Tapas em Valladolid

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Saindo do parque, o termômetro marcava 1º C. Devia ser por volta do meio-dia ou um pouco mais. Olho as cores vibrantes das plantas que enfeitam o canteiro da praça ao lado de uma enorme fonte sem entender como sobrevivem a esse frio que desconheço.  Próximo à fonte, a estátua de um poeta e dramaturgo vallisoletano, José Zorrilla, dá nome à praça em frente ao Parque Campo Grande e à uma importante avenida que nasce desce ponto também. Até onde li, o pai desse importante representante da cidade, era um homem influente e conservador , e teve muita dificuldade de aceitar o espírito artístico de seu filho que arruinou sua vida se entregando à seus maiores desejos; desenho, mulheres e por ser assíduo leitor de escritores liberais da época. Viveu na miséria. Só foi reconhecido muito tempo depois de ser, inclusive, perseguido pela polícia por seus discursos revolucionários. Sua figura impera ao alto na estátua da praça, e sua musa, uma mulher com asas e uma lira se situa ao pé da escultura.

Sigo em direção ao Paseo de Santiago, bem em frente . Muitas lojas ofereciam suas mercadorias a preços tentadores por causas das ‘rebajas’, promoção feita depois das festas de fim de ano e da Cabalgada de los Reyes, quando os espanhóis presenteiam tanto quanto no Natal. Parei em uma loja e comprei uma blusa de frio por 18 euros. Não pagaria menos que 90 reais em São Paulo por uma peça como aquela. Saio da loja já vestindo a nova aquisição para me proteger do vento frio que me gelava os ossos. A rua é um grande calçadão sem o trânsito de carros. Em contraste com as ricas e belas vitrines modernas, me deparo com uma construção que data do ano de 1.400, la Iglesia de Santiago. Um lindo edifício rústico que estava fechado para minha frustração. Me enamoro por ele pelo lado de fora. Olho seus detalhes, cada tijolo, sua torre e volto em direção à rodoviária com medo de passar do horário de trabalho da gentil funcionária que se disponibilizara a cuidar de minhas coisas.

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No caminho de volta penso como esse povo está magoado com seu país por causa da crise que os atingiu tão violentamente. Espanha é um país barato. Com exceção do que me falaram a respeito dos aluguéis que se equiparam aos nossos, creio que o custo de vida em São Paulo é muito mais alto. Mas para eles, acostumados à outra qualidade de vida, esse momento foi um duro golpe. Não passei um dia sem que alguma pessoa me falasse sobre isso e sobre alguém que tivesse ficado desempregado recentemente.

Chego cedo perto da rodoviária, perto das 15 hs. Ainda tinha um tempinho e resolvi conhecer os arredores, caminhando lentamente, até que encontrei uma escola de manicures. Pensei que talvez fosse a oportunidade de conseguir fazer as unhas de verdade. Não como em Sevilla que me deixara tão irritada com o preço alto e a péssima qualidade. Entrei recepcionada por uma brasileira. Dali por diante não estava mais preocupada com a unha a fazer. Ela falava comigo como se fóssemos antigas amigas que não nos víamos por um longo tempo. Nascera em Goiânia e fora tentar a sorte na Espanha, onde conhecera um espanhol e casara-se levando muito e muito tempo para ser aceita pela família dele. Os conselhos e comentários? Nada de novo além do que já tinha ouvido no restaurante em Madri da pequena e simpática mexicana com história parecida. Espanholas enciumadas, feitiches de espanhóis por latinas e negras e qualidade de vida sem comparação à de sua terra natal, apesar das saudades que a consumia. Eu falei pouco, mais a ouvia. E para falar a verdade não compartilho totalmente dessas opiniões generalizadas a respeito de como as pessoas enxergam as brasileiras. Há um pouco de orgulho latino incrustrado nesses comentários. Uma disputa de vaidades. Ela estava tão entretida em contar sua história que acabei por pegar o alicate de unha e tirar a cutícula eu mesma.

