Era uma vez um espanhol…

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Meus olhos varriam toda a extensão da plataforma de desembarque à sua procura até perceber que estava totalmente vazia. Segui em direção à porta de vidro que separava a plataforma do corredor da pequena estação rodoviária, bem menor que a estação de transporte urbano que tenho perto da minha casa. E ali estava o espanhol. Parecia ansioso. Olhava o painel de desembarque com a mão na boca, como se solucionasse um problema de álgebra. Ele não me viu e parei por alguns instantes a observá-lo. Não lembro de pensar em nada, só o quanto aquela situação era surreal. Depois de dois anos iríamos estar frente a frente. Sonhara com aquele momento inúmeras vezes, porém a situação era outra. Já não mantínhamos mais contato diário. Antes o desejo de nos encontrarmos era sabiamente recíproco, e eu não tinha mais essa certeza. Já passara seis meses desde que nossas conversas eram mais distanciadas. Um distanciamento que não ocorria mais apenas pelos quilômetros que nos separavam, nem só pelo tempo, mas criáramos um abismo entre nós com o intuito de seguirmos com nossas vidas.

Ele olhou para mim surpreso. Deve ter passado pouco tempo, mas seu silêncio e seu olhar curioso que buscava reconhecer em mim a pessoa que sempre vira através de uma tela de computador, me pareceu uma eternidade. Soltou seu familiar riso contido, o mesmo que ouvira tantas e tantas vezes quando se encantava comigo durante nossas conversas. Assustara-se com a minha chegada, pois não me reconhecera com a boina. Tocou levemente meu braço indicando a direção para seguirmos e fomos em busca de um lugar quente para tomar um café e conversar um pouco.

Eu sentia uma certa timidez ao perceber que ele me observava atentamente. Cada palavra, cada movimento meu era seguido por seu olhar e seu sorriso tímido. É claro que o fato de eu estar ali já denunciava meu desejo de estar com ele, mas eu evitava olhar em seus olhos, como se meu olhar fosse me entregar, me desarmar por completo. De certa maneira eu me sentia envergonhada de ter ido a seu encontro. Talvez por crescer aprendendo que os homens que deveriam ser mais ousados e tomar qualquer iniciativa. Apesar de me sentir ferida por seu comportamento resignado, dentro de mim eu acreditava nos sentimentos dele. Éramos diferentes… Eu muito impulsiva e ele tão pacato…

Enquanto ele falava, mal prestava atenção nas palavras, lembro apenas de absorver aquela voz grave que sempre me encantara. O frio ameaçava do lado de fora do bar, mas lá dentro havíamos quebrado o gelo. Pouco a pouco a normalidade de nossas antigas conversas foi tomando conta das palavras.  Saímos desse primeiro bar e fomos para seu carro. Ele se confundiu com o caminho e eu acabei palpitando o trajeto a fazer. Achei graça dele ficar desorientado em uma cidade tão pequena e que ele estivera tantas vezes. Parou o carro em frente à Cúpula do Milênio, onde eu encontrara Ruben na chegada à Valladollid. Desligou o motor. O nervosismo avançou como uma onda sobre mim. A ansiedade me fez tagarelar como se pudesse fingir ignorar que seria ali, naquele momento, que ficaríamos juntos pela primeira vez. Ele em silêncio aguardava meu silêncio, pacientemente, como era do seu feitio.

– Venga mi niña… Olhei para ele, e como havia previsto, minhas defesas se desarmaram, expus minha fraqueza, meu desejo. Não eram necessárias palavras para me denunciar. Niña… Era isso. Eu não passava de uma menina na presença dele. A segurança que ele sempre transmitira me tirava o peso de ser forte como eu tinha que ser no comando da minha vida no cotidiano. Com ele eu podia ser totalmente espontânea, sem medo de julgamentos. Era um terreno seguro onde eu podia rir ou chorar, falar bobagens ou filosofar. Abrir meu baú de segredos sabendo que ainda estariam bem guardados. Esparramei meu corpo por entre seus braços, sentindo o aconchego do seu abraço. Senti seus lábios nos meus e o odiei por me sentir tão vulnerável, entregue ao seu magnetismo.

Talvez seja difícil para quem nunca viveu uma história parecida entender como um sentimento pode crescer e se fortificar tanto entre duas pessoas que nunca haviam se visto pessoalmente. Tampouco creio que eu possa explicar completamente. O normal é que as pessoas se conheçam, sintam atração umas pelas outras, saiam, se divertam e comecem a namorar, conhecendo-se pouco a pouco.

Ele quis me conhecer depois de ver uma foto minha com Mariana, minha prima que era sua amiga. Quando ela me disse que ele queria me adicionar e vi sua foto, senti uma atração sem explicação. Mas apesar da atração imediata que sentimos quando nos conhecemos, seguimos o caminho contrário, de trás para frente. A distância só nos oferecia uma opção, a da conversa. E foi através dela que nos conhecemos tão bem, tão profundamente e o carinho e admiração foi crescente. O desejo de ficarmos juntos tornou difícil essa convivência. Com o tempo ela se tornou dolorosa e melancólica porque a razão nos lembrava a quase nula possibilidade de levarmos um relacionamento adiante. Então eu me perguntava onde ficava a velha e boa história de se lutar por seus sonhos? Mas esse pensamento me fazia sentir uma tola depois de tantos outros sonhos tão mais possíveis terem desmoronado. Não estávamos falando de uma viagem, onde se guarda dinheiro, faz-se um pouco de esforço e se conta um pouco com a sorte. Não era uma coisa temporal que poderia planejar um, dois ou seis meses. E como poderíamos mudar nossas vidas por um relacionamento que nem sabíamos se daria certo? Como mudar de país, hábitos e começar uma relação já em meio a tantas dificuldades?  Mas mesmo diante de tantos argumentos contrários, o sentimento crescia e o desejo aumentava durante horas e horas diárias no skype. Apesar de tudo, todas as vezes que encerrávamos uma conversa, eu me sentia mais viva e feliz por tê-lo em minha vida.

