E finalmente nos amamos…

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Entramos pelos fundos, através da garagem. Um pequeno quintal tinha alguns pertences acumulados escondidos pelas sombras da noite. Um caramanchão envolto em galhos secos ocupava a maior parte da área. Do lado esquerdo uma pequena edícula que não cheguei a entrar e do direito a porta da pequena cozinha muito limpa e organizada.

Era necessário subir um degrau para o primeiro cômodo em seguida que estava vazio, só restara ali um forno à lenha que um dia funcionara. Desse cômodo, outro degrau levava ao estreito corredor que anunciava a porta de entrada da frente da casa.

Do seu lado esquerdo havia um quarto pequeno com uma cama de casal coberta por uma colcha estampada em tom de laranja, cuidadosamente esticada, e um guarda-roupas. Mais adiante uma escada levava ao segundo andar e depois dela havia a sala de estar que continham duas poltronas antigas e uma pequena mesinha redonda, onde repousava um pequeno vaso. Na parede havia um console e uma delicada cortina de renda enfeitava a janela que oferecia visão à pequena praça em frente à casa. Praça que eu conhecera um ano antes por foto, coberta pela neve.

Do lado direito do corredor, na sala de televisão, uma grande estante cobria a parede oposta à entrada. Um sofá de três lugares de couro marrom ocupava a extensão de uma das paredes laterais. À sua frente uma mesinha baixa retangular centralizada acima de um tapete e na parte oposta da sala uma poltrona reclinável estrategicamente colocada em frente à televisão me lembrou o seriado Friends.

Subimos a escada, cujo vão exibia um espelho com uma moldura de madeira estilo barroca e um console estreito. No andar de cima, outro corredor levava a vários quartos. O primeiro à direita da escada era igual ao de baixo. À esquerda, a sala que tantas vezes eu havia visto como cenário de nossas conversas, onde ficava seu computador, um guarda-roupas, uma cama mais estreita que servia de sofá e a janela que tantas vezes o vi fechar para bloquear o reflexo da luz que impedia minha visão.

Do outro lado do corredor ficava o seu quarto. Ali estava a cabeceira da cama que ele descrevera para mim ao comprar, quando ainda contava sobre a reforma do “nosso” quarto. Os dois criados mudos com os abajoures que foram motivo de uma pequena obra, que ele mesmo executara por conta da instalação elétrica. A televisão nova, o lustre… Era como se eu tivesse lido um livro e de repente caísse no cenário da história. Eu poderia andar naquela casa de olhos fechados, como se eu sempre tivesse passado por entre os cômodos. No canto do quarto uma pequena porta levava ao quarto onde ele se exercitava todos os dias pela manhã, que pelo tamanho da porta, brinquei ser o quarto proibido do Barba Azul, onde ele escondia os cadáveres de suas vítimas.

Todos os cômodos da casa eram pequenos e aconchegantes. O pé direito muito baixo me lembrava uma grande casa de bonecas. A limpeza e organização da casa desse homem solteiro, mostrava na prática a sua maneira metódica, detalhista e caprichosa de ser. A sua gentileza ao me apresentar a casa e seu esforço em me fazer sentir à vontade eram reconfortantes após tantas dúvidas que passara se deveria estar ali ou se estaria criando uma situação constrangedora. Todo seu comportamento não deixava dúvidas de que ele estava feliz de me ter ali e oferecia a mim o melhor que podia dar, como sempre fizera em todo nosso tempo de convívio. Senti-me incrivelmente confortável e segura.

Cômodos apresentados, arrumei minha bagagem no quarto em frente ao dele e fomos sentar na sala de televisão. O nervosismo adolescente voltara ao me ver sozinha com ele. Como desejamos aquele momento… O mesmo desejo que nos uniu e que nos separou. Não lembro da conversa que tivemos naquela sala. Palavras soltas, sem sentido, sobre temas bobos que tentavam disfarçar a inquietude. Finalmente, depois de dois anos, um amor completo. Silêncio… e enfim nos rendemos. Já em seu quarto, foi um amor nervoso e intenso. Pele, suór e saliva que se uniam como se nunca mais pudéssemos repetir aquele momento, que era uma realidade difícil de encarar. Corpos grudados gravando o que seria no futuro apenas uma lembrança do toque, do cheiro, de vozes sussurradas e da pele em febre. E naquele momento éramos dois, e éramos um. Uma breve, mas intensa recordação. E foi o único momento desde que nos conhecêramos que não importava os idiomas diferentes nem a distância de nossos países. A única coisa que poderia nos separar era a consciência de quão efêmero era aquele momento. E talvez exatamente por sê-lo, era também tão especial.

Meu encontro com ele serviu para mim como um atestado de sanidade. Eu seria hipócrita se dissesse que não duvidei muitas vezes tanto dos sentimentos dele, como dos meus próprios. Na convivência com ele, eu me desnudara emocionalmente, e acredito que ele também. E pensava se estaríamos idealizando um ao outro a fim de suprir as expectativas que todos temos em um relacionamento. Mas a verdade, é que na maior parte do tempo o que eu sentia era claro e real. Assim como era verdadeira a cumplicidade, a confiança e bem estar de nossa convivência.

Eu estava emocionada e feliz de estar ao seu lado, mas não pude deixar de pensar como eu conseguiria conviver com essa lembrança sabendo que o tempo não seria suficiente para esgotar nosso desejo de estarmos juntos. Ele não era um príncipe que me resgataria da torre e nem me levaria em seu cavalo branco para ser feliz para sempre. Eu pagara para ver e teria que assumir as conseqüências disso. Mas naquela noite só me restava disfrutar da sua companhia, sentir seu toque, seu cheiro e gravar todas essas sensações e emoções em minha memória. Porque no final, só isso que restaria… lembranças e uma tentativa inacabada de sermos bons amigos.

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7 pensamentos sobre “E finalmente nos amamos…

  1. E continuo achando surpreendente que você consiga, diante de tantas emoções, captar detalhes do ambiente e descrevê-los. Será que a artista está acima da mulher?

  2. Ao terminar de ler, fiquei me perguntando como tinha chegado até aqui. Mas me dei conta de que isso não importava. Importa estar grata por ter lido isso. És um escritora, saibas ou não disso. Quando escreveres um romance, me avisa, vou comprar com toda a certeza! Lindas as tuas palavras, elas nos fazem viver a experiência!

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