Salamanca – Uma Viagem no Tempo

Salamanca Espanha

Despertei a primeira vez por volta do meio-dia, ainda zonza de sono. Dormira pouco mais de três horas. Ruben estava saindo para correr e resolvi tentar dormir mais um pouco. Meu plano inicial era conhecer Salamanca, mas queria ir cedo e decidi descansar mais um pouco e caminhar mais tarde pelas ruas de Valladolid que ainda guardava outros tesouros que não tive a oportunidade de ver. Mas três horas depois, quando finalmente tomei coragem para levantar e tomar um banho, o frio era tanto e meu corpo ainda estava castigado pelo exagero da noite anterior, que resolvi ficar no apartamento. Foi o único dia de toda a viagem que eu não fiz nada. Aproveitei para entrar em contato com a família e dar notícias e encontrei alguns amigos on line colocando um pouco da fofoca em dia. O lado positivo é que consegui organizar grande parte das quase 3500 fotos que eu já tirara nos vinte e dois dias que se passaram.

À noite, eu e Ruben conversamos por algumas horas agradáveis sobre viagens já feitas, planos para o futuro e sobre nossos sentimentos em relação à comunidade do Couch Surfing e dos benefícios que ela nos oferecera no decorrer dessa vivência. Sinto-me imensamente grata pela hospedagem que ele me proporcionou. Seu espírito generoso e sua personalidade desprovida de preconceitos o tornam uma pessoa fácil de se admirar e sentir empatia. Mesmo tendo ficado em casa todo o dia, fui dormir cedo, ansiosa pelo passeio do dia seguinte.

plaza anaya

Levantei às 5 horas, era noite ainda. Tomei um banho quente e me agasalhei preparada para o frio que me esperava do lado de fora. Caminhando em direção à rodoviária para pegar o primeiro ônibus que me levaria à Salamanca, me senti em uma cena de filme andando sob a fina chuva que cobria a cidade que ainda dormia. Em alguns momentos eu observei aquela garoa sem ter certeza se estava começando a nevar. Uma chuva branca derretia instantaneamente ao cair no solo. Já na estrada, protegida pelo aquecimento interno do veículo, meus olhos não desgrudavam da paisagem que ia tornando-se pouco a pouco cada vez mais alva, até cobrir quase por completo os extensos campos que pareciam usar um manto feito de açúcar e as pequenas casas que apareciam isoladas na paisagem que tinham a neve em seus telhados como uma calda de chantili. Quando desci na pequena cidade quase não nevava mais e apenas uma chuva fria e fina caía. Fiquei decepcionada pela vontade que tinha de encostar na neve, senti-la pela primeira vez.

Pedi informação e me disseram que para conhecer o centro antigo eu deveria ir em direção à Universidad de Salamanca. Por cerca de 15 minutos eu caminhei sem me surpreender com nada de maneira especial. Eu atravessava um bairro residencial com fileiras simétricas de baixos prédios projetados de forma padronizada. Ainda que um bonito bairro, eu estava ansiosa por construções antigas. A chuva engrossara e eu procurava um lugar para me abrigar. Uma portinhola de vidro enfeitada com uma cortina de um largo xadrez azul não escondia o interior de uma minúscula padaria artesanal que se apresentava através de uma grande janela que servia de vitrine. Dentro do quente e acolhedor abrigo, me deliciei com um pão com gosto de cozinha de casa da mãe. Comi sem pressa tentando entender o espanhol que vez e outra se tornava incompreensível da dona, uma senhorinha com aparência frágil, que com muita simpatia puxava conversa comigo. Afirmara categoricamente que nevaria de novo diante do meu olhar incrédulo que olhava pela janela a chuva que lavava a vitrine pelo lado de fora. Alguns minutos depois a chuva amenizara e eu fui à procura de uma lojinha para comprar um guarda-chuvas.

salamanca

Uma grande garagem quase na esquina próxima à padaria que estava abarrotada de mercadoria importada da China me fez sentir na 25 de março. Não fora só pela aparência descuidada e da desordem, mas do tratamento grosseiro dos dois chineses (deviam ser os donos da pocilga) que simplesmente não me davam informação nenhuma. Acabei comprando um gorro e saí dali torcendo para que o tempo colaborasse.

