Eu odeio me sentir assim

Eu odeio me sentir assim… Odeio olhar para cima e não apreciar o sol, ou a lua, ou qualquer estrela. Andar na rua e não ver graça no céu, ou em uma árvore, ou uma calçada. Sei lá… Odeio quando a falta de esperança cega meu olhar e a tristeza vira um monstro devorador de órgãos. Odeio esse vazio abismal. Essa escuridão interna. Essa greve de sentimentos. Arrebentou o cabo do meu acelerador. Nem na banguela tô dando conta.

Sinto tanta saudade do riso fácil. De ideias brotando a torto e à direita. Sinto falta de ser boba e banal. Alguém disse um dia, “chata essa gente que quer ser profunda e visceral o tempo todo”. E eu concordei. Total e plenamente. Até postei a frase em alguma rede social que eu usava na época. Mas agora não consigo não ser assim. 

Eu achava que meu maior medo era não viver. Mas a vida tem me dado um bocado de medo ultimamente, sabe? Eu sonhava em envelhecer com dignidade. Mas o tempo parece tão curto. Eu quero mais. Eu preciso de mais tempo. O tempo caçoa de mim como um velho ranzinza e mal humorado que se vinga da minha juventude.

Ahhh… Muito chato isso de não ter tempo. De não conseguir voltar um pouquinho dele. De não poder voltar atrás. Quem inventou isso? Eu acho que todo mundo deveria ter o direito de voltar atrás. Pelo menos uma vez. Só uma. Uma chance. É pedir demais? Seria justo reviver pelo menos uma vez mais um momento especial, ou simplesmente deletar aquele arrependimento que leva o troféu da “maior cagada que fiz na vida”.

E nem quero ouvir aquela baboseira que passamos pelo que temos que passar. Eu mesma já falei isso para um monte de gente. Mas quer saber? Eu tava mentindo. Na verdade eu só não sabia o que falar e queria confortar a pessoa. Odeio gente triste perto de mim. Tristeza é contagiante. Então eu pensava que era uma mentirinha ingênua. Mas não é. É cruel e não quero ouvir isso. Nem vou falar mais isso também. Juro.

E a história do tempo que cura tudo? Francamente, acho que se não há algo valioso para dizer, melhor não falar nada. O máximo que acontece é o tempo acabar com tua memória. Daí cura tudo mesmo, porque você não vai lembrar de qualquer jeito. E vai esquecer do que é bom também? Não, não. O tempo não cura nada. Ele machuca. Quanto mais tempo passa, mais você sofre, mais você lembra. Mais você quer reviver, ou quer apagar. Pelo menos até distrair tua atenção com outra coisa.

Para mim só o que cura uma ferida é a vingança. Não me diga que ela não é nobre. A vingança é mais ou menos como recuperar sua dignidade. Tá, tudo bem. Tem que ser vingança branca. Saca? Como inveja. Não tem inveja branca que não faz mal? Acho que gosto da vingança porque é como voltar um pouquinho o tempo. É a reviravolta. É o looping na montanha russa. É um simples olhar desafiador lançado com sarcasmo para o que te fez sofrer. É um lançar de um sorriso malicioso que diz: Olha, eu sou feliz de novo! Eita sentimento bom esse…

Tão bom, que você até esquece dele. Vingança branca é só combustível. O bom é isso. Depois de abastecida, a alma lança vôo revigorada. Bate asas como um filhotinho de pássaro meio desengonçado. Mas é como andar de bicicleta. Coisa boa a gente nem sofre, reaprende rapidinho.

Puxa! Eu até sorri agora. Só de escrever isso. Quase senti essa felicidadezinha chegando. Mas putz, que raiva, eu tava enganada. Ainda tô longe da vingança. Ando tão tristinha, tão tristinha, que ontem eu quase chorei. Eu tava lá conversando com minha filha. Ela tomando banho e eu sentada em cima do  tampo do vaso. Ela lá com aquela lindeza que até arde o olho da gente. Mas não acho ela muito inteligente, tadinha. Para mim só pode ser burrice ter tanta pressa de crescer. Fiquei tão triste. Ahhh vai devagar caramba. Pensei, mas não falei. Bastaria eu falar isso para ela ir mais rápido ainda. Fiquei quietinha, e aspirei a lágrima.

Isso é culpa desse discurso atual. “O tempo voa”. “Aproveitem o tempo ao máximo”. “Carpe diem”. Bosta de filme que lançou essa frase como se fosse slogan obrigatório para todo ser humano! Começou ali esse papo de ser intenso. Para que isso? Tenho inveja da época da minha vó em que tudo que as pessoas pensavam era em ter um jardim, um bando de filhos e uma cadeira para sentar na varanda.

Acho que eu vou é dormir. Quem sabe tenho um sonho bom? Daqueles que a gente acorda pensando que aconteceu de verdade… Quem sabe amanhã tudo isso virou nada. Pode até ser que eu acorde sem pressa. 

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3 pensamentos sobre “Eu odeio me sentir assim

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