Despedida de Sevilla

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Chegando em Sevilla o frio amenizara, mas meu corpo pedia por um banho quente. Após uma ducha revitalizadora no apartamento de Mário fui em direção a La Carbonería, onde estivera na noite anterior. Minha intenção era chegar mais cedo para assistir ao espetáculo de dança flamenca. No caminho para lá, páro para comprar cigarro e encontro a simpática francesa Flô que compartilhara de bons e saborosos momentos com as porções vendidas no mercado de peixes no meu primeiro dia com Mário. Ao lado havia um bar onde ele organizara um meeting relâmpago do Couch Surfing para assistir a uma partida de futebol.

Em São Paulo esses meetings são animadíssimos. Por ser uma cidade tão grande, cerca de 100 a 120 pessoas se reúnem todas as terças-feiras para conhecer os mochileiros e confraternizar com outros membros da própria cidade. Eu era viciada em participar desses encontros quando ingressei na comunidade, mas havia dado um tempo no final do ano para economizar para a viagem.

Resolvi entrar para cumprimentar Mário. Ainda havia pouca gente. O amigo que estivera conosco na noite anterior, Joaquin, não fora embora. Flô e uma amiga, Mathilde, Mário e eu nos sentamos para conversar um pouco. Chega gente daqui, chega gente de lá, conheci outros membros do grupo de Sevilla. Nessa noite conversei muito com Flô e a empatia inicial que senti por ela no primeiro dia, só se confirmou. Ela é aquele tipo de pessoa que sempre tem assunto com quem seja. Linda, divertida e muito amável, é também uma pessoa que sente curiosidade em relação às pessoas e ao mundo. Lembro dela me indicar uma visita à um hotel que era muito diferente. O Hotel Las Casa de la Juderia inclui casas tradicionais interligadas por corredores e pátios no antigo bairro judeu da cidade. A decoração é tradicional e até os móveis são de época. Há jardins e fontes muito bem cuidados e é ligado aos quartos de San Clemente por uma passagem subterrânea de 200 metros de distância. Fiquei muito triste de não ter dado tempo de visitar esse lugar, mas é uma boa desculpa para voltar para Sevilla um dia.

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Acabei perdendo o espetáculo de dança flamenca e optei por ficar ali mesmo em meio à conversa agradável e o alto astral daquelas pessoas. Foi uma noite muito gostosa. Mathilde, a outra amiga francesa de Flô, tão bonita quanta ela, falava um pouco de português. Ela iria em pouco tempo viver com seu marido em Angola, história que me fascinou e rendeu boas horas de conversa.

Novamente eu, Mario e Joaquin, além de mais duas garotas que estavam no meeting, fomos a La Carbonería com a intenção de ver se ainda restara algum espetáculo para eu assistir. Tarde demais. Sentamos em outro ambiente que não havia visitado ainda. Era um enorme salão com compridas mesas baixas. Estava cheio de jovens que riam e falavam alto. Estava gostoso, mas nada perto da mágica noite anterior.

No dia seguinte, meu último dia em Sevilla, segui o conselho de Mario e fui conhecer Alcázares, uma imensa caixa de surpresas com estilos islâmicos, góticos, renascentistas e barrocos. A entrada pela Puerta Del León, esconde a imensidão de palácios, salas, pátios, corredores e jardins, que sozinhos já fornecem um espetáculo à parte. Logo na entrada à esquerda, a Sala de la Justicia, cômodo construído no antigo palácio muçulmano durante a idade Média. Na pequena sala quadrada com paredes trabalhadas em gesso e teto de madeira, como as vistas em Alhambra, uma fonte rasa centralizada espalha no ambiente o som da água que corre para o tanque do jardim anexo, cuja parede do lado esquerdo se destaca pelos três arcos de arte califal, tão presentes em Córdoba e que eu não pude visitar.

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Saindo dessa sala, à sua frente a entrada para o Cuarto del Almirante e a Sala de Contratación, onde projetaram importantes viagens de descobrimento, como a primeira volta ao mundo de Magalhães por exemplo. Hoje exibem no primeiro ambiente leques que são verdadeiras obras de arte, nos outros cômodos gigantescos quadros e tapeçarias cobrem as altas paredes. A sala mais impressionante é que converteram em capela. Brasões se espalham pelas paredes, um baú trançado de couro e uma miniatura de caravela empoeirada repousam em cantos opostos. No centro, a belíssima pintura La Virgen de Los Navegantes impera. Mas o indescritível mesmo é o teto dourado ornamentado com figuras geométricas. Não tenho palavras para descrevê-lo.

O Patio de la Montería fica em frente ao palácio de Pedro I de Castilla e era onde ele reunia seus cavaleiros para as caçadas. É nítida a influência islâmica na fachada do prédio com suas figuras geométricas entrelaçadas que contrastam com outros estilos posteriores que decoram as laterais do pátio. Subi ao segundo andar por uma entrada lateral à direita antes de entrar no palácio propriamente dito. O acesso ao Cuarto Real Alto contém uma azulejaria deslumbrante em tons de azul e contrasta com a madeira escura das portas e da grade que acompanha a escada. Já no andar superior tive a grata surpresa de encontrar uma exposição que retratava a história da cerâmica na Espanha. Além de peças lindas e antiquíssimas, uma projeção feita no chão de uma das salas me entreteve por cerca de vinte minutos. Eu olhava cada detalhe daquelas pinturas que fizeram parte tão importante da minha vida nos quase vinte anos que trabalhei com arte. Não sei bem porque abandonei esse hábito, mas naquele momento senti um desejo enorme de pintar novamente.

