Descobrindo tesouros em Valladolid

Detalhe Monumento a Colón Valladolid

Detalhe Monumento a Colón Valladolid

O segundo bar estava mais lotado que o primeiro. Do lado de fora, sob a lona transparente, apenas alguns poucos clientes que não encontraram lugar no lado de dentro enfrentavam o ar úmido e gelado da madrugada. Era uma pequena sala de dois ambientes onde mal se podia andar. As mesas e cadeiras pouco a pouco eram empurradas de encontro à parede e as pessoas se amontoavam em pé, em pequenos grupos que vez e outra se misturavam. A nossa mesa em particular apenas serviu como suporte para as várias roupas de frio que eram dispensáveis diante do calor que fazia dentro do recinto. Paramos em pé no pequeno balcão do bar, onde o dono a princípio um pouco mal humorado, se mostrou amável e interessado após questionar minha nacionalidade ao ouvir meu sotaque. Ele adorava MPB, e entre um atendimento e outro voltava a falar comigo para comentar sobre Tom Jobim, Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Caetano Veloso.

O último bar antes de voltarmos para casa era o La Cárcava que oferecia uma variedade de tapas que ainda não tinha visto até aquele momento. Optei por uma torta de cebola deliciosa enquanto conversávamos animados amontoados ao lado do aquecedor na calçada numa tentativa fracassada de nos proteger do frio. Jose Manuel nos levou de carro para o apartamento de Ruben. Fomos dormir imediatamente e acordamos relativamente cedo para assistir a Concentración Pingüinos. O evento começara há 31 anos atrás com 320 participantes, e em 2012 quase 27.000 motociclistas reuniram-se para uma feira de exposição, shows ou só para compartilhar de um bom vinho. Pelo que pesquisei, é a maior concentração de motociclistas do mundo. Inicialmente acontecia no verão, e o nome atual se refere aos verdadeiros amantes de moto que enfrentam o rigoroso inverno espanhol, desde 2009, em Valladolid.

Exposição de motos - Concentración Pingüinos - Valladolid

Exposição de motos – Concentración Pingüinos – Valladolid

Eu já havia ouvido sobre essa concentração, mas foi uma coincidência presenciá-la. Uma das vias laterais ao Parque Campo Grande, Calle Acera de Recoletos, liga a Plaza Zorrilla à Plaza de Colón. O cenário era muito diferente do dia anterior. Estava completamente lotada de participantes e uma pequena multidão assistia às acrobacias. O barulho dos motores era ensurdecedor. Um curioso letreiro informava sobre ‘cidades amigas de Valladolid’. Esqueci de perguntar o significado daquilo depois, mas fiquei bastante curiosa. Enfileiradas em toda a grande via, motos dos mais diferentes formatos, cores e personalizadas despertavam a curiosidade de todos ao redor. Como sempre eu presenciara na Espanha, crianças, jovens, adultos e idosos compartilhavam da festa em igualdade. O belo monumento em homenagem à Colón dividia o espaço de suas estátuas com jovens que empoleiravam-se nelas em busca de uma visão melhor do evento. Uma procissão de motos desfilava num buzinaço que se misturava ao som alto dos motores. Bandeiras de vários países presas aos guidões e balançadas ao alto pelos passageiros que iam nas garupas, coloriam o desfile representando as múltiplas culturas que participavam da concentração.

Curiosidade saciada e ouvido zunindo, Ruben e eu fomos em direção à Plaza España, muito pequena se comparada às outras que eu conhecera em outras cidades, mas de igual importância para sua cidade. Ao lado de uma fonte onde gira a Terra, uma cobertura comprida aloja o mercado de frutas, verduras e flores, onde mercadores anunciavam seus produtos, ainda que com entusiasmo, nem se compara aos escandalosos gritos dos feirantes brasileiros. Ao redor da praça alguns prédios me chamaram a atenção. Especialmente o da Iglesia Nuestra Señora Reina de la Paz. O design moderno me lembrou mais um shopping center, como esses grandes templos evangélicos que agora se espalham pela cidade de São Paulo.

Fuente Dorada Valladolid - destaque para a água congelando

Fuente Dorada Valladolid – destaque para a água congelando

Muito próxima a Plaza Mayor, entramos em uma pequena praça triangular, ponto que no século XIII se tornou importante por ser um centro comercial que abastecia moradores e comerciantes que viajavam de longe para vender ou trocar suas mercadorias ali. No centro, uma fonte continha várias inscrições com nomes de antigas profissões e quatro estátuas representavam as quatro estações. Ruben me falara dessa fonte, La Fuente Dorada de Valladolid, cuja parte que é voltada para o norte sempre congelava antes do restante. Fui verificar completamente incrédula, acreditando ser quase uma lenda. E justamente na estátua que se refere ao inverno, um ferreiro martelando o metal na confecção de uma armadura, pequenos estalactites já se formavam.