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Segui meu caminho deixando pra trás mais uma desconhecida, daquela vez uma compatriota. Peguei minha bagagem no locutório. Agradeci a funcionária e fui em direção à Cúpula Del Milênio onde encontraria Ruben. Não esperei mais que cinco minutos até ver a silhueta magra e alta do meu futuro host. Ele chegou com um sorriso largo. Um homem muito bonito, de pele morena, grandes olhos verdes e um vozeirão que parecia não caber dentro dele. Mais cinco minutos de caminhada rápida, eu tentando acompanhar os largos passos daquelas pernas compridas, e chegamos em seu apartamento. Ele é uma pessoa que carrega dentro de si o verdadeiro espírito de Couch Surfing. Já viajara bastante, tanto quanto já hospedara viajantes em sua casa. Uma pessoa desprendida de preconceitos, amável e hospitaleira.

Na varanda de seu apartamento me surpreendi com a mudança de cenário. O branco do céu dera espaço para um pôr-de-sol privilegiado. A vista da cidade, cheia de prédios, formava um jogo de sombras douradas regada à uma cerveja que ele ainda tinha na geladeira e ao seu sorriso franco e aberto, como ele se mostrara desde que nos encontramos. Essa recepção transformou minha chegada na fria cidade, em um momento caloroso onde a irmandade que essa comunidade de mochileiros pode oferecer, prevaleceu e me deixou confortável e feliz.

Pôr-do-sol em Valladolid

Assíduo esportista, ele foi correr como era seu costume. Enquanto ele praticava seu exercício diário, me deixou confortável em seu apartamento para que eu tomasse o banho tão desejado e depois iríamos sair quando ele voltasse para encontrarmos outros membros da comunidade. As ruas da cidade estavam lotadas. Isso não deixou de me impressionar por todo o período que estive na Espanha. Não há frio que prenda as pessoas às suas casas. Seguramente era a cidade mais fria que eu conhecera até então, mas o movimento de pessoas de todas as idades alegrava as ruas. Caminhamos por várias ruelas no centro antigo. Fiquei completamente desnorteada sem ter ideia de onde estava. Passamos pela Iglesia de San Martín, um edifício de 1.148 DC, muito simples, mas que encanta por ter sobrevivido ao tempo e pela bela torre com seu campanário. O bar onde nos encontramos com outros amigos se chamava Fierabrás. Por detrás de uma grade de ferro, uma pequena porta de madeira e vidro abria os braços para o bar quente e acolhedor. A decoração toda do bar fazia referência a D. Quixote, representado por um alto boneco no meio do bar, em frente ao balcão cheio de clientes e vozerio agitado. Do outro lado do balcão três funcionários trabalhavam freneticamente para atenderem a todos rapidamente. A parede tinha uma barra de tijolinhos à vista e a parte superior um amarelo forte servia de pano de fundo para alguns quadros, espadas e figuras engraçadas de Sancho Pança. As mesas de madeira, todas ocupadas, intercalavam-se com grandes barris antigos com tampos de madeira e bancos altos. Não havia escolha, mas acabamos ficando em um lugar privilegiado, não tão cheio e ao lado da janela que dava visão à rua.

O grupo optou por vinho que não me apeteceu muito. Depois de insistir um pouco, acabei desistindo e pedindo minha velha e boa cerveja gelada. O balcão dispunha de uma comprida vitrine com vários tapas e segui a sugestão de pedir uma tostada com um queijo branco e leve que creio que era de cabra, coberto por um caldo que parecia mel e com damasco em cima. Divino! Minha vontade era pegar um tipo de cada e levar para poder experimentar aos poucos. O que me fascinou desde o começo na culinária espanhola foi a capacidade deles de usarem ingredientes tão simples resultando em composições de sabores únicas. Os ingredientes eram sempre tão comuns, que eu acreditei que conseguiria reproduzí-los aqui. Foi um erro imperdoável não anotar as receitas e os nomes das comidas.

Foto retirada da internet - Fierabrás

Foto retirada da internet – Fierabrás

Conheci várias pessoas nessa noite, mas destaco duas que me conquistaram desde o primeiro contato. Jose Manuel, um amigo de trabalho de Ruben, também professor, um homem discreto e simpático. E Elisa, uma espanhola de olhos claros brilhantes, pequena por fora e grande por dentro. Esbanjava energia e logo de imediato foi possível perceber uma pessoa de personalidade forte e marcante. Ela falava um pouco de português, pois estudara em Lisboa. Adorei os momentos que passamos lá, mas era só o começo da noite. Ainda seguiríamos a tradição espanhola andando de bar e bar, ignorando por completo o frio que aumentava rapidamente sem pedir licença.

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