10 minutos de um sábado de manhã

Toca a campainha e ela acorda sobressaltada.

Desce as escadas meio sonolenta, um pouco assustada.  Mal lembra que dia é. A cabeça dói lembrando a ela que bebeu demais na noite anterior. Cabelos desgranhados, surge por detrás da velha porta entreaberta, só seu rosto curioso para saber quem é.  Vê o carteiro impaciente.

Sua casa é antiga e grande. Mora acima de um comércio; uma oficina de carros. Ao lado um bar de quinta categoria. Entre os dois, sua porta. Está em estado tão deplorável, que faz pensar que a casa é abandonada. Quando escolheu essa casa para morar, não pensou em quantos problemas poderia ter. Só se encantou pelo espaço e pé direito alto. Pelas possibilidades de um lar charmoso que teria se tivesse dinheiro para uma boa reforma.  Bom, o dinheiro não veio, mas ela sempre teve a capacidade de transformar as casas em que morou em locais acolhedores e aconchegantes. Sua casa vivia cheia. Amigos dos filhos, seus amigos, família… Ela nunca entendeu, mas as pessoas gostavam de suas casas, se sentiam à vontade.

O carteiro entrega a correspondência. Ela pensa quem seria ele. Esse anônimo que tira ela da cama. Esse homem que anda todo o dia. Quantas coisas boas teria para ensinar e quantas más para refletirem em seu rosto velho e cansado. Ela faz uma brincadeira se desculpando pela maneira como veio atendê-lo. Ele nem responde e ela instantaneamente não se importa com mais nada em relação ao estranho.

Ela sempre se envolve com as pessoas. Sente curiosidade e uma compaixão muitas vezes despropositada, mas também se cansa logo de pessoas que ficam na defensiva, malcriadas ou amargas.  Dia a dia, sua intolerância aumenta… Serão os anos que se acumulam em suas costas ou só uma fase? Chatos e mal humorados não teem mais espaço em sua vida.

Ela fecha a porta e sobe o que parecem ser intermináveis degraus. Esboça um sorriso ao ver o sol espiar o corredor através da porta de vidro. Afasta a bicicleta que seu filho largara no caminho. Joga a correspondência ao lado do computador e vai cama tentar recuperar seu sono matinal, mas é tarde demais para isso. Sua cabeça já está povoada de palavras…

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4 pensamentos sobre “10 minutos de um sábado de manhã

    • Como já a conheço há “alguns anos” e ao lugar onde vive, achei pitoresca sua reflexão.Para quem sabe se expressar, qualquer pingo é letra. Concordo qt à hospitalidade que vc oferece e como é querida por muita gente.Bjs

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