Seguimos a tradição espanhola pipocando de bar em bar no decorrer da noite. Enquanto caminhávamos pelas geladas ruas de Valladolid, ele envolvia carinhosamente minhas mãos para proteger meus dedos do frio. Provavelmente em uma situação normal, pequenos detalhes assim me passariam despercebidos, mas toda distância que nos separou por tanto tempo, potencializava cada toque, olhar e sensação do encontro.

Atravessamos a ponte sobre o Rio Pisuerga e fomos em direção ao centro antigo. Andamos pelos labirintos de pequenas ruelas. O primeiro bar era mais moderno. O tom de preto prevalecia no ambiente estreito que parecia mais amplo devido ao espelho por detrás do comprido balcão. Saboreamos uma porção de jamón, ele com vinho e eu com cerveja.

O segundo bar foi o que mais gostei de todos. A fachada do El Caballo de Troya lembrava uma velha taberna da Idade Média. Uma pesada porta parecia abrir passagem para uma construção secular, mas era só uma decoração cuidadosamente planejada. Atravessamos um bonito jardim de inverno que tinha um poço muito charmoso com uma armação de ferro retorcido que segurava o pequeno balde de madeira antigo. Dentro era muito grande e tinham vários ambientes. Na verdade parecia um grande restaurante de luxo e bom gosto, mas fomos em direção ao bar, um pequeno salão com paredes de tijolos à vista e o teto feito de várias vigas de madeira pesada que era fracamente iluminado. O balcão do bar ficava em frente à parede de pedras largas no fundo do ambiente aconchegante, sob as várias peças de jamón penduradas no teto. Estava vazio, só eu, ele e o garçom que acabou tirando uma foto nossa depois de presenciar uma sessão de fotos fracassadas que tentávamos tirar de nós mesmos e que rendeu boas risadas.

O terceiro bar não tinha nada de especial. Era praticamente uma garagem de paredes vermelhas. Na calçada algumas mesas e dentro o balcão praticamente ocupava todo o espaço. Saímos rapidamente para o quarto bar, onde trocamos a cerveja e o vinho por uma porção de gambas deliciosa. Fechamos a noite no quinto bar que ficava na Plaza Mayor, a Cafeteria Lion Dor. Meu olhar sempre atento à detalhes, à paisagem e todos os coadjuvantes das cenas que eu presenciava, não estava tão alerta. Ainda assim admirei a beleza e elegância daquela cafeteria decorada no estilo art nouveaux, com belas estátuas, lustres e muitos espelhos.

Caminhando de volta para o carro, passeamos sem pressa de mãos dadas por ruas que faziam parte da vida dele. Senti-me mais próxima a cada detalhe de seus hábitos que eu podia presenciar, admirar e sentir. Os bares que ele frequentava, a loja de roupas que ele gostava, seu carro… eu entrara no cenário de sua vida, mas de uma forma estranha, fui invadida por um doloroso sentimento de não fazer parte daquilo. Era como se eu o estivesse conhecendo naquela noite, apesar de conhecê-lo há tanto tempo. Seu caminhar e seus gestos eram de um desconhecido, mesclados ao seu habitual olhar, sua voz familiar, seu riso, suas palavras que eu compreendia tão bem.

Seguimos em direção do apartamento de Ruben para pegar minha bagagem e nos perdemos mais uma vez. Eu sabia que havia uma escola em frente ao prédio, mas dávamos voltas e voltas por aqueles quarteirões tão padronizados e tudo parecia igual. Enfim o encontramos. Jo subiu comigo e creio que ele sentia uma certa curiosidade de ver onde eu estava. Até hoje acho que para ele, a ideia de se hospedar na casa de um desconhecido lhe causa estranhamento.

De Valladolid até Palência acho que se passaram cerca de 40 minutos. Ele me achou calada, mas eu só estava muito cansada pois acordara por volta das 5h da manhã para ir à Salamanca. Meu olhar foi hipnotizado pelo céu estrelado. Céu que pela manhã anunciava a aproximação de um frio mais intenso e que me deu o prazer de conhecer a neve. Quantas emoções eu vivenciara naquele dia… O silêncio costuma ser incômodo entre as pessoas, mas eu apenas queria aproveitá-lo. Era um silêncio confortável que só existe na companhia de quem sentimos segurança, quando formalidades não são necessárias.

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3 pensamentos sobre “Era uma vez um espanhol…

  1. Enfim conheço o famoso Jo!! Achei na foto muito mais bonito do que vi uma vez no skype. É filha, a distãncia fica intransponível, tendo em vista a realidade da vida dos dois. A lembrança ficará para sempre. Bjs

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