Próxima Estação… Esquecimento

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Dormi rapidamente, exausta. Ao que parece emoções cansam mais que longas caminhadas… Despertei no meio da noite e mal consegui alguns minutos mais de cochilos. A manhã da despedida foi triste e deprimente. Ele tentava em vão me fazer sorrir, como conseguira tantas vezes quando o oceano ainda nos separava. Eu não conseguia disfarçar a confusão de sentimentos dentro de mim. Frustração, tristeza e raiva se misturavam à segurança, gratidão e carinho. Eu não conseguia olhar para ele. Mal ouvimos nossas vozes naquela manhã, mas elas não eram necessárias. Não haveriam palavras que aliviariam aquela tristeza.

No dia anterior ele perguntara a mim se eu conseguiria viver em uma cidade tão pacata. Menti que sim, contrariando meu primeiro impulso com medo de fechar uma porta que já não tinha como abrir. Será que meu temperamento inquieto se adaptaria a tanta tranquilidade? Éramos tão opostos que pela primeira vez senti um abismo entre nós que não era formado pela distância. Creio que se tivéssemos tido uma oportunidade, esse amor teria durado um tempo, arrisco até a dizer muito tempo. E teríamos sido felizes e apaixonados, mas no final arderia como brasa que resta após consumir as chamas de uma fogueira. Eu sabia, mas não queria aceitar. E acredito que ele se dera conta disso antes de mim.

Nosso amor nascera para morrer. Uma morte prematura e esperada, ainda que com resistência. Entrara em sua casa pelos fundos e saí pela porta da frente. Assim foi toda nossa história, de trás para frente. Eu sabia que atravessaria aquela porta para sempre. Ele já pedira para eu ficar. Eu já tinha negado. Ele não faria nada para me impedir. Não se sentia no direito. Não era do seu feitio. Naquela casa que um dia fora habitada por seus pais e irmãos quando ele ainda era pequeno, eu só esperava deixar boas recordações para dissipar o vazio quase triste que imperaria ali. Só desejava que sua alma pudesse se alimentar da lembrança desses momentos, assim como a minha certamente o faria.

Estava triste por passarmos tão pouco tempo juntos, mas havia a vantagem de não viver a decepção tão comum nos rompimentos. É claro que a tristeza da morte dessa relação também trouxe junto algumas mágoas e decepções por palavras não ditas e atitudes não tomadas. Mas desde que havíamos nos conhecido, ele nunca fora capaz de me ferir intencionalmente. Em diversas situações, para não me contrariar, ele optava pelo silêncio acompanhado de um olhar fixo em meus olhos. Silêncio que me irritava às vezes por essa sede que tenho de destrinchar argumentos. Mas era um primeiro impulso e sempre me sentia grata por tratar de qualquer motivo que fosse com os pensamentos mais em ordem e mais tranquila. Seu cuidado, gentileza e atenção me conquistaram desde o começo e de uma maneira diferente acho que o amarei para sempre.

Calada, eu verificava meus e-mails no computador enquanto ele preparava um lanche para eu levar na viagem. Um silêncio perturbador que nos acompanhou por todo o percurso até a rodoviária. Eu olhava a paisagem pela janela do carro. Buscava no horizonte, qualquer coisa que desviasse minha atenção da realidade daquela ida sem volta. Ele pousou a mão em meu joelho num gesto de carinho. Eu coloquei a minha sobre a dele, mas nossos olhares nunca mais se cruzaram.

Quando o ônibus chegou, não nos beijamos, não nos abraçamos, só ouvi “Te quiero mi niña” sussurrado em meu ouvido, que foi respondido com um soluço que continha meu choro e um beijo no rosto. Foi um sussurro triste. Niña era como ele me chamava. Os niños que mais necessitam de atenção e carinho, dissera ele um dia. Subi no ônibus, busquei meu lugar enquanto ele me observava do lado de fora da janela.

Ele levantou a mão sem movimento num sinal contido de adeus e virou-se. Eu desabei na cadeira observando os primeiros passos que nos separariam para sempre. Ele hesitou por um momento voltando seu olhar em minha direção, depois virou-se e caminhou lentamente até a porta de saída. Ficou ali, parado, mãos no bolso. Eu olhava para ele e recordava o dia em que conversamos pela primeira vez. Nós nunca sabemos qual é o impacto que uma pessoa causará em nossa vida. Nem o quanto essa pessoa vai nos transformar, mudar quem somos, nossa essência ou nossas atitudes. Não imaginamos quem vai povoar as lembranças que valem a pena serem contadas. Quais desejos um coração pode sentir depois de viver um amor assim?

“Como fechar os olhos já abertos? Como voltar a dormir depois de tudo isso?”
Diana Almeida

Pela janela do ônibus em movimento, nossas imagens foram se distanciando pouco a pouco, até perder de vista. Chorei, chorei muito. Chorei a tristeza de terminar um amor inacabado, por tantas palavras não ditas, pela saudade que já me doía o peito, pela certeza de um fim sem volta. Mas chorei de felicidade também, por tê-lo conhecido pessoalmente, por ter vivido essa linda história e de ter a certeza que o que vivera em todo aquele tempo à distância, não fora uma ilusão, nem uma mentira.

Minha próxima parada seria na estação do esquecimento. Não apagar essas memórias que foram tão doces e intensas. Eu sabia que teríamos que nos distanciar para seguirmos adiante, mas essa ideia não cabia em mim. Apesar de todas minhas dúvidas e confusão, apesar de eu sentir reciprocidade em todos os momentos, eu sabia que ele estaria muito mais preparado para essa nova fase. Mas eu, emocional por definição, ainda levaria muito tempo para seguir com a minha vida. Eu nunca me arrependi de ter ido ao seu encontro. Hoje eu tenho a certeza que foi necessário para encerrarmos um ciclo e abrirmos caminho para novas estradas, mas creio que nunca mais serei a mesma. Viver sem ele não foi uma tarefa fácil e nem rápida…

“E todos esses momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva”
Blade Runner

Tenho ouvido com frequência por que me exponho tanto. Isso me fez pensar porque o fiz e o quanto foi importante para mim, tanto quanto a própria experiência em si. Revivi a intensidade desses momentos, a dor e a felicidade. Cada pessoa supera seus medos e frustrações ou comemora suas conquistas de maneira única, particular. A maioria às guarda em seguros cofres de silêncio e nem por isso conseguem calar as vozes da memória. Mas para mim, falar dos meus fantasmas os exorciza e de minhas vitórias, as enaltecem. E ainda que esteja vulnerável e exposta ao me desnudar, isso se faz necessário para vestir novas roupas…

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