Um quarteirão adiante, uma pequena ladeira abria passagem para uma viagem no tempo. Do lado esquerdo uma grande praça muito bem cuidada abrigava em seus galhos, passarinhos que piavam alvoroçados e que pareciam protestar contra a chuva. Do lado direito um prédio anunciava o início de uma sequência de construções da era medieval. Dali em diante foram surpresas e mais surpresas.

Cervantes tem uma frase famosa:

“ Salamanca que enhechiza la voluntad de volver a ella a todos que la apacibilidad de su vivienda han gustado.”

Não sei fazer uma tradução fiel, mas quer dizer mais ou menos o seguinte:

“Salamanca enfeitiça pela vontade de voltar a ela, à todos aqueles que disfrutaram da tranquilidade de sua morada.”

Nenhuma frase poderia descrever essa cidade de melhor maneira. Ela encanta, enfeitiça. Salamanca é uma das cidades espanholas mais ricas em monumentos da Idade Média, do Renascimento e das épocas clássica e barroca. Pelas suas ruas, vielas e pequenas ladeiras, o charme das construções antigas nos envolve de maneira mágica e emocionante.

Salamanca

Um pouco perdida no labirinto de ruelas, entrei em um pequeno pátio rodeado de casebres e de uma igreja que estava fechada. Me dei conta que era segunda-feira e senti medo de não encontrar nada aberto. Páro ali mesmo para procurar o mapa que Ruben me emprestara quando percebo sobre o vermelho escuro da manga do casaco, um floco de neve. Olho para o alto com o mesmo desejo de um sedento ao ver a chuva. Como minúsculas plumas, a neve caía quase em câmera lenta. Parecia flutuar mansamente até pousar com delicadeza nos telhados, no chão, nas plantas, em mim, tingindo a paisagem de branco. Como uma criança nas tardes quentes que brinca com uma ducha d´água, eu procuro o local onde posso entrar em contato com mais neve. Tiro as luvas e estendo os braços para abraçá-la, sentindo a leveza dela no contato com minha pele. Acordei desse transe lembrando que devia fotografar, mas a máquina não funcionou. Procurei a configuração mais adequada. Tirei a bateria, recoloquei. Desliguei e liguei, e nada. Dei-me por vencida e aproveitei aquele momento como único, sem saber se um dia teria uma nova chance de vivenciar essa emoção. Foram apenas 15 ou 20 minutos de neve, fraca e passageira. Tenho a mais plena certeza que ela só passou por ali para eu conhecê-la. Para minha surpresa, não sentia tanto frio como na noite do jantar argentino em Valladolid, talvez fosse só a emoção que me aquecera.

Segui em direção da famosa Universidad de Salamanca, a mais antiga universidade da Espanha, construída em 1208, que funciona até hoje. Mas a importância de sua história não se limita a cidade e arredores. Nela reuniu-se o conselho para tratar dos preparativos da primeira viagem de Cristóvão Colombo. Também nela ingressaram as primeiras mulheres do mundo a cursar uma universidade, Beatriz Galindo e como professora, Lucía de Medrano, em 1508. E foram matemáticos da universidade que apresentaram ao Papa Gregório XIII o calendário usado até hoje no mundo todo, o calendário gregoriano.

