Despedindo de Alhambra

Saindo do Palácio Carlos V, passo por um arco que dá passagem a área mais antiga de Alhambra. A Puerta Del Vino é um arco magnífico, nem tanto por seu tamanho, mas pela riqueza de detalhes da pequena faixa de azulejos que emoldura a passagem na parte superior. Uma grande praça não chamaria a atenção se não fosse a incrível vista à direita do Palácio Carlos V, das secas árvores que serviam de repouso para os muitos pássaros, da Puerta Del Vino à frente e da gigante construção medieval com suas torres à direita, a Alcazaba.

Parei um pouco na praça comprando uma coca no pequeno quiosque que oferece lanches rápidos, refrigerantes e cerveja aos visitantes, diga-se de passagem, por preços exorbitantes. Distraí-me um pouco tentando fotografar os pássaros que brincavam entre galhos de árvores, ignorando os turistas invasores em seu habitat.

Alcazaba é uma construção militar que me fez recordar daqueles bloquinhos de madeira que Bruno, meu filho, paciente e metódico, passava horas empilhando, formando castelos e passagens. Como qualquer construção militar com o fim de proteger a cidade dentro de suas muralhas, se localiza em um ponto muito alto e estratégico, donde se é presenteado com as mais belas paisagens da cidade de Granada que fica abaixo e onde se pode vislumbrar o topo da Sierra Nevada com sua calda escorrendo dos picos mais altos.

Não sei ao certo se a informação que darei agora está correta, mas pelo que entendi, o complexo continha sete torres, algumas destruídas pelos franceses durante combates antigos, restando quatro que podem ser visitadas. O centro da construção serviu um dia como residência da guarda real, hoje restando em um labirinto de muros baixos e algumas ruínas.

Em cada torre, uma vista de tirar o fôlego. É surpreendente o que o homem é capaz de construir e destruir. Na torre mais alta, Torre de La Vela, um imenso sino tem ao lado bandeiras que colorem a construção terracota. Sinto o toque de mão em meu ombro e quando me viro me deparo com os jovens japoneses perdidos da noite anterior, naquele momento, acompanhados por uma menina que falava espanhol, muito engraçada e extrovertida. Eles a apresentam e ela me diz que eles gostariam de me agradecer pela ajuda e que a situação da noite que passou se transformou numa narrativa divertida quando eles encontraram com seu grupo. Como não lembravam meu nome, me chamavam de “a brasileira sorridente” que nos ajudou. Fotos tiradas, algumas brincadeiras e sorrisos e me despeço mais uma vez de pessoas que nunca mais farão parte de minha vida. Só personagens que ilustraram minha história, não menos importantes que tantos outros que passaram a fazer parte dela para sempre.

Visitei ainda a Torre Del Cubo e De Las Armas. A cidade abaixo quase parecia frágil, um bonito brinquedo onde prevaleciam o branco das paredes caiadas, a terracota dos telhados intercalados apenas por alguns verdes escuros de altas árvores, sob um céu azulíssimo, sem nuvens.

A saída de Alhambra não é menos maravilhosa. Fontes, jardins, corredores,  canhões parecem ter sido feitos sob medida só para encantar nossos olhos. Ao passar para o portão de saída, o segurança pede meu ticket e me alerta para o fato de eu não poder mais estar ali.

Despeço-me de Alhambra lançando um rápido olhar para trás, inevitável em todos os pontos onde visitei. Qual história nós, hoje, deixaremos para a posteridade? Aquelas construções revelam uma civilização que deixou um legado de perfeccionismo, orgulho de sua cultura, riqueza de detalhes, carinho e zêlo pelo que fizeram.

Pego a pequena van em direção ao Mirador de San Nicolas. Depois de passar por uma região repleta de árvores e rica fauna, passamos pelas ruas muito estreitas e forradas de grandes pedras . Os muros das casas marcados por carros que não conseguiram desviar me davam a sensação constante de que íamos adicionar mais uma marca no decorrer do caminho.

Em Albaicín, o pequeno bairro exibe igrejas e mesquitas antigas. As velhas casas possuem ainda as características torres de vigia e uma praça onde se localiza o Mirador de San Nicolas que além de mais uma linda imagem da cidade, oferece a visão de Alhambra em sua totalidade, recortando o horizonte. A praça estava apinhada de gente que se amontoava próxima de onde o sol alcançava para se aquecer diante da temperatura que caía rapidamente prenunciando o final da tarde. O sol já mais baixo oferecia uma luminosidade singular a Alhambra, avermelhando seus tijolos. A bateria da máquina descarregara, não tenho um único registro desse lugar, mas a sensação que senti sentada ali, se renova cada vez que fecho os olhos e revivo cada imagem, o frio do ar e toque morno do sol que senti naquele dia.

Outra van me leva em direção à cidade através do labirinto de ruelas estreitas que se alargam pouco a pouco como um rio aproximando-se do mar. Um grupo de homens de meia idade, motoqueiros caracterizados com suas roupas e luvas de couro entram na van quase histéricos, como adolescentes inconvenientes que destoam daquele universo em que eu estava submersa. Falam alto, fazem piadas e me irritam com sua postura espaçosa. Um deles se dirige a mim perguntando de onde sou. Sem culpa o ignoro completamente.

Já no centro, próximo a Catedral de Granada, espero um ônibus para ir em direção a rodoviária. Peço informação para um senhor que está sentado no ponto. Ele responde em inglês. Eu pergunto em espanhol, mas ele insiste em responder-me em inglês, agora com mímicas junto. Sorrio e me despeço dessa cidade fria e cheia de encantos, inundada de história e cultura.

Para visualizar mais fotos, acesse o link https://www.facebook.com/media/set/?set=a.449759175044940.102084.100000325830399&type=3

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