La Carbonería – uma noite inesquecível em Sevilla

Os fins de tarde quando caminhava de volta para onde me hospedava para tomar um banho e sair à noite, eram todos iguais. Eu vivia uma espécie de transe. Minha mente viajava nas imagens e informações coletadas durante o dia. Como sempre me desviava dos caminhos habituais para conhecer um pouco mais dos bairros onde eu ficara, era comum eu me perder. Nesse dia foi assim também. Andei por cerca de duas horas reconhecendo aqui e ali, mas sem conseguir me localizar por completo. O telefone toca e Mario me indica onde estaria com um amigo para assistir a um jogo de futebol, comer e tomar umas cañas. 

A temperatura caíra radicalmente. O bar ficava perto de La Giralda, em uma pequena ruela sinuosa, como outras tantas, forradas por largas pedras. Também como outros tantos que já visitara, o lugar era formado predominantemente de madeira escura. Mesinhas retangulares enfileiravam-se ao lado das grandes janelas de vidro com pequenas cortinas em um xadrez vermelho e branco e que ofereciam visão do lado de fora. Logo que entrei vi Mario com seu amigo, sentados em uma das altas e pequenas mesinhas circulares com seus bancos igualmente altos, que se espalhavam pelo centro do pequeno salão. 

Um grupo de homens eufóricos assitia ao jogo. No balcão duas guapas e um rapaz revezam-se no atendimento. Mario estranhou meu silêncio, mas era puro cansaço que foi esquecido após alguns minutos de conversa e cerveja gelada. Seu amigo, não lembro o nome, trabalhava junto com Mario, morava em Granada e ia passar a noite em Sevilla. Passamos lá um bom par de horas, e como nem Mario e nem eu somos de desistir cedo, resolvemos esticar a noite arrastando seu amigo junto a um bar muito tradicional, La Carbonería.

Acho que esse é o tipo de lugar que só quem tem a companhia de uma pessoa do local consegue conhecer. Pelo menos eu nunca tinha visto nada que se referia a ele nem antes e nem depois de conhecê-lo. Depois de nos embrenharmos no labirinto de ruelas estreitas, nos deparamos com a pesada porta de madeira maciça que estava aberta convidando-nos a entrar. À esquerda do primeiro corredor, curto e largo, um balcão. À direita os banheiros e no meio um caminho torto de pedras me lembraram as marcas que as águas fazem nos leitos dos rios, formando uma pequena canaleta no centro do caminho. O salão que se seguia continha, de um lado, baixas e compridas mesas retangulares com bancos de uma peça só que acompanhavam toda a extensão onde os clientes de misturavam a grupos desconhecidos. Do outro lado alguns bancos.

Bem à frente um pequeno palco com um piano e algo que não consegui descobrir até agora o que era, mas parecia um grande exaustor de madeira. Nas paredes de tijolos gastos pintados de branco, pôsteres antigos anunciavam um festival de arte flamenca de 1998, gravuras vintages e pássaros coloridos insinuavam uma revoada. Atrás das compridas mesas, nos acomodamos entre os degraus e um pequeno banco que ficava em um nível um pouco superior. A casa estava cheia, mas não lotada. O ambiente era meio bicho-grilo, muito alternativo e as pessoas que ocupavam o espaço representavam bem essa característica através de conversas entusiasmadas, ou simplesmente curtindo o próprio porre.

Ao lado direito do piano, em um nível um pouco superior, uma pequena cadeira de madeira pintada à mão, de assento de palha trançada foi ocupada por um cantor e ouvi Besame mucho como se aquele intérprete fosse o melhor do mundo! A saudade de minha terceira filha, Gabriela, cresceu naquele momento, como crescia toda vez que a música era um componente dessa viagem. Não que o cantor fosse maravilhoso, mas certamente todo o cenário e a energia que envolvia aquele momento contribuíam para a beleza do show. Depois de cantar, conversamos um pouco com o artista. Na verdade ele era turco e se sentiu bastante vaidoso quando lhe contei que eu o havia gravado para mostrar para minha filha. “Então minha voz será ouvida do outro lado do oceano?” disse sorrindo. Sorri de volta e o agradeci, mas aquela frase me deu um frio na espinha. Foi como se de repente eu me desse conta de quão efêmera era aquela minha vivência.

Minha nostalgia não durou mais que poucos minutos. Um rapaz visivelmente alcoolizado se sentou no banco da comprida mesa, quase à minha frente que estava sentada em um dos  baixos degraus. Puxou conversa ao perceber meu sotaque perguntando de onde eu era. Conversamos um pouco, mas ele era bem chato! Já sua amiga, apesar de tão bêbada quanto ele, era uma moça linda, muito simpática e com belos olhos claros, também se aproximou. Pedimos para tirar uma foto nossa e a partir daí eles nos proporcionaram um fim de noite bastante divertido. Não lembro de onde ela era. Sérvia talvez, mas após um palpite fracassado do amigo de Mario de que ela era de Palermo (não me perguntem de onde ele tirou essa ideia) continuamos chamando-a de italiana até o resto da noite, apesar dos seus protestos anaudíveis.

No meio do salão um senhor foi retirado por pelo menos duas vezes por estar tão bêbado que não permitia que ouvíssemos o rapaz que tocava piano naquele momento. A casa foi esvaziando-se pouco a pouco e resolvemos ir embora. Mario me disse que lá, em um horário mais cedo, ocorriam shows de flamenco. Entrou para a minha lista do dia seguinte voltar a visitar aquela casa que eu seria uma cliente constante se tivesse acesso no meu cotidiano. Sempre gostei de lugares descontraídos, descolados, onde não importa o que vestimos. Onde a alegria é a única regra.

Voltamos para onde Mario havia estacionado sua moto através das ruelas silenciadas pela madrugada. Ao lado da Catedral de Sevilla, na rua que poucos dias antes eu visitara repleta de gente, só se ouvia nossas vozes e risos que foram interrompidos pela chegada de duas mulheres que vieram pedir informação.  Las dos chicas guapas y muy, muy borrachas ficaram conosco por cerca de meia hora entre risadas, conversas desconexas e uma sessão de fotos. Realmente essas pessoas que nem lembro o nome, que não conheço nada de suas vidas, são personagens que enriqueceram minha viagem. Ofereceram a mim lembranças divertidas, emocionadas ou simplesmente foram providenciais. Certamente não as esquecerei nunca. Assim como chegaram, se foram…

Eu e Mario subimos em sua moto para voltar para casa. O frio era cortante, mas a sensação de felicidade e plenitude pelas emoções que estava vivendo superavam qualquer incômodo. Na noite que ficamos em casa, onde tantos sentimentos e experiências foram compartilhadas, Mario havia me falado sobre Cádiz, uma cidade litorânea no sul da Espanha. Acabou por me convencer a trocar Córdoba por ela. Fui dormir pensando se seria possível de alguma maneira manter a euforia e o encanto que estava sentindo por Sevilla em outro lugar…

Mais imagens de La Carbonería e outros sevilhanos, acesse https://www.facebook.com/media/set/?set=a.367881906566001.86572.100000325830399&type=1

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2 pensamentos sobre “La Carbonería – uma noite inesquecível em Sevilla

  1. Adorei ouvir Besame mucho com o fundo musical de sua risada inconfundível. Consegui sentir esse seu momento de plenitude. Não fez nenhuma diferença o fato do cantor não ser lá “essas coisas”

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