Fray Luis de Léon

Fray Luis de Léon

Há também uma tradição. Em sua fachada carregada de elementos decorativos entrelaçados — medalhões, figuras humanas, crânios, elementos da natureza e animais – há uma única rã. Diz a lenda que o estudante que encontrá-la, escondida na fachada, será aprovado no ano letivo. O comércio local aproveita para faturar, vendendo rãs de todos tamanhos e tipos. No centro do charmoso Patio de las Escuelas de Salamanca que fica em frente à fachada se encontra uma estátua do Fray Luis de Léon, antigo professor da universidade que chegou a ser encarcerado na época da Inquisição por ter traduzido a Bíblia para o espanhol, iniciativa proibida pela Igreja Católica naquele tempo. Ao redor da estátua os turistas olham para o alto a procura da pequena rã. Enquanto eu a procurava, meus olhos vagavam pelos vários elementos, encantada com a riqueza de detalhes. Tentei usar a máquina de novo e consegui tirar algumas fotos, ainda que com péssima qualidade. Por todo o dia a máquina trabalhou como quis, funcionando às vezes e outras recusando-se a fazer seu trabalho.

Incontáveis estudantes de todas as partes do mundo e de outras localidades espanholas perambulam pelos corredores dessa universidade. A importância dela é tão grande que espalha pela cidade a atmosfera jovem e cheia de vida. Uma leveza que contrasta com a seriedade dos monumentos milenares que se espalham por todo lugar, feitos de largas pedras, cuja coloração confere à cidade o tom do sol poente. Salamanca respira cultura, arte e beleza.

Palacio de Anaya

Palacio de Anaya

Caminhei lentamente pela Calle de los Libreros, a charmosa rua onde se instaurou a primeira tipografia e livraria de Salamanca e em tempos antigos foi a principal via da cidade. Nela se destaca a Libréria Anticuária la Galatea. A loja em si não é antiga, mas expõe raridades de exemplares e suas estantes com seus livros de couro gasto nos dão a impressão de estarmos em uma biblioteca de outros tempos. Pude avistar a cúpula da Catedral Nueva de Salamanca, para onde me diriji. Observei maravilhada a Iglesia de San Sebástian e o Palacio de Anaya, antigo Colegio Mayor de San Bartolomé onde atualmente funciona a universidade de filologia – estudo de uma língua, literatura, cultura ou civilização sob uma visão histórica, a partir de documentos escritos –, de um lado. No meio, um pequeno canteiro que destaca uma sequóia transplantada em 2009 marca o centro da Plaza Anaya, encantando com pequenos acúmulos de neve que ainda não derretera. Do lado direito, a avassaladora imagem da Catedral Nueva de Salamanca. Não tenho palavras para descrever esse monumento, tanto pela beleza, quanto pela grandiosidade e riqueza de detalhes.

Para atravessar a imensa porta de madeira maciça com detalhes em ferro, tive que esperar por um pequeno grupo de turistas que ouvia o guia explicar sobre o astronauta. Na fachada dessa catedral que iniciou sua construção no século XVI, há uma figura de um astronauta. Muitos rumores já circularam pela internet criando um motivo místico para a existência dele, mas a realidade é que durante a restauração da construção, o astronauta foi incorporado como símbolo de nossos tempos. O interior do templo foi construído em estilo gótico. Suas colunas, arcos e abóbodas me fez sentir pequena e insignificante tamanha sua grandiosidade e beleza. Uma pequena porta no lado direito de quem entra dá passagem para a Catedral Vieja de Salamanca, construída em meados do século XII. Seu claustro abriga um museu sacro com antiguidades. Meus passos ecoavam pelos corredores do claustro. Eu estava sozinha ali e a sensação de insignificância aumentava conforme eu mergulhava no tempo, entrando nos pequenos cômodos que tinham uma aparência tão frágil que parecia que o teto poderia desabar ou o piso de largas tábuas de madeira que rangiam ceder. A igreja antiga possui um afresco maravilhoso que em um lugar e outro estava apagado pelo tempo, assim como as pinturas que representavam a Via Sacra com dizeres em latim.

