Glorieta de Bécquer – poesia em forma de escultura

“Los suspiros son aire y van al aire!
Las lágrimas son água y van al mar!
Dime, mujer, cuando el amor se olvida
sabes tu a donde va?”

 

Conhecer um novo lugar acompanhado de uma pessoa que vive lá, certamente é uma experiência muito mais rica. Se isso não bastasse, Enrique me encantava com sua inteligência. Ele é uma verdadeira fonte de informações. Passear pelo Parque Maria Luíza com ele foi realmente incrível. Era como ter um guia turístico particular.

Ele me levou para ver a Glorieta de Bécquer. Acompanhando a circunferência da majestosa árvore que fica no centro do gazebo, esparramando sua sombra a seu redor, há um monumento de mármore dedicado ao poeta Gustavo Adolfo Bécquer, inspirado em uma famosa Rima de sua autoria. Essa expressão artística maravilha não só por sua beleza, mas também por sua composição, tudo que se relaciona a essa incrível obra remete ao seu tema, o amor.

De qualquer ponto que a observe, ela nunca será vista em sua totalidade por ser disposta acima de uma base poligonal. Assim como o amor, nossas visões são distintas de acordo com a perspectiva pelo qual ele é analisado ou da expectativa que cada um carrega. Ainda como esse sentimento às vezes frágil, outras vezes intenso, a obra é efêmera, pois a árvore ao centro crescerá e romperá o mármore que um dia fora forte.

A primeira peça dessa composição que pude vislumbrar foi um dos dois Cupidos de bronze. Moribundo, morto com uma punhalada agonizando no solo, com seu arco há poucos centímetros dele. A morte do amor lindamente escrita pelo poeta:

“Entonces, que tu culpa y tus despojos
la tierra guardará,
lavándote en las olas de la muerte
como en otro Jordán;
 
allí, donde el murmullo de la vida
temblando a morir va
como la ola que a la playa viene
silenciosa a expirar;
 
allí, donde el sepulcro que se cierra
abre una eternidad…
todo cuanto los dos hemos callado
lo tenemos que hablar!”

Em seguida, um busto no alto pedestal figura o românico Bécquer. E a seu lado outro Cupido de bronze, menino, que ao contrário da morte, representa o amor que nasce.

“Cuando el sol en mi ventana
rojo brilla la mañana
y mi amor tu sombra evoca,
si en mi boca de otra boca
sentir creo la impresión,
dime: es que ciego delirio,
o que un beso en un suspiro
me envía tu corazón?”

As três mulheres sentadas em um banco, feitas a partir de uma única peça de mármore, representam os três estados do amor. O frustrado, o pleno e o ilusório. O amor carnal não tem espaço nessa obra.

A primeira mulher cabisbaixa segura flores murchas. O amor perdido…

“Nuestra pasión fue um trágico sainete
En cuya absurda fábula
lo comico y ló grave confundidos
Risas y llanto arrancan.
 
Pero fue ló peor de aquella historia
Que, al fin de la jornada,
A ella tocaron lágrimas y risas
Y a mi solo las lágrimas!”

No meio, o amor pleno representado através de uma mulher com o olhar voltado para o céu e as mãos em seu peito como a agarrar o amor.

“Sólo sé que nos volvimos
los dos a un tiempo
y nuestros ojos se hallaron
y sonó un beso.
 
(…) Cuando a él bajamos los ojos
yo dije trémulo:
— Comprendes ya que un poema
cabe en un verso?
Y ella respondió encendida
–Ya lo comprendo!”

A terceira mulher com o olhar perdido e mãos no rosto ilustra a esperança, o engôdo, a ilusão…

 “Como en un libro abierto
leo de tus pupilas en el fondo;
a qué fingir el labio
risas que se desmienten con los ojos?
 
Llora! No te avergüences
de confesar que me quisiste un poco.”

Romântica… Algumas vezes disfarçada, outras escancarada, me emocionei nesse gazebo. Guardo desse jardim uma flor, seca entre as folhas do meu moleskine. Quando a vejo lembro dessas três mulheres e vivi em mim todas elas. Recordo de amores que me completaram, dos que me iludiram e dos que me derrotaram…

 “Alguna vez la encuentro por el mundo
y pasa junto a mi;
y pasa sonriéndose, y yo digo:
— Como puede reír?
 
Luego asoma a mi lábio otra sonrisa
Mascara del dolor,
Y entonces pienso: — Acaso ella se ríe
Como me rio yo?”

 Bécquer

1836 -1870

 

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