Já no palácio de Pedro I caminhava lentamente por entre as várias salas, quartos e corredores que esbanjam a mesma beleza de Alhambra, mas mais conservado e com cores ainda vibrantes. Arcos, azulejaria, marchetaria, colunas de mármore e o rico gesso trabalhado com arabescos se espalham por toda parte, do chão ao teto. Da totalidade desse palácio, se é possível eleger maiores belezas, destaco o Patio de lãs Muñecas, Patio de las Doncellas e o Salón de Embajadores.

O magnífico Patio de las Muñecas é como um jardim de inverno no meio do palácio, mas sem plantas. No centro, só repousa um pequeno vaso. Recebeu esse nome devido a pequenas figuras de rostos acima dos arcos. É possível vislumbrar dois andares superiores. E no alto, o teto de vidro permite a entrada do sol que ilumina o ambiente. Já o Salón de Embajadores vale pela cúpula suntuosa que parecia uma estrela de ouro gigante sobre minha cabeça. E o Patio de las Doncellas com seus arcos equilibrados por colunas duplas são inenarráveis.

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Uma pequena passagem desemboca em um corredor que nos leva à capela em estilo gótico com seus arcos entrelaçados. Um confessionário antigo iluminado com luzes amarelas daria uma aparência fúnebre ao local, não fosse a alegre azulejaria onde predominava o tom de amarelo. A partir dali, corredores, salões e candelabros gigantes me fez viajar aos castelos de contos de fadas. No salão principal, onde os bailes aconteciam, a alta cúpula rodeada de janelas iluminam os anjos que a emolduram . Eu conseguia imaginar aquele salão apinhado de gente com suas roupas de época e a música tocando.

Na área externa me deparo com a estátua de Mercúrio centralizada em um enorme tanque onde carpas se espalham e colorem a água. Uma enorme muralha, a Galeria Del Grutesco, divide os jardins. Tinha um aspecto bem diferente de tudo que eu já vira. Próxima aos Jardines de Mercurio sua fachada apresenta afrescos pintados em tons pastéis, gastos pelo tempo. Suas paredes construídas com pedras brutas dão-lhe um aspecto muito rústico. Suas escadas são tão estreitas que não é possível passar duas pessoas ao mesmo tempo, assim como o seu corredor que oferece a visão da imensidão de arbustos, árvores e plantas diversas que surpreende. Labirintos vivos parecem irreais. Os gazebos mais uma vez me lembram as histórias de princesas e seus príncipes encantados. Pavões passeiam por todo canto.

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Por mais quase duas horas, andei pelos vários jardins, na maioria das vezes desertos. Quando já nem era possível vislumbrar a construção dos castelos, o jardim se transforma em um lindo parque, onde pintores treinavam sua arte entre fontes e árvores milenares.

Volto em direção ao palácio e me dirijo à saída que desemboca no Patio de Banderas, uma grande praça abarrotada de mexeriqueiras onde expunham as bandeiras do país caso algum rei estivesse visitando o local. Também funcionara como centro militar. Sua pesada porta de madeira nos dirige para fora do complexo e a primeira visão de fora é La Giralda que eu visitara em meu primeiro dia em Sevilla. O  passeio desse dia fechou com chave de ouro minha visita à essa cidade que me conquistou desde meus primeiros passos que ecoavam no silêncio da madrugada ao chegar.

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Voltei triste para o apartamento de Mario. Arrumei minha bagagem e fui para Corral de Esquiavel, o bar que fora depois do Mercado de Pescados. Quando cheguei lá, Mario ainda não chegara. Encontrei Jose, um couch surfer que conhecera na noite anterior durante o meeting. Logo Mario e Jose Luis chegaram e outros amigos deles que não conhecia bem. Foi uma despedida curta, já era hora de ir para a rodoviária. Mario me levou até lá e me despedi emocionada desse amigo que fiz em tão pouco tempo, que tenho tanta consideração e carinho e que me hospedou com tanta generosidade. Não foi fácil deixar Sevilla. De toda a viagem, essa é a cidade que mora no meu coração e que sem dúvida nenhuma eu visitarei de novo se tiver oportunidade. Uma cidade cheia de história, tradição, linda e intensa. 

Mais fotos acesse: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.496437787043745.113054.100000325830399&type=1&l=7d508a00ce

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2 pensamentos sobre “Despedida de Sevilla

  1. A dança dos azulejos ao som de música tão suave são como um sonho.É só fechar os olhos e estar lá!!! Seu olhar privilegiado de artista torna tudo mágico. Obrigada por esse passeio. Bjs

  2. Viajei com você por essa Sevilha maravilhosa. Subi os 36 andares da Giralda, até chegar aos sinos…
    Lindos os rendilhados das paredes e muito boas as suas descrições.
    Valeu!

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