceção da passagem por Valladolid, Salamanca e Palência, tenho certeza que eu tive muita sorte nesse inverno que me abraçou com seu sol morno e seu céu de poucas nuvens. Todas as paisagens vinham acompanhadas de uma luminosidade que as valorizava e os finais de tarde eram cobertos de um véu translúcido dourado e romântico. Quase em frente à Barceloneta, muitos bancos de cimento estavam preenchidos por pessoas que descansavam, liam ou tinham seus olhares vagando pela imensidão do mar, ou sabe-se lá, pelo infinito de seus próprios pensamentos.

Beleza e simplicidade - Barceloneta

Beleza e simplicidade – Barceloneta

Desviei da costa, atenta à posição do hotel em formato de veleiro para ponto de referência, e adentrei um dos bairros mais famosos da cidade catalã. Ainda na praia, uma escultura de um prédio irregular onde os andares se equilibram, ou melhor dizendo; se desequilibram, um acima do outro, representa bem esse bairro. Barceloneta é inexplicável! É aquela feiura que se torna bela, como barracos de uma favela que formam uma paisagem poética à distância. Originalmente um reduto de marinheiros, possui poucas casas, se é que havia alguma, em minha memória só guardo os vários prédios baixos, de quatro a seis andares com suas sacadas usadas de varais. A largura das construções ocupava a extensão de cada estreito quarteirão, projetado dessa maneira para oferecer maior circulação de ar aos andares que davam visão às ruas paralelas, eram simétricos e se cruzavam. Num ponto e outro eram ligados por corredores suspensos que unificavam os prédios. As ruas são movimentadas de crianças, idosos sentados nas calçadas em cadeiras de praia, jovens ouvindo música alta e bares de tapas.

uma história desconhecida

uma história desconhecida

Depois de atravessar pelo bairro, saí em frente à uma das imensas marinas, esta ficava adiante do Museu D’Historia de Catalunha. No calçadão, um grupo de rapazes dançavam rap, outro grupo de skatistas ocupavam outra área perto das baixas escadas. Uma senhora com sua gata era uma cena rara, dessas que na maioria se vê em grandes metrópoles, onde a loucura e a fantasia que se misturam são incorporadas por seres anônimos, muitas vezes invisíveis à grande massa da população atarefada. Um casal a fotografava, mas assim que saíram ela se sentou no chão ao lado de seu carrinho de plástico pink enfeitado na borda com flores artificiais. Como cama para seu animal de estimação que usava um grande laço cor-de-rosa escuro como coleira, um tapete redondo de crochê da mesma cor. Ao lado, uma pequena vasilha serviu de recipiente para servir leite à gata. Em sua cabeça, a idosa usava um capuz rosa claro para se proteger do frio. Fiquei hipnotizada pelo seu olhar distante que intercalava com momentos de cuidado e zêlo com sua companheira felina. Talvez ela nem fosse uma moradora de rua. Isso me deixava confusa… Até os mendigos europeus são diferentes dos nossos. Certamente a temperatura do ambiente também influencia no visual e comportamento da população pobre de lá. Surtos de loucura como se vê com tanta frequência aqui em São Paulo, vi poucos. O que primeiro me vem à memória é o mendigo em frente à Iglesia Santa Maria Maggiore aos brados contra seu inimigo imaginário, na minha última noite em Roma. Mas aquela senhora não estava agitada. Qual seria sua história? Realmente eu gostaria de ter ouvido, mas com a timidez que sempre me acompanha e seu olhar distante, não tive coragem de me aproximar para iniciar uma conversa.

Museu D'Historia de Catalynia e o por-do-sol mais emocionante dessa viagem

Museu D’Historia de Catalynia e o por-do-sol mais emocionante dessa viagem

O prédio do museu era construído com tijolos à vista. Em sua base, uma fileira de arcos altos abriam alas ao pátio térreo onde ficava sua entrada. Não resisti e entrei ao menos na recepção mesmo sabendo que não poderia pagar. Meu dinheiro já estava acabando e eu aguardava um depósito que meu chefe deveria ter feito uma semana antes. Eu tinha que fazer escolhas e certamente optaria pelo Museo Del Prado e Reiña Sofia em Madri na próxima semana. Então me conformei em observar a arquitetura externa e o saguão escuro onde folheei alguns panfletos e ative meu olhar à alguns cartazes com propagandas de vários eventos e lugares que valeriam a pena conhecer. Do lado de fora do prédio, em frente à marina, um restaurante de luxo estava vazio. Na praça próxima não pude seguir adiante por quase uma hora. Um cantor de rua com sua caixa de som fazia repercutir o som da gaita, do violão e de sua voz. Foi o pôr-de-sol mais emocionante que vivenciei naqueles dias. A paisagem dourada pelo sol, o som da música e das gaivotas que sobrevoavam a marina, o talento de uma pessoa extraindo emoções do interior de ouvintes atentos.

Barcelona dourada - uma cidade de ouro

Barcelona dourada – uma cidade de ouro

Ao perguntar sobre o preço do CD que vendia, o rapaz tirou seus óculos escuros exibindo um azul indescritível. Achei os quinze euros um pouco salgado. Não que talento tenha preço, mas meu bolso tinha. Para não perder o costume, aparentemente eu tinha uma placa na testa anunciando “aqui vai uma brasileira que fala um portunhol sofrido”. Confirmando afirmativamente minha origem, ele passou a me contar sobre seu sonho de conhecer o Brasil e tocar no calçadão de Copacabana. Mostrou-se incrédulo ao saber que eu não conhecia a famosa cidade maravilhosa e conversamos um pouco sobre a música brasileira. Foi uma conversa agradável e não muito longa, mas que me rendeu um CD de presente com a única condição de enviar um link para seu e-mail do vídeo que eu fiz. Aceitei com carinho e agradeci com um sorriso sincero e emocionado.

Mais fotos, acesse: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.533400340014156.118521.100000325830399&type=1

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