Palácios Nazaries

Acordei bem cedo naquele dia. O mesmo caminho que percorrera à noite para levar os meninos e para chegar no hostel não parecia o mesmo. As ruas estavam desertas, apenas um bêbado gritava nervoso com um ser imaginário, mas passei despercebida por ele. A pequena praça parecia mais descuidada sob a luz do sol que brilhava naquela manhã. Quando cheguei à Catedral, pude observar sua fachada, oposta à da avenida, com toda sua magnitude e detalhes que não percebera na noite anterior. A ruela de grandes e largas pedras era linda e charmosa e exibiam uma lateral da Catedral que não parecia pertencer a mesma construção. Peguei o transporte para Alhambra no mesmo ponto onde descera ao chegar. Apesar de ter levado pouca bagagem na mochila emprestada por Mário, achei melhor deixar tudo em um guarda-volumes, onde tive que esperar um pouco até a jovem atendente que estava distraída paquerando o que parecia ser um segurança do local, perceber minha presença e me entregar a chave do armário.

Declarada em 1984, Patrimônio Cultural da Humanidade, Alhambra era descrita por poetas, como “uma pérola encrustrada em esmeraldas”, em alusão à cor dos seus edifícios e à dos bosques que os rodeiam. É uma cidade que pertence à Granada, na região de Andaluzia. Formada por um complexo de vários palácios e fortalezas, expõe em seus interiores a mais bela arte islâmica. A arquitetura islâmica, apesar de ser predominante no complexo, compartilha espaço com construções cristãs também. Mas o atrativo não está só nas edificações. Os jardins, apesar de eu ter visitado durante o inverno, são verdadeiras obras de arte, mas na primavera são invadidos por flores selvagens e relva.

Alhambra é enorme. Peguei um mapa e fui primeiro aos Palácios Nazaries, o único do complexo que tinha hora marcada para entrar. No caminho para lá, passei por um corredor rodeado de arbustos e pinheiros podados em formato de muro medieval no topo e com arcos nas bases, que me lembrou Edward Mãos de Tesoura. Era uma paisagem de filme! Ali mesmo eu comecei com a sessão de fotos sem saber que mais adiante eu iria me surpreender com as construções humanas mais magníficas que tive o prazer de conhecer em minha vida.

Entrando nos Palácios Nazaries, não tenho como dizer onde acabava um e começava outro, mergulhei em um labirinto de salas, salões, aposentos e pátios interligados por pequenas passagens, unindo todos como se fosse um só palácio.

Logo na primeira sala, eu já estava perplexa com a beleza do que depois eu descobriria que seria um dos aposentos mais simples em termos de arquitetura e decoração. As paredes que um dia foram alvíssimas pareciam ter uma renda tridimensional encrustrada nelas e tinham como base uma barra de azulejos pintados. O teto era de uma madeira escura trabalhada e pequenas portas davam vazão a feixes de luz do sol, clareando a baixa sala. Até o chão de tijolos retangulares era bem trabalhado com algumas pequenas lajotas coloridas e pintadas salpicadas pelo chão. Havia um mezanino também. Não sei se entendi direito enquanto eu surrupiava o compartilhamento de informação dada por guias espanhóis (como eu não tinha muito dinheiro, de vez em quando eu me posicionava próxima a grupos turísticos), mas esse mezanino, em tempos antigos, era fechado por persianas, onde o sultão, vez e outra, se sentava para ouvir sem ser visto o que acontecia na pequena câmara que servia como centro administrativo e para audiências de justiça em alguns casos.

Um pequeno corredor me levou a um pátio onde vi pela primeira vez no dia as belas colunas sustentando arcos. Basicamente, cada parte desse complexo era composto por um chão maravilhoso, uma barra de azulejos onde imperavam as cores azul, verde e amarelo dourado, que compunha com as cores da paisagem externa; céu, árvores e edificações peroladas ornamentadas com o dourado do ouro e da pintura que agora, gasta pelo tempo. O ambiente estava lotado de turistas, mas uma pequena fonte ao centro do pátio emanava o som da água, transmitindo paz e calma. E era só o que eu ouvia além de pássaros.

Outra pequena câmara e corredor, tão ricamente decorados como a sala anterior abriam caminho para Pátio Alberca onde reinava absoluto um espelho d´água. Acima um segundo andar de aposentos que não podia ser visitado, nos faz pensar naquele espaço povoado pelos habitantes que um dia encheram aquele lugar de vida e vozes. À minha esquerda, após passar por um arco majestoso, há uma pequena sala, a Sala da Barca, assim chamada por seu artesanato imitar um barco. Na parede próxima a gigante porta, inscrições do Alcorão se misturam com a renda em gesso que enfeita as paredes.

Nas laterais que rodeiam o tanque que espelha a grande torre do prédio, pequenas escadas insinuam o caminho que levam ao andar superior que não pude visitar. O chão de mármore brilha como a água do tanque. Foi difícil seguir adiante em cada parte desses palácios. Cada passo era uma despedida, amenizada apenas pelo encontro de novas surpresas.

Após passar por um cômodo que me lembrou um pequeno quarto, saí no pátio retangular do Palácio dos Leões em obras, que apesar de camuflado pelos andaimes e poeira, não esconde sua magnitude. A Fonte dos Leões também coberta por redes de proteção, estava isolada e só pude contemplá-la de longe.  Há várias interpretações de sua representação, como as doze tribos de Israel ou os doze signos zodiacais, assim como a fonte como origem da vida também.

Passando por esse pátio, entre andaimes e redes de proteção, saí em um cômodo chamado Sala dos Albencerragens, antiga alcova de um sultão. O teto é em formato de abôbada que lembra estalactites simétricos e bem planejados. As pequenas janelas com treliças que ficam ao alto eram os únicos pontos que permitiam a entrada da luz exterior que refletia na água da pequena fonte que ocupava o centro do cômodo e criavam um efeito mágico no aposento.

Depois, pouco a pouco os cômodos posteriores ficavam mais abertos à impressionante paisagem externa, tanto dos jardins como da cidade abaixo e das montanhas que a rodeavam e recortavam o horizonte. Pouco antes de sair dos Palácios Nazaries, havia uma pequena e simples entrada para os aposentos de Washington Irving, um historiador inglês que viveu em Alhambra por algum tempo, que descreveu esse lugar, tanto com todos os detalhes deslumbrantes de sua beleza, como a vida que o cercava. Lendas, batalhas, o cotidiano e a cruel realidade que nada nos lembram a fantasia dos palácios de contos de fadas.

Palácios Nazaries – vista externa

O corredor para a saída dessa primeira parte do passeio, tinha do lado interno um magnífico jardim e do externo a visão da cidade de Granada. Impressionante paisagem. Saindo dali, um novo jardim e outro espelho d´água. Ali fora, o sol brilhava cegando meus olhos. Olhei para trás como se pudesse resgatar mais uma imagem daquela arquitetura magnífica, mas do lado de fora só se via uma bela casa de tijolos à vista que escondia dentro um tesouro sem precedentes.

Mais fotos, acessem  https://www.facebook.com/media/set/?set=a.442551332432391.100161.100000325830399&type=3   .

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2 pensamentos sobre “Palácios Nazaries

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