Outra face da Espanha – Valladolid

Alameda cruza Pq Campo Grande

Lá estava eu a caminho de Valladolid, mais uma vez na estrada, novamente com uma folha em branco a espera de novas surpresas, pessoas e experiências para escrever essa história. Eu nunca vivera tantas emoções em um espaço de tempo tão curto. Não eram só os lugares que eram diferentes. Viver sem me preocupar com nada, andando sozinha por tantas paisagens fascinantes me fortalecia dia a dia. Eu estava experimentando uma tranquilidade e uma paz que nem acreditava poder um dia alcançar. Amendrotava-me um pouco o retorno à rotina, mas não era hora de pensar nisso. Ali eu só me dava o direito de desfrutar de cada segundo com todos os sentidos à flor da pele. Ainda estava na metade dessa trajetória e eu continuaria bebendo dessa fonte com a avidez que minha alma necessitava.

O bréu da noite se derramara pela paisagem e o frio aumentara rapidamente. Adormeci embalada pelo movimento na estrada, mas despertei no meio da madrugada, corpo molhado de suor frio. Uma onda de tontura fez tudo ao meu redor girar rapidamente. Apavorada, olhei para o lado para pedir socorro. Um rapaz dormia e minha voz não saía. O breu da noite tomou conta da minha visão. Recostei no banco, de olhos fechados e a sensação me lembrou a única situação em que eu desmaiara na  vida. Pouco a pouco senti a tontura passar, mas uma ânsia de vômito lançou meu corpo para a frente. Não vomitei, mas ainda suava muito. Tão molhada eu estava que a princípio pensei ter urinado sem controle. Chegamos em seguida na  próxima parada e fui direto ao banheiro. Sequei-me com papel toalha, a roupa molhada… Não consegui mais dormir, mais pelo susto que propriamente pelo mal estar que se fora assim como chegara, sem dar aviso.

Poucas pessoas souberem desse incidente, e só contei quando voltei à São Paulo. Decidi não falar à ninguém. Espalharia uma preocupação, que como o tempo provou, seria desnecessária. Além disso eu tinha certeza que se algumas pessoas soubessem, eu passaria a enfrentar a pressão de voltar para casa ou ir a um médico. Qualquer das duas opções estavam fora de cogitação. A primeira porque eu não desistiria da viagem no meio, e a segunda, porque eu já me sentia bem melhor e não achei que seria necessário mesmo. Provavelmente eu tive uma queda brusca de pressão ou a ameaça de uma crise de labirintite que se dera conta a tempo que chegara em hora imprópria.

Pq Campo Grande - Valladolid

Uma hora depois era impossível acreditar que eu passara tão mal. Era como se nada tivesse acontecido. Apenas ansiava por um banho por causa do suor excessivo que me causava desconforto, mas só teria essa oportunidade no final do dia. A escuridão cedera espaço à luz que anunciava o fim da madrugada. Já haviam me avisado que aquela região era mais fria, mas a paisagem também diferia muito de tudo que eu já conhecera. Extensos campos emolduravam a estrada, a neblina não permitia que eu enxergasse mais adiante. O céu era diferente do cinza de um dia sem sol, estava branco como eu nunca vira. Sombras de árvores escondidas pela névoa formavam silhuetas por detrás de finas cortinas translúcidas, criando uma imagem estática de um balé de gigantes.

Ao descer do ônibus senti o ar frio invadir cada mínima brecha da roupa. Procurei um locutório a fim de contactar  Ruben, o couch surfer que me hospedaria na cidade, e combinar onde e em que horário iríamos nos encontrar. Ele estava trabalhando e mandou-me um recado que às 17 hs estaria disponível, em frente à Cúpula do Milênio, um centro de eventos que eu conhecera através de uma foto em que o Jo estava. Mas não creio que tenha sido uma coincidência. Jo já me falara tanto sobre Valladolid, que provavelmente qualquer ponto de encontro popular da cidade que Ruben marcasse comigo, eu reconheceria. Ainda eram 10hs da manhã. Perguntei à funcionária do locutório onde teria um armário para eu alugar e deixar minha bagagem durante o dia. Ela gentilmente se ofereceu para guardar ali até às 16 hs. Era perfeito! Não sei se sentiria tanta segurança de deixar minhas coisas com uma estranha se eu estivesse em meu próprio país…

Guarda Sol de flores - Pq Campo Grande - Valladolid

Fui andando lentamente em sentido ao centro, mas era tão próximo que não levei mais do que 15 minutos para isso. A densa neblina ainda estava baixa. A cidade era muito diferente também das que já visitara. Ao contrário das vielas estreitas, largas avenidas e ruas desenhavam o labirinto da cidade. Haviam muitos prédios, mais altos e modernos. Sem entender muito do assunto, arrisco dizer que foi uma cidade cuidadosamente planejada, pois mais tarde, já no bairro onde me hospedei, as quadras eram geometricamente definidas e as construções seguiam o mesmo padrão. O centro histórico propriamente dito relembra que a cidade não é tão nova. Prédios históricos muito bem conservados criam uma certa familiaridade com a paisagem da Gran Via em Madri, salva as devidas proporções é claro.

Entrei no Parque Campo Grande, que possui uma alameda que cruza o parque e que nos leva a uma das principais ruas comerciais da cidade. Como em todos os outros parques que visitara até então, dediquei um bom tempo desfrutando da beleza oriunda de tanto zêlo. Nem no Castillo de São Jorge em Lisboa vi tantos pavões como nesse parque. Um show de exibicionismo! Tive a sorte de ver um abrindo a calda como um grande leque multicolorido. Assim como as ruas da cidade, as passagens desse parque eram mais largas que o usual. Salpicando aqui e ali, bancos cujos encostos foram feitos com madeiras retorcidas davam a impressão de estarmos encostados em árvores. É difícil para mim descrever como simples postes hipnotizavam meu olhar ao observar o reflexo da luz em suas antigas lamparinas… Muitas estátuas enfeitam as pequenas praças formadas entre os caminhos que se cruzam. Dos lagos, fontes jorravam água que brilhava ao refletir a luz do dia. Um pequeno recanto com armações de ferro formariam sombrinhas de flores vivas na primavera, mas no inverno, o colorido rosa ainda estava tímido e discreto. A estátua em tamanho natural de um fotógrafo que se tornara parte viva do parque é uma homenagem singela aos fotógrafos de rua com suas antigas máquinas de tripé. Foi executada em 1994, informação que se esconde entre folhas sépias e o musgo que cobre a pequena placa de pedra.

O Fotógrafo - Pq Campo Grande Valladolid

Sentei em um banco da alameda. Abri um pacote de bolachas que foi o meu almoço naquele dia. Mais uma vez repenso como posso me sentir tão em casa em um lugar totalmente desconhecido. À vontade e confortável como se ali sempre fizera parte da minha vida. Observo as pessoas andando calmamente. Comportamento oposto ao meu cotidiano, à pressa da grande metrópole, oposto à urgência de São Paulo. Oposto à urgência que me sufoca. Sinto uma ponta de inveja daquelas mulheres equilibradas em seus ‘tacones’, elegantes em suas roupas de frio. Sinto um carinho pelos muitos idosos que passeiam nas ruas sem fugir do frio, pelas crianças que me encantaram no decorrer de toda a viagem, encapotadas e falantes.

Mais fotos, acesse: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.500085823345608.113690.100000325830399&type=1.

Anúncios

Seja você uma parte desse mosaico. Compartilhe suas impressões, sentimentos e opiniões aqui.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s