E tem gente que fica para sempre na nossa vida…

Das pessoas que passaram pela minha vida, Andrea certamente foi, e é, uma das mais importantes. Lidamos com a inevitável mudança da vida. Decisões de segundos mudaram nossos caminhos. Nossas bússolas assinalaram diferentes nortes. Com nossas trouxas penduradas nas costas andamos em sentidos contrários. Às vezes por meses não nos falamos. Cada uma cuidando do jardim que projetou para sua vida. Plantando rosas, perfumando os ares, furando-se com espinhos.

Acusem-me de romântica quem quiser, mas verdadeiros sentimentos nunca morrem. A distância é muita, e tanta, que faz doer vez ou outra. Dói a ausência quando despertamos do nosso transe cotidiano. Quando você lembra do abraço que dispensa palavras. De um olhar que conta e de outro que escuta. No momento em que só ela vai fazer você rir, chorar de rir ou só chorar.

Amizade assim é feito ninho de passarinho. Cada experiência, um graveto. Juntas, pouco a pouco, fomos unindo, ajeitando, arrumando e compondo esse refúgio seguro. Lá onde abrigamos nossos segredos. Onde a confiança espalhou raízes. Que as palavras faladas saem espontânea e livremente. Vale bronca, mas nunca julgamento.

Tornamo-nos irmãs depois que D. Wilma me adotou como filha preta. A pele bronzeada, cor de jambo como dizia meu pai, da viagem à praia que fiz com eles, contrastava com a de Andrea e seus três irmãos, os loiros filhos do casal. Os pais de Andrea transbordavam tanto amor que escorriam sobras para os amigos da cria. Quando chegava  na pequena vila, a janela da sala do grande sobrado se abria com o rosto sério de sua avó, muito idosa, que esquecia de sorrir e de abrir a porta também. A cachorrinha da casa avisava os outros moradores de uma presença na porta com seus latidos altos e estridentes. Logo na sala já era possível ouvir e sentir o movimento constante da casa, onde as pessoas se esparramavam pela cozinha, pelo quintal nos dias de festa, nos quartos com os amigos e principalmente na saleta do andar superior.

Seu Miguel e dona Wilma foram um dos casais mais gostosos que eu tive a oportunidade de conhecer na minha vida. Ela era corpulenta e alta. Ele meio franzino, de cavanhaque, dono de uma loja de tecidos do Brás. Dona Wilma era engraçadíssima e espirituosa, mas era a brava da família. E Seu Miguel ria das piadas dela sempre, como a reafirmar o amor que sentia. Era uma casa feliz.

Seu Miguel me oferecendo uma porçãozinha de provolone. A competição de xixi entitulada ‘pororoca’ que rendeu dor de barriga de tanto rirmos. O cara apaixonado por Andrea que tocava Barracão de Zinco aos prantos por ela ter rompido o namoro enquanto nos controlávamos para não rir. Minhas repentinas e intensas paixões que duravam uma semana, mas que eu sempre afirmava convicta que daquela vez seria para valer. O trio Ré. Andrea, a Rebelde. Edileine, a Revoltada e Ceres, a Retardada, por conta das piadas e palhaçadas constantes. A mágica viagem de carnaval a Ubatuba, onde eu me apaixonei perdidamente por aquele estudante de medicina lindo e que resultou no meu relacionamento mais longo antes do casamento. Incríveis 3 meses. O combustível do carro que acabou na volta de Boiçucanga e não tínhamos dinheiro. Andrea que despudoradamente me explorava nas tarefas de educação artística porque eu levava mais jeito para desenhar. As sessões da tarde regadas a filmes do Elvis Presley, nossos prediletos, comendo pipoca com queijo ralado e bolo nega maluca com brigadeiro quente de cobertura. Até hoje não conheço quem faça bolo como ela…

Os barzinhos da Serra da Cantareira que embalavam nossos sábados à noite com MPB ao vivo. O City Burguer onde havia fartura de exemplares para paquera. Nosso bar preferido; o Gandaia, na avenida Bras Leme. Um barzinho praticamente falido, com Hector, o garçom boliviano que nos servia sorridente e não cobrava alguns chopps na hora da conta. O carro dela roubado no dia do meu casamento enquanto estávamos no salão de beleza. Ahhh essa lista não teria fim… Todas essas lembranças que quando relembramos juntas hoje, nos faz rir com a mesma leveza daquela época. Mas impagável mesmo era sua gargalhada muda. A piada nem precisava ter graça com tanto que Andrea risse. Ela não soltava sequer um som. Era uma risada compriiiida… A cabeça para trás e o som dela recuperando o fôlego era o prenúncio de que vinha mais um pouquinho de risada silenciosa, nesse ponto mais contida, até finalmente acabar.

Nossa amizade resistiu aos temporais do meu ex-marido ciumento e possessivo, à distância e ao tempo. Comemoramos vitórias e superamos as tormentas de nossas vidas pessoais, separadas por quilômetros, mas com a certeza de que nossos pensamentos nunca se distanciaram. Nos conhecemos desde meninas. No olhar tínhamos um brilho especial. Éramos lindas e não sabíamos. Tínhamos toda uma vida nos esperando sem termos a menor ideia de tudo que viveríamos, mas com a arrogância adolescente de quem vai comandar cada passo de sua vida. Poucas pessoas ocuparam um espaço tão grande em meu coração. Foram lindos tempos…

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10 pensamentos sobre “E tem gente que fica para sempre na nossa vida…

  1. Maravilhoso texto. Uma linda e rica homenagem, mais que merecida, para essa mulher guerreira e doce ao mesmo tempo, amiga leal e sincera que deixa marcas profundas em quem tem a sorte de privar da sua companhia, beijos Andrea. Parabéns Ceres
    PS.: Desculpe invadir seu espaço, com carinho fraterno, bj

  2. Nossa! Que homenagem maravilhosa, só vejo na minha lembrança o sorriso dessas lindas meninas. E me vem ao pensamento a imagem de que “a vida é um sopro” Bjs

  3. Sem palavras… Mesmo que eu quisesse as lagrimas de alegria e muita saudade, mas muita mesmo, nao me permitiriam. Voce eh muito importante para mim, sempre serah!Te amo!

  4. @Ceres Arantes que homenagem justa e verdadeira de uma familia tão maravilhosa, carismática e feliz, da qual eu também fiz parte um pouco desta epóca.Voce pode não lembrar mas eu tb estudei uns seis meses no mazza com voces, justamente onde eu te conheci…..as saudades são imensas de uma época sem preocupações…bjs

    • Realmente Denise, as lembranças do passado nos trazem nostalgia. Sinto saudades sim, mas a certeza que essas recordações devem servir para fortalecer nossos passos para novas experiências. Ninguém é feliz vivendo na casa do passado, né? Obrigada por participar 😉

  5. Ceres, legal saber que vc tem um blog.
    Outro dia eu comentava contava para o Ricardo como era a família Rondinelli. Falei das mesmas coisas que vc, as marcas deixadas são as mesmas, mas vc conseguiu traduzir tudo de um jeito bem poético. Adorei.
    beijo

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