Um encontro inusitado

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Demorei um pouco para me recuperar da despedida. Escrevi uma mensagem a ele agradecendo por tudo e recebi uma carinhosa resposta. Guardei o celular, peguei a máquina e comecei a me distrair com a paisagem desconhecida. Longos campos, às vezes com plantações, e montanhas rasas no horizonte que formavam esculturas de pedras fisgavam meu olhar. Num ponto ou outro, casebres abandonados despertavam em mim a história de um alguém ou uma família que já vivera ali um dia no meio do nada. Em outros pontos pequenos vilarejos sempre tinham uma torre de igreja que apontava mais alto. Espaços imensos com placas de energia solar sugavam o pouco calor que o sol transmitia naquela tarde fria. E altas torres de energia eólica me lembravam os moinhos e Dom Quixote. Mas a Espanha não luta mais contra os moinhos de vento, hoje é a quarta maior produtora de energia eólica do planeta. Estradas sempre me fizeram bem, me desperta o desejo de voar como um pássaro. Eu voaria raso, às vezes até tocaria a plantação com minhas asas. Sentiria o vento e não teria pensamentos em minha cabeça.

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Na primeira parada, guardei a máquina e fui me sentar no restaurante impessoal de beira de estrada. Sentia como uma ressaca do choro incontido da despedida. Estava meio aérea, sentindo meus olhos inchados. Duas mesas à minha frente, um rapaz visivelmente agitado falava sozinho. Parecia drogado e começou a me encarar. Eu já estava me levantando quando uma senhora bloqueou minha passagem sentando-se ao meu lado.

— É de dar pena não é?

Concordei com a cabeça com o olhar ainda curioso sem saber de onde ela surgira. Marisa era seu nome. Apresentou-se à mim estendendo a mão, não antes de tirar sua luva de couro verde escura que combinava com seu longo casaco. Na cabeça um pequeno chapéu bege emoldurava o rosto comprido daquela senhora de pele bonita, impecavelmente maquiada. Tinha um sorriso discreto, mas constante.

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O rapaz se levantou e veio em nossa direção. Fiquei parada sem saber como agir. Marisa não esboçou uma única reação. Ele me pediu um cigarro e disse que não tinha. Um funcionário o afastou com uma mão e com a outra acenou para um segurança. Marisa seguiu falando de onde parara, como se nada tivesse acontecido. Eu observava o rapaz do lado de fora, na paisagem deserta andando sem rumo e ouvia as palavras de Marisa sem dar muita atenção. Eu só queria ficar sozinha.

— Por que você chorava?

Eu ainda estava em transe quando me surpreendi com sua pergunta. Eu pensava que havia sido discreta e nem ao menos tomara conhecimento dela antes de se aproximar minutos antes de mim.

— Uma despedida… e esbocei um sorriso.
— Está de férias aqui? Estuda? Mora? Trabalha aqui?

Deus meu, quantas perguntas em uma frase tão pequena! Eu comecei a ficar impaciente mesmo sentindo uma simpatia por aquela figura esguia, elegante e agradável.

— Férias.
— Oh! Então foi uma despedida de amor…

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Me calei e voltei meu olhar para a janela, já sem conseguir localizar o pobre homem perdido e angustiado.

Ela me perguntou o que eu já havia conhecido na Espanha e me contou que morava parte do ano em Madri e parte em Barcelona, duas cidades tão diferentes e tão intensas que ela amava com o mesma intensidade. Em Valladolid fora visitar seu filho e só hoje me dei conta do porquê dela estar no mesmo ônibus que eu, já que saí de Palência. Sentia que estava na melhor parte de sua vida, sem vínculos pelos filhos já crescidos, viajava quando sentia vontade, ia à museus e andava pelas ruas sem compromisso ou horários. Estava divorciada e eu numa resposta automática e educada disse que sentia muito. Ela sorriu e disse que eu não deveria sentir. O ex marido separou-se dela após descobrir um romance que ela teve com um português. Foram três anos em que ela viajava pra encontrá-lo. A paixão arrebatadora não lhe permitiria voltar à monotonia de seu antigo casamento. Depois de separar-se, ela considerou que o português deveria posicionar-se finalmente. Ela esperou e ele nunca apareceu.

— Alguns homens amam mulheres que vão, não que esperam… Disse ela sem nenhuma faísca de tristeza ou decepção.

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Fiquei olhando para ela sem ter certeza se estava pensando em mim ou no que acabara de ouvir. E quando finalmente ela conquistara minha atenção, o ônibus estava de saída. Convidei-lhe para sentar a meu lado, mas ela com gentileza recusou dizendo que ia tentar dormir.

Aquela conversa inusitada me atropelou. Não era a primeira vez que me deparara com situações assim. Durante a viagem foram inúmeros desconhecidos que narraram a ladainha de suas vidas para mim em escassos minutos. Mas depois de tudo que vivera nos últimos dias, aquela história me marcou de maneira particular. Sentei pensativa olhando pela janela do ônibus enquanto palavras giravam em minha cabeça.

As montanhas que recortavam o horizonte pareciam nevadas, mas depois pude perceber que era apenas a coloração das imensas pedras em seus picos. O sol começou a baixar e pouco a pouco as montanhas rochosas ficaram maiores e mais próximas, mudando a paisagem. O sol que refletia nela um laranja claro era um prenúncio de um dos mais lindos pores-de-sol que assisti durante toda a viagem. O céu azul claro fora inundado pelos amarelos, laranjas e vermelhos. A bola de fogo que esparramava-se como lava de vulcão no horizonte, não combinava com o frio que aumentava com a aproximação da noite.

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Não lembro que hora meus olhos fecharam. Só acordei em Barcelona, recebida pela cidade que me pareceu imensa se comparada às tantas outras que conhecera até aquele momento. Ela irradiava a beleza noturna das grandes metrópoles como um céu estrelado formado pelas luzes das casas e ruas. Conforme o tempo passava dentro da área urbana, fui tomando consciência que não tinha me preparado para andar por ali. As outras cidades eram tão pequenas que na maioria eu pedia informação, caminhava um pouco ou pegava um ônibus e em menos de dois dias eu já me localizava bem. Quando desci do ônibus, vi Marisa se distanciando. Pensei se um dia eu estaria inteira como ela novamente. 

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