O começo do fim

Cristo de Palência

Dormi bem aquela noite. Segundo ele: ‘dormiste a pierna suelta y menudos ronquidos’. Por Deus! Deveria ser impossível para uma mulher soltar sons dessa natureza! Principalmente no primeiro encontro, mas… c’est la vie. Levantamos tarde. Fui tomar banho e me arrumar e quando voltei o quarto já estava impecavelmente arrumado. Colcha esticada, seus chinelos lado a lado ao pé da cama… Tudo em seu devido lugar. Digno de um show room de uma loja. Assim era sua vida, organizada e previsível. Ditada por um relógio que marcava a hora de seu exercício matinal, de comer, de usar o computador. Assim era tudo que o cercava. O bairro tranquilo onde pude contar nos dedos quantas pessoas vi nesse curto espaço de tempo caminhando pelas calmas ruas ou conversando com vizinhos na porta de suas casas.

Na véspera de Ano Novo, eu estava em Madri e pouco antes de sair para me unir à multidão da Puerta Del Sol, respondia a ele pelo facebook o quanto estava encantada com a cidade, sua gente e monumentos. Ele respondera: ‘no me gusta nadaaaa, demasiada gente para mi gusto’.  Até hoje, vez ou outra quando sou uma anônima no meio da multidão de São Paulo, metrô da Sé no horário do rush ou presa no trânsito, imagino o inferno que seria para ele aqui. Não, ele não era um homem capaz de jogar tudo para alto. E ainda que eu fosse, seria capaz de me adaptar à essa rotina pacata e metódica?

Vista da cidade de Palência
Vista da cidade de Palência

No Carrefour mais próximo da casa dele, fui em busca de um jogo para presentear meu filho e um fone de ouvido para minha filha. Como só tinha a mala que estava comigo e a mochila que deixara em Madri com Mathilde, resolvi comprar outra mala. Passaria toda a bagagem para duas malas substituindo a mochila, que era menor e menos confortável.

— Esa parece buena pinta, disse ele. Sorri a ouvir essa expressão que aqui teria sido usada pelos meus avós.

Depois das poucas compras, fomos almoçar. Um silêncio substituíra nosso hábito de conversas infinitas. Como eu podia me sentir tão triste por estar feliz?  Ele também parecia estar como eu, com a cabeça cheia de pensamentos desconexos, contraditórios e confusos. Comia calada. Olhava a salada em meu prato. Levantei os olhos. Seus olhos fixos nos meus. Podia ler seus pensamentos… Não importava como ele estivesse se sentindo, faria qualquer coisa para aliviar aquela tensão e me ver sorrir. Em nossa convivência ele sempre usou um artifício para me distrair quando eu estava mais triste ou calada. Tirava fotos! Fingindo ignorar sua ação premeditada, entrei em seu jogo e sorri.

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Em nossas conversas diárias, ele facilmente percebia quando eu não estava bem. Sempre conseguia me fazer desabafar. E do seu jeito manso, pouco a pouco me alegrava. Nunca ouve uma despedida sem um sorriso nos lábios. Ele trouxera brilho em meu olhar e provocara meu sorriso mais sincero. Mas ali, diante do início do fim, meu olhar melancólico traía meu sorriso que se esforçava em mostrar alegria.

“Eu gostaria de lhe agradecer pelas inúmeras vezes que você me enxergou melhor do que eu sou. Pela sua capacidade de me olhar devagar, já que nessa vida muita gente já me olhou depressa demais.”
Padre Fábio de Melo