Ruben voltou para seu apartamento e eu continuei minha jornada a descobrir a pequena cidade e seus grandes tesouros históricos. Na noite anterior, havíamos passado em frente à Catedral de Valladolid, Nuestra Señora de la Asunción. Eu já me impressionara em observá-la por fora, mas é igualmente bela por dentro. Fiquei surpresa de me encontrar completamente sozinha em seu interior, me sentindo quase uma intrusa a quebrar o silêncio com meus passos. Desenhada por um importante arquiteto, Juan Herrera, no século XVI, ainda não está completa. Muito próxima ao centro da cidade, se destaca por estar em um nível um pouco elevado, reforçando o efeito de grandiosidade. As colunas e largos arcos construídos com tijolos à vista oferecem um efeito rústico, mas um espetáculo para qualquer admirador de arquitetura.

Plaza Mayor

Plaza Mayor

Encontrei a Iglesia de Santiago, importante monumento histórico da cidade. Construído em várias etapas no decorrer dos séculos XV a XVII, a diferença de arquitetura é evidente e muito austera.Voltei em sentido à Plaza Mayor onde a estátua do fundador da cidade Pedro Ansúrez marca o centro. Movimentada por causa da Concentración Pingüinos, a praça estava ocupada pelas vozes e risadas de um grupo de motociclistas que se destacavam do restante da população com suas calças de couro, jaquetas ornamentadas e capacetes com chifres. Comemoravam o evento dividindo entre eles garrafas de vinho. Ainda estava lá, a alta árvore de Natal que era muito parecida com a que foi montada na Puerta Del Sol em Madri. E na Casa Consistorial, sede do Ayuntamiento de Valladolid, os enfeites natalinos me alertavam que a festa ocorrera há tão pouco tempo e eu já visitara tantos lugares. Um enorme carrossel antigo, no estilo veneziano laça meu olhar. Se fosse uma miniatura eu já ficaria maravilhada, mas ele era uma réplica perfeita feita de dois andares, com cavalos de madeira ornamentados. Simplesmente magnífico!

Carrossel Veneziano

Carrossel Veneziano

Em um poste, um banner anunciava Miró no Museo de la Pasión, mas infelizmente a exposição encerrara-se há cinco dias. Então optei em visitar a Casa de las Francesas que estava expondo Picasso, outra tentativa fracassada, pois estava fechado. Minha última busca foi a de conhecer o Museo de Caballería, situado em frente ao Parque Campo Grande na Academia Del Arma de Caballería de Valladolid. O edifício foi construído na década de 20, inicialmente para ser um presídio, mas acabou sendo usado como base militar. Bati com o nariz na porta mais uma vez, pois as visitas precisavam ser agendadas e só ocorriam no período da manhã, até às 13h30. Tive que me contentar em visitar os três edifícios por fora, que foi um prazer não menos intenso.

Sol no inverno de Valladolid

Sol no inverno de Valladolid

A tarde estava chegando ao fim, Ruben iria sair para correr e eu combinei de chegar antes para poder me arrumar, pois à noite iríamos nos reunir no apartamento de uma Couch Surfer argentina que ia oferecer um jantar típico. A temperatura caíra radicalmente e a cidade parecia estar coberta por um manto branco translúcido quando se olhava mais adiante. Lentamente fui caminhando de volta, tentando fotografar o máximo possível, mas minha falta de habilidade com a máquina me frustrava. Bastava o tempo estar mais fechado ou escuro que as fotos ficavam embaçadas e desfocadas. Encontrei mais uma igreja, ou era um colégio, não tenho certeza. A construção feita de escuros tijolos ficava às margens do Rio Pisuerga. Atravessei a ponte e parei alguns momentos para observar o rio já quase coberto pelo manto branco da névoa. Fileiras de árvores secas davam um ar fantasmagórico que acompanhavam toda a margem do rio, mas eram intercaladas em alguns trechos por outras árvores que carregavam em suas folhas as cores do inverno, formando uma imagem em tons de sépia e cinza. Tentei imaginar como seria aquela vista no verão, onde o Rio Pisuerga se torna uma grande praia para os vallisoletanos. Sigo absorvendo cada detalhe da paisagem tão diferente de tudo que já conhecera na vida. O sol tentava rasgar a densa cortina de nuvens se assemelhando mais à uma lua de brilho tímido. Visualizo uma grande árvore seca e branca e atrás dela o prédio de Ruben. Páro na porta do prédio, olho para trás e lanço um olhar de adeus, pois seria a última vez que me encantaria com tudo aquilo à luz do dia.

Mais fotos, acesse: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.500085823345608.113690.100000325830399&type=1.

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