Entre o rosa e o azul

Desvio um pouco do assunto feminismo e postura da mulher moderna na sociedade para tocar em um assunto que, na verdade, está estritamente ligado tanto às essas causas como a qualquer outra que envolva polêmica ou  discriminação e preconceito, ou que intimide um grupo de pessoas específicos por se diferenciarem seja pela cor, comportamento, opção sexual, religião ou classe social.

Eu sinceramente fico chocada! Num mundo tão globalizado, tão invadido por tecnologia… Nunca se teve tanta oportunidade de alcançar novos horizontes, de se sonhar tão alto! Mas em termos de comportamento, as pessoas parecem ter evoluído muito pouco. O que sinto na verdade, é que as mudanças individuais estão ocorrendo em certo ponto, até onde aperta o calo. Apertou? Doeu? As pessoas não digerem o assunto! Não se confrontam com seus próprios dilemas e simplesmente, no melhor dos casos, se omitem. No oposto extremo, uma postura conservadora culpa os “diferentes” pelo caos que toma conta da humanidade. As mulheres com sua nova postura são as criadoras da obscenidade, os negros com suas cotas são aproveitadores e preguiçosos, os gays são promíscuos e por aí vai…

Abaixo seguem três videos que são depoimentos de famílias que reconheceram em seus filhos a transexualidade e corajosamente os apoiaram, apesar de seus medos e frustrações. Uma lição de vida, de amor incondicional e repito, numa atitude de coragem, pais e filhos enfrentaram um mundo que na melhor das hipóteses os chama de insanos, desiquilibrados ou loucos. São 42 minutos que garanto, vale a pena separar para assistir…

No meu círculo de amizade possuo alguns amigos que poderiam facilmente se encaixar em vários  grupos considerados diferenciados. Negros, gays, pobres, feios, gordos e por aí vai… Alguns deles fazem parte das amizades mais fortes e intensas que já tive na vida. Pessoas que quero ter perto de mim para sempre. Essas pessoas, tanto quanto se divertem comigo, dançam e cantam, ouvem minhas queixas, me dão conselho e conforto e dividem igualmente comigo suas aflições. É doloroso ver uma pessoa que amamos passar por preconceitos, ser humilhada, estar constantemente em uma situação de desigualdade em relação à homens, brancos, heteros, pessoas dentro do padrão de beleza e bem sucedidos, ou pior, bem nascidos.

Não podemos continuar nos enganando. As pessoas sofrem preconceitos no decorrer de suas vidas e nós estamos simplesmente parados. Assistindo a tudo como à uma novela. Não adianta postar no facebook, twitter ou qualquer outra rede social, protestos que você não é capaz de defender quando está à frente de uma situação, ainda que usar as ferramentas da tecnologia possa nos ajudar a gritar alto que; “Não suportamos mais viver em desigualdade!”

Quando se fala de preconceito, é difícil para mim separar cada assunto, mas focando ao tema dos vídeos não posso deixar de fazer algumas considerações:

Qualquer pessoa que já tenha ouvido de um homossexual, as dores e as dificuldades, incluindo um paradigma pessoal, para se assumir como é, sabe que não é um processo fácil. Anos de negação seguidos de intimidação, começando pelos pais, depois amigos da escola e sociedade. Anos de humilhação. Do “bulling” que tem sido banalizado por uma propaganda reacionária que faz parecer que é um exagero. Uma vida que leva a pessoa a pior da baixo auto-estima e confiança. Tudo isso são dramas reais que acontecem todos os dias com pessoas de carne e osso, alma e intelecto.

Algumas pessoas serão capazes de dizer que os pais dessas crianças que apareceram no vídeo os incentivaram a ser como são. Acordem! Nessa sociedade onde dividimos o mundo entre o rosa e o azul, não há pais e nem filhos que escolham a cor do time oposto! Todos nós sabemos o peso que é lutar por esse direito. De simplesmente ser quem somos! Mesmo para quem está dentro dos padrões mais confortáveis da sociedade, se impor já é difícil!

Dizem que pais opressores e mães super protetoras despertam o interesse gay em seu filho. Mas a verdade é que pais desiquilibrados podem criar um filho com distúrbios sim! Se esse filho for hetero é muito provável que seja um agressor tão ou maior que o pai, ou um homossexual que negue veementemente todos os conceitos que foi obrigado a conviver sem concordar e sob opressão. E no caso da super proteção, podemos criar filhos dependentes, afeminados ou não. O que quero dizer é que inevitavelmente a educação dos pais vai influenciar na vida dos filhos, mas a opção sexual nada tem a ver com isso. Os efeitos só serão representados de maneiras diferentes.

Desde que o mundo é mundo o ser humano sente necessidade de fantasiar e em situações que a sociedade criou para que seja permitido isso, ninguém estranha. Homens particularmente tem um verdadeiro horror a filhos que gostam de se vestir de mulher, mas se essa criança não for homossexual, isso será apenas uma brincadeira. E no caso de ser gay, não há proibição de vestimenta que mudará o que a alma daquela pessoa está tentando afirmar.

No ano de 2012, o Ministério da Educação tomou uma iniciativa bem polêmica. A de criar um um kit anti homofobia. “Apesar de a abordagem sobre o adolescente homossexual estar longe de ser consenso, o combate à homofobia é uma bandeira que o ministério e as secretarias estaduais de educação tentam encampar.” Quero deixar bem claro que não estou fazendo aqui uma campanha a favor de nenhum partido ou candidato, já que estamos em época de campanha eleitoral. Só que independentemente de acreditar ou seguir seja partido ou candidato, alguns projetos se fazem necessários.

Criar um material anti homofóbico para as escolas é tão importante como acentuar a repugnância ao rascismo, ao machismo ou à desigualdade social e de religiões. Ou continuaremos a deixar que gays, lésbicas, bi e transexuais sejam humilhados, ridicularizados e até, em certos casos, espancados e mortos? Para uma sociedade conservadora e oficialmente cristã, esse tratamento seja lá a quem for parece um pouco incoerente, ou não? Se o material a ser distribuído está bom ou não, precisa ser modificado ou analisado, é outro problema, mas que ele se faz necessário eu não tenho dúvidas.

Hoje, mais uma vez eu fiquei perplexa com um post de uma página que se intitula “Orgulho Hetero”. Segue  o post usado como propaganda eleitoral que ao meu ver é repugnante.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=428054513925243&set=a.419320911465270.101439.275406545856708&type=1&theater

Esse material anti homofóbico passou a seu chamado de kit gay. O principal argumento contra ele é que tal material incentiva a homossexualidade. Sinceramente, por todos argumentos que explanei acima e outros, só posso dizer que acho isso uma besteira. Talvez a mais total, completa e irracional besteira que já tenha ouvido! O conteúdo não foi aberto ao publico. Mas discuto  a postura que se tem à frente de um problema que pode ir de comprometer a vida de um ser humano emocional e afetivamente, até em casos extremos, à vida dessas pessoas sujeitas ao julgamento individual das pessoas que compõem a sociedade, já que esta não assume uma posição de quem luta pela igualdade.

 

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Entre o rosa e o azul

  1. Pingback: Propaganda lança mensagem que só criança enxerga | Sonhos em Mosaico

Seja você uma parte desse mosaico. Compartilhe suas impressões, sentimentos e opiniões aqui.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s