Ele me levou para conhecer um mirante onde a estátua do Cristo de Palência protege a pequena cidade. Enquanto caminhávamos de mãos dadas na pequena trilha de largas pedras, ele me convidou para passar mais dias ali. Expliquei-lhe que minha hospedagem em Barcelona tinha dia marcado. Pediu-me para voltar depois de Barcelona. Neguei dizendo que já havia me comprometido com hospedagem também em Madri. Ele se calou. Eu também. Talvez eu só tenha tido medo e até hoje não sei bem o que me levou a não aceitar o convite. Muitas vezes me arrependi por não ter ficado mais com ele, ainda que em muitas outras situações também eu tenha tido a certeza que foi a melhor coisa a se fazer… Tão escasso tempo ficaríamos juntos, que se não fosse por nos conhecermos tão bem e ter tanto sentimento envolvido, tudo não passaria de uma aventura. Mas não foi. Foi intenso, apaixonado e doloroso. Não foi como imaginamos quando ainda no começo de nossa convivência, eufóricos e apaixonados, sonhávamos com o momento do primeiro encontro, do primeiro beijo e das noites de amor. Apesar de estarmos totalmente mergulhados na intensidade daquele encontro, estávamos tensos também. Porque nos sonhos não há despedidas, nem estranhamento de hábitos, nem angústia e nem a realidade de nossas rotinas. Só um final feliz que estava claro que não existiria.

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No alto, a vista da pequena cidade encantava. Meu olhar se perdera entre telhados e rasas montanhas que recortavam o horizonte. Quando me virei para ele, seu olhar também estava perdido. Olhou em minha direção:

— Estas muy calada, cariño. No hablas…
— Hay cosas que es mejor no hablar Jo.

Eu só queria estar com ele e sentir sua presença. Não queria passar o pouco tempo que tínhamos falando sobre a tristeza e a angústia que infelizmente não conseguimos afastar de nossos pensamentos. Sabíamos que era um momento fugaz. Havíamos ficado juntos e isso não mudaria nada no nosso futuro. Continuaríamos separados por mais de 8.000 km. Nenhuma conversa aliviaria esse sentimento de impotência.

No caminho de volta para casa, passamos na rodoviária para ver o preço da passagem para Barcelona. Ele queria passar na estação de trem para fazer o mesmo, mas eu disse que iria pesquisar primeiro os preços de passagens de trem e avião pela internet. Ele achou complicado resolver isso à minha maneira. Viajaria no dia seguinte e esse espanhol tranquilo e organizado não conseguia disfarçar o estranhamento de uma viagem não planejada com antecedência. Talvez eu esteja errada, mas acho que minha personalidade trazia uma certa desordem à sua vida. Mas nunca tentou me persuadir a ser diferente. Respeitávamos nossas diferenças, e assim como elas nos afastavam, também nos encantava.

Mirante do Cristo de Palência
Mirante do Cristo de Palência

Passamos em um pequeno mercado e fomos para sua casa. Na cozinha, disfrutamos com alegria o momento mais descontraído do dia. Fui fazer um jantar para nós apesar dos protestos dele que não queria que eu trabalhasse. Foi prazeroso e cozinhei com o carinho de quem confecciona um presente feito pelas próprias mãos para retribuir a hospitalidade e cuidado que recebera. Ele ligou o rádio. Eu improvisava um frango com champignon. Ele engraxava minha bota de viagem, ainda que fosse impossível deixar aquela bota bonita. Cantei, conversamos, até arrisquei uns passos de dança.

Ele havia parado de fumar há alguns meses e não me senti confortável de fazê-lo dentro da casa, apesar de sua insistência. Enquanto cozinhava o frango, fui ao quintal e quando acendia o cigarro a gata sem rabo que ele cuidara ao chegar sangrando em sua casa apareceu. Era bonita e arisca. Só se aproximou após Jo conversar com ela mantendo uma certa distância de mim e oferecer-lhe um prato de ração, mas me olhava desconfiada de minuto em minuto como a questionar quem era a intrusa. Preferi entrar para deixá-la comer em paz.

Sentamos na sala de televisão e ficamos juntos curtindo o pouco tempo que nos restava. Jantamos ali mesmo e como acontece na vida da gente, quando menos esperamos surgem coincidências. Na televisão passava a música que ele me dedicara quando revelara pela primeira vez sua paixão por mim. Era uma dessas canções que ficam na moda por um tempo e desaparecem, mas me emocionei, e calada contive as lágrimas. O resto da noite foi tranquilo e cheio de ternura. Eu deitada no seu grande sofá de couro marrom, vestindo seu pijama. Ele de pernas esticadas em sua poltrona. Olhei para ele e por uma fração de segundos, imaginei-o já velho, com a mesma paz e tranquilidade que me transmitia, tirando fotos minhas para me ver sorrir…

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Levantei-me e fui dormir.

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