A noite de confidências e o belo Paseo de Las Delicias

A volta para Sevilla foi rápida, ou eram meus pensamentos grudados nas paredes dos castelos, nos jardins caminhados e nas belezas vistas que não sentiram o tempo passar? Cheguei e já era noite. Quando liguei para o Mario senti até um alívio dele estar cansado também. Voltei para o apartamento dele ao invés de sairmos como era o plano inicial do dia anterior. Contei empolgada sobre o passeio do dia. A fome bateu e diante da indecisão do que pedir para comer, ele acabou preparando um arroz frito muito gostoso. Mesa posta, barriga cheia.

Foi uma noite especial. Sentamos no sofá e nos perdemos em conversas sobre nossas vidas, medos e anseios, defeitos e qualidades e amores perdidos. Eu não sei bem o que faz com que sintamos tanta intimidade emocional com algumas pessoas. Mario foi uma dessas pessoas, que eu me surpreendi pela amizade instantânea que nasceu, cresceu e amadureceu em tão pouco tempo. Talvez o fato de eu estar sendo hospedada por ele tenha sido um facilitador, mas inegavelmente havia uma empatia recíproca.

Nossa conexão era tão explícita que algumas pessoas pensavam que estávamos tendo algum tipo de relacionamento. Ele havia vivido uma história parecida com a minha. Apaixonara-se por uma pessoa que vivia muito distante. E foi bom poder conversar com ele sobre isso. Ouvir uma opinião masculina sobre relacionamento já é difícil, sobre um sentimento que cresceu à distância mais ainda. O assunto é um tabu até para as mulheres. A descrença do sucesso não é só pela provável impossibilidade de se unir à pessoa, mas na credibilidade de ser uma relação real. E para Mario foi fácil falar, porque ele entendia o que era possível e todas as dificuldades decorrentes disso também. Ele me incentivou quando eu já estava quase desistindo de encontrar Jo.

— Você tem que ir Ceres. Você precisa ir…

— Sim. Eu respondi. Preciso por uma pedra nisso.

— Só cuidado para a pedra não cair no seu pé, falava caçoando de mim.

Ele estava certo. Não importava o que acontecesse, eu teria que enfrentar aquela situação. Poderia me arrepender, ou não. Mas talvez eu nunca mais tivesse a chance de conhecê-lo pessoalmente. Dentro de mim eu vivia uma dúvida que nunca compartilhei com Jo. Se o que eu sentia era real ou não. Se o amor que vivera durante tanto tempo não passava de uma fantasia. Pensava se a dúvida dos meus sentimentos era uma fuga com medo do fracasso, da impossibilidade… Talvez eu tivesse canalizado nele, todos meus desejos e sonhos. Nós éramos tão diferentes… Eu intensa e inquieta. Ele calmo e resignado com sua vida. Mas era justamente essa calma que me transmitia paz. De acordo com o roteiro de viagem, eu teria que decidir logo se iria encontrá-lo ou não quando passasse por Valladolid. Mas essa decisão não foi fácil e tão pouco foi rápida.

Surpreendentemente eu dormi muito bem aquela noite, mesmo com a cabeça repleta de sentimentos confusos e a ansiedade de uma decisão que me amedrontava. Antes de dormir, Mario emprestara-me um mapa de Sevilla e me sugeriu alguns passeios. Acabei optando por começar o dia indo à uma tradicional fábrica de azulejos da cidade, que funciona desde 1.841, La Cartuja de Sevilla. Embora eu tenha me encantado com fachada, não pude entrar. Não me atentei ao fato de que era uma segunda-feira. Foi uma pena, porque quem me conhece sabe da importância e influência que a cerâmica teve em minha vida e realmente senti tristeza de não visitar o que fora em tantos anos de trabalho, uma referência de pintura e admiração.

Voltei para o Paseo De Las Delicias. Não é à toa que recebe esse nome. É como um grande, estreito e comprido parque. Um calçadão que nos leva até o Parque Maria Luíza, passando pela Estación Plaza de Armas, Puente de Isabel II e Plaza Del Toros. A vegetação bem cuidada exibe o verde das árvores, só interompido em alguns pontos pelo laranja das mexericas que as enfeitam como se fossem decorações natalinas. Todo o Paseo acompanha o rio, infelizmente não sei seu nome. Não pude deixar de pensar como seria São Paulo se nossos rios estivessem como aquele. Que belo seria um parque, ciclovias, esculturas e fontes acompanhando toda a extensão. Uma equipe feminina treinava remo ao ritmo do apito do instrutor atento a cada movimento. Grandes balsas turísticas recortavam aquele manto verde azulado, deixando um rastro de espuma da água em movimento. O céu estava azul e o sol brilhava alto, prateando o rio.

Fui caminhando devagar por quase três horas, aquecida pelo calor do sol. Meus pensamentos turbulentos, pouco a pouco foram contagiados pela calma que o lugar transmitia. Quando cheguei na Puente de Isabel II que abre as portas à região de Triana, desviei um pouco. No início da ponte uma pedra marca o Caminho de Santiago com sua tradicional concha como simbologia. Queria conhecer o Mercado de Triana, uma associação de comerciantes que vendem um pouco de tudo, mas estava fechado também, tive que me contentar em visitá-lo sem ver o comércio funcionando, mas nem por isso o passeio foi perdido. Os painéis de azulejos são lindos e na parte dianteira do mercado uma capela com uma pequena torre também expõe uma azulejaria fascinante.

Atravessei a rua e me sentei no segundo andar de um restaurante localizado em um ponto estratégico, bem no final da ponte. Da sacada eu vislumbrava uma imagem digna de um filme. Admirava grande parte da extensão do rio, Ao longe, a torre de La Giralda se mantém imponente, mais a frente o branco e amarelo da Plaza Del Toros se destacava por trás das árvores. À minha direita, ficava uma rua que acompanha o rio, onde algumas noites antes eu fora com Mario e Jose Luis e atrás de onde sentei, uma bem cuidada praça onde se ouvia a conversa animada de taxistas e o gorjeio de pombas, interrompido apenas por uma pequena discussão de trânsito. Na mesa ao lado, um casal se entregava ao romantismo do lugar, tomavam vinho e riam o riso dos apaixonados. Saboreei uma porção de calamares, não tão boa quanto à que comera no Mercado de Pescado no sábado, mas ali, naquela cena de filme, tudo ficava delicioso.

 

Para visualizar mais fotos, acesse o link: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.369784986375693.86947.100000325830399&type=3

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Um pensamento sobre “A noite de confidências e o belo Paseo de Las Delicias

  1. Foram as imagens mais lindas que vi de suas viagens!!! E qd vira o encontro com Jo??? tem fotos do lugar onde ele vive?? Engraçado, percebo só agora que nunca lhe perguntei pessoalmente sobre isso> Timidez?? medo de ser invasiva??Bjs, amo vc!!

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