Cádiz, uma cidade inesquecível

Cheguei em Cádiz ainda cedo. Essa cidade foi fundada pelos fenícios e teve suma importância na história da Espanha por se tratar de uma região comercial.  Perto do pequeno terminal de ônibus, a visão de um grande porto de um lado. Uma das viagens de Cristóvão Colombo para conquistar o Novo Mundo saiu de lá, pois seu ponto estratégico era um facilitador para tais missões.

Com a visão da Catedral da cidade, começo a conhecer o Casco Antiguo, como é chamado o velho centro da minúscula cidade litorânea que fica ao sul da Espanha. Construída com pedras de um bege claro, a parte superior das torres quase brancas, ela se diferenciava de todas as igrejas que já tinha visto até aquele momento, sempre escuras e com um aspecto muito antigo. Pelos menos por fora ela poderia ser confundida com uma construção atual pela aparência do material. Porém sua construção iniciou-se por volta de 1.700, mas levou mais de cem anos para ser concluída, mesclando vários estilos arquitetônicos distintos.

 

Sua entrada fica na rua paralela atrás da comprida via que segue o mar. Na praça à sua frente, como em tantos outros lugares, um músico talentoso valoriza o momento. Alguns cafés com mesas na rua estavam praticamente vazios. Apesar do céu sem nuvens, na sombra o calor sumia e quando entrei na construção depois de atravessar a pesada e alta porta de madeira maciça, um frio subiu pelas minhas pernas atravessando o couro da bota e gelando meus pés quase que instantaneamente.

Logo na entrada, o mármore, a madeira das portas e confessionários e grandes quadros com temas religiosos nas paredes escureciam o ambiente criando um ar sério e compenetrado ao lugar, mas ao visualizar a nave da igreja e os dois corredores paralelos, as altas colunas gregas muito claras encaminhavam o olhar para as janelas que abriam espaço para os feixes de luz do sol que se esparramavam pelo interior. No alto uma estátua me observava, do outro lado à sua frente um grande órgão exibia seus tubos como flechas que iam em diversas direções… Que lindo teria sido ouví-lo funcionando… Ao sair meu olhar se desvia para o rosto do anjo acima da pia de água benta. Nem de perto imponente como o da Basílica no Vaticano, mas sua expressão me encantou.

Saí convicta de que subiria a torre para vislumbrar a panorâmica vista da cidade, mas achei sete euros um pouco salgado, quase R$20,00 que poderiam me fazer falta no decorrer da viagem que ainda estava na metade. Apesar da tentação de seguir caminho beirando o mar, decidi deixar para a volta e ir pelo centro da cidade. Foi uma decisão perfeita!

Ruelas muito estreitas me levaram a um centro comercial apinhado de gente. Numa praça, uma feira livre era tentadora com roupas, tecidos e sapatos muito baratos. Resisti bravamente! Barracas de flores coloriam o ambiente e muitas espécies que estavam sendo vendidas ali eram desconhecidas para mim. Arrisco dizer que senti até mais vontade de comprar as flores que os outros produtos. Obviamente teria sido uma burrice. Andei praticamente em linha reta observando uma enorme quantidade de vitrines. Muitas lojas com bijouterias e cerâmica apresentavam a forte influência muçulmana. Por todo esse caminho, ouvi um falatório eufórico que me lembrou um pouco os centros comerciais de São Paulo, mas com o charme desse idioma que me fascina tanto quanto uma música que embala meus pensamentos.

Quando cheguei novamente na orla, eu já estava muito perto do Castillo de Santa Catalina, um forte em formato de estrela construído por volta de 1.500. Essa construção espetacular além do caráter de defesa, foi também prisão de políticos liberais espanhóis em meados de 1.700 e hoje é um grande espaço cultural com oficinas pedagógicas e artísticas, um pequeno museu que retrata sua história e um espaço de exposições temporárias.

Logo na entrada, um adesivo de ‘Peligro’ alerta o visitante para o degrau que atravessa a portão. Escadas espalhadas pelo pátio interno indicam o caminho para as pontas da estrela formada pela construção. Comecei circundando toda a extensão. De uma das guaritas que se posicionam nas cinco pontas, a pequena janela dava uma sensação quase claustrofóbica apesar de abrir visão ao oceano infinito. Debruçada nas velhas muralhas era possível ver a transparência da água e alguns poucos, mas grandes peixes que nadavam ali.

Da ponta que fica no extremo leste da fortaleza não era possível ver nada da cidade, só o mar e uma parte da costa cheia de pedras onde, muito longe, um homem sentado olhava o horizonte, tão sozinho quanto eu. O silêncio só era quebrado vez ou outra por alguns pássaros e o mar que batia calmo nas pedras. Não havia ninguém além de mim ali e por mais que eu tente descrever a minha sensação, não há palavras que corresponderiam a sua intensidade.