Catedral Nueva de Salamanca

Catedral Nueva de Salamanca

A Casa Lis, um museu de Art Nouveaux y Decó estava fechado, mas mesmo do lado de fora impressiona admirar seus vitrais coloridos que forram toda a extensão da grande construção. Impressionante também é a visão da ponte romana que foi construída no século I (algumas fontes dizem que foi no século XIII) e que se mantém em pé atravessando o Rio Tormes. A chuva voltara com força, derretendo o restante de neve que ainda enfeitava os canteiros da cidade. Uma pequena ladeira me levou à Iglesia y Convento de San Esteban. Fiquei admirando sua fachada em estilo barroco enquanto a chuva não diminuía.

É muito difícil descrever essa cidade, porque quanto mais eu resgato minhas lembranças, mais imagens e surpresas veem à minha cabeça. A cidade inteira é maravilhosa. No centro antigo, praticamente não existem construções que não sejam milenares. Há estátuas lindas em cada pequeno pátio ou cruzamento salpicados pela cidade. Faculdades e alojamentos de estudantes se espalham por prédios antigos em vários pontos e até o pequeno comércio que fica perto da Casa de las Conchas, cujo pátio interno guarda um poço antigo encantador, possui fachadas decoradas com zelo e que nos faz viajar no tempo, assim como qualquer simples passeio por suas ruelas. Era como estar em um imenso parque temático da era medieval.

Tive ainda a oportunidade de andar sob os arcos que se entrelaçavam dos corredores que rodeiam o pátio da mais linda Plaza Mayor que conheci na Espanha. Nem a chuva e o céu que estava cinzento naquele momento conseguiram diminuir seu encanto. Perdi-me por entre as ruas saindo em uma região que apresentava construções mais modernas. Só a pequena e redonda Iglesia de San Marcos lembrava naquele ponto a idade daquele lugar. Voltei pelo Paseo Carmelitas que acompanha uma grande via onde lojas anunciavam as promoções das ‘rebajas’. Esse ‘paseo’ é muito arborizado, cheio de fontes e bancos que estavam vazios. Passei em frente à imponente construção que abriga o Hospital General de la Santisima Trinidad e o belo jardim que enfeita sua entrada e resolvi voltar a me embrenhar pelo bairro voltando em sentido ao centro. Quando vislumbrei o Convento de Santa Ursula, já estava próxima da praça que passara pela manhã, quando ainda não imaginava quantas belezas me esperavam. Os pássaros que antes se protegiam da chuva escondidos nas várias árvores, brincavam pela grama como uma ciranda de crianças. Eles eram de um azul acinzentado e grandes como pombas. Tentei fotografá-los em vão.

Estatua Professor e Aluno

Voltei para a rodoviária e acenei para a senhora da padaria que estava na porta. Ela sorriu me lembrando que avisara que a neve voltaria. Sorri de volta e me despedi. Já passava das quatro horas da tarde. Sentei no restaurante da rodoviária e almocei uma paella, não muito caprichada. Enquanto eu comia revivendo em minha mente tudo que presenciara no dia, pensei como numa das cidades mais lindas e que mais gostei de conhecer, meu registro fotográfico ficara tão ruim. Hoje, quando escrevo esse relato e revejo as fotos de toda a viagem, sei que nenhuma pode descrever as coisas que eu vi, nunca chegarão perto da emoção real. Meus pensamentos foram interrompidos pela lembrança de que iria encontrar com Jo naquela noite. Ele me esperaria na rodoviária de Valladolid.  Senti um frio na espinha, ansiedade e medo se misturaram.

Mais fotos, acesse: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.518156691538521.116824.100000325830399&type=1

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Um pensamento sobre “Salamanca – Uma Viagem no Tempo

  1. Até eu me emocionei com o primeiro floco de neve em seu casaco vermelho!! Sinto que, por melhor que seja sua capacidade de contar os fatos e seus sentimentos, sempre ficará a sensação do que não pode ser dito, nem escrito. Espero ansiosa o novo capítulo.
    Tia Lucinha me pediu para lhe dizer que acompanha tb sua viagem e está adorando.

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