Por todo castelo, algumas estruturas de arte moderna destoavam do ambiente. O pátio central lembrava uma pequena vila antiga, com várias casinhas e pequenos cômodos que nem sempre eram interligados, alguns podiam ser visitados. O espaço de exposições era coberto por arcos que me encantam tanto. Ali outro visitante observava as belas gravuras realistas de um artista que não lembro o nome e que sempre trabalhava com um jogo de luz que remetia ao nascer do sol, com o amarelo quase branco que vai iluminando pouco a pouco o mundo e enchendo ele de sombras distorcidas. A pequena capela mal comportava o brilho dourado refletido pelos holofotes no altar em estilo barroco. No museu, além de vários utensílios antiquíssimos de ferro e cerâmica, fotos registram o avanço do mar engolindo a terra ao redor do castelo. Em um canto do pátio, um jardim muito bem cuidado começava a florir em rosa e no chão uma enorme âncora com cerca de um metro e meio de comprimento repousava sobre as pedras que forravam o chão.

No calçadão que beirava a praia, o silêncio do castelo era substituído pelo som das pessoas que conversavam enquanto se aqueciam ao sol, sentadas na mureta em frente à uma marina. Barcos e pássaros boiando dividiam o mar naquele trecho. Que cidade linda! Em direção ao Castillo de San Sebastian em frente a um prédio muito antigo, uma manifestação acontecia reivindicando melhores condições de tratamento em um hospital psiquiátrico. Em seguida, já com as vozes abafadas dos protestos, me deparei com o Centro de Arqueologia Subaquática do Instituto Andaluz do Patrimônio Histórico. Infelizmente ele estava fechado para visitas. É um prédio que foi construído na década de 20 para proporcionar um lugar de prazer para a elite. A fachada em frente à Playa de La Caleta é muito extensa e curva que sugere um abraço ao mar. Nas duas pontas laterais, torres com abóbodas completam a magnitude da obra.

Nesse calçadão que acompanha toda a orla da cidade, algumas pessoas passeavam calmamente de bicicleta pela ciclovia. Palmeiras muito altas salpicavam pela extensão do trajeto intercalando-se com os postes de luz que refletiam o brilho do sol através dos vidros das lamparinas de ferro. Eu pensava se as pessoas que viviam ali se davam conta de quanta beleza as rodeava, ou se estariam tão acostumadas que passava despercebido.

Parei em um restaurante em frente a um pequeno portal de entrada para o calçadão que invade o mar para chegar ao Castillo de San Sebastian que se localiza em uma pequena ilha. Do lado de fora do restaurante, me sentei na bamba cadeirinha de madeira pintada à mão. A mesa era forrada por uma toalha xadrez de azul e branco que se debatia inquieta por causa do vento forte. Deliciei-me novamente com a culinária espanhola. Não lembro o nome do prato que pedi que parecia um tempurá, mas continha também uma massa de batata que se misturava ao camarão. Descansei um pouco ali sob o sol morno e o vento forte e podia ver e ouvir através do portal ao lado, as gaivotas que voavam baixo. Não posso deixar de comentar do belo garçom, loiro, cabelo quase raspado, lindos olhos verdes com a camiseta dobrada no braço que parecia modelo para a cena de um filme na qual eu estava participando.

Já nesse calçadão que adentra o mar caminhei vagarosamente tentando registrar nas fotos aquela paisagem tão espetacular. Nada se compara a sensação do cheiro do mar, do som das ondas e dos pássaros, do sol e vento na pele. Na praia um casal apaixonado se acariciava no pequeno espaço de areia rodeado de muros da calçada. O trajeto até o castelo era ladeado por uma mureta baixa. Quanto mais eu me aproximava da fortaleza, mais o mar ficava revolto, cobrindo o caminho em alguns pontos como a lembrar ameaçadoramente que aquela invasão de território não tinha sido aceita pela natureza. Não havia perigo real naquele momento, mas senti um medo que não condizia com a realidade. Fiquei imóvel por alguns instantes até que um pássaro voou muito próximo e baixo à minha frente. Olhei o castelo e não resisti. Segui em frente pronta para ganhar meu grande prêmio de visitar mais uma construção repleta de histórias e fantasmas, mas infelizmente ele estava fechado também.

Cheguei ao ponto onde se encontra a Catedral que eu visitara no começo do dia. Ali naquela altura, não existia banco de areia. Um enorme muro era protegido por montanhas de cubos gigantes que acredito serem de cimento ou concreto. Um deles foi pintado como um dado, roubando um sorriso discreto de meus lábios. Resolvi pegar um ônibus para conhecer a extensa Playa Victoria. O sol já dourava o céu anunciando a noite que chega prematuramente no inverno. À frente dessa praia, muitos edifícios altos, hotéis e um luxo maior se revelava através do comércio e dos restaurantes mais sofisticados. Imaginei aquela praia imensa lotada de pessoas no verão quente que castiga o sul da Espanha. Dessa praia até a rodoviária pude ver um pouco mais da cidade com suas belas construções, estátuas e a leveza característica das cidades litorâneas. Esperando o ônibus de volta para Sevilla a temperatura caíra rapidamente e o forte vento aumentava a sensação de frio. Mais um lugar que me despedi com lágrimas nos olhos com a incerteza de nunca mais poder pisar.

Mais fotos, acesse o link do facebook https://www.facebook.com/media/set/?set=a.486723861348471.111159.100000325830399&type=1&notif_t=like

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