A Síndrome do Ninho Vazio

 

 “Há um período em que os pais vão ficando órfãos de seus próprios filhos.
    É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
    Crescem sem pedir licença à vida.
    Crescem com uma estridência alegre e, às vezes com alardeada arrogância.”

Affonso Romano de Sant’Anna 

Sábado e domingo, sozinha em minha casa, senti a paz desejada em tantos momentos da minha vida. Momentos sufocados pelo ruído de crianças, televisão ligada com som estridente e requisições de atenção exclusiva que era disputada entre os filhos, que mesmo com uma considerável distância de idade entre alguns deles, houve a fase onde todos ainda sentiam a necessidade da atenção materna.

Sempre criei filhos para o mundo. Sentia como obrigação do meu papel de mãe  que devia prepará-los para a vida. Tentei incentivar a independência intelectual e física. E até que está dando certo. Pedindo uma licença poética para a corujice, preciso dizer que eu sou uma daquelas pessoas sortudas que tem filhos maravilhosos. Eles são lindos! Pessoas inteligentes, com ética e coração bom. Possuem ideias independentes e respeitam as diferenças. Não são perfeitos como a frase sugere, mas são “aniversários perfeitos, apesar dos seus defeitos, que se não os tivessem, não teria graça”, palavras dedicadas a mim pelo meu pai quando eu fiz apenas 22 aninhos.

Vivemos grudados por anos. Apesar de ser massacrada pelas leis da educação e disciplina, sempre permiti que tomassem banho ou dormissem comigo. Não os obriguei a comer o que não queriam, mas ainda sim tenho uma filha vegetariana por opção própria e um filho de 8 anos que pede rúcula quando estamos no mercado. E cometi erros, muitíssimos erros. Muitas vezes os tratei como iguais, quando eu deveria tê-los protegido ao invés de compartilhado problemas, aflições e angústias. Tenho a tendência a ser muito flexível e em alguns momentos senti um verdadeiro dilema entre o que seria certo. Tolerar ou impor. Nunca consegui ensiná-los a dormir na hora certa. Talvez isso seja consequência da insônia que me perseguiu durante toda a vida. Acordar qualquer pessoa para mim é difícil, mas acordar uma criança, com aquele rosto terno e tranquilo, é quase uma missão impossível. E quem não dorme na hora, não acorda na hora também. 

Aprendi muito mais com eles do que ensinei. Mas creio que ensinei algumas coisas que eles possam levar como convicção para o resto de suas vidas. Acredito que meus ensinamentos sejam mais marcados pelo exemplo em situações da vida, que propriamente pelas teorias de educação que tentava colocar em prática.

Mas aí um dia eu olho para um e outro, e penso. Tenho uma filha independente que está procurando casa para morar com seu namorado. Uma mulher decidida, convicta e cheia de ideias próprias. Um filho que estuda fora há 2 anos e que já está independente também. Com projetos próprios e é um homem que está enfrentando o mundo. Uma adolescente talentosa. Quase mulher. Linda e que tem uma personalidade de quem veio para o mundo. E um pequeno que dentre pouco se mostrará.

E isso dá um medo. Um misto de orgulho e tristeza. Orgulho do que são e medo do que vão enfrentar em suas vidas. Mas a certeza de que, seja lá o que for o futuro deles, eu não serei mais o alvo principal, é uma coisa que balança minha estrutura. Não porque não deva ser assim, porque deve. Mas porque de repente eu percebi que vou estar sozinha, mais cedo ou mais tarde. Senti principalmente, que de tudo que realizei em minha vida, eles foram meus maiores sucessos. Talvez porque não dependesse só de mim, mas simplesmente do que eles são  como essência de indivíduos próprios que construíram seus próprios caminhos e personalidade.

É nesse ponto que a Síndrome do Ninho Vazio bate. E a verdade é uma só: que eu devo aproveitar cada momento com eles, e que quando suas asas baterem e os levarem a seus destinos, eu tenha um ninho a espera de quem quiser voltar, mesmo que seja só por alguns momentos.

 

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Um pensamento sobre “A Síndrome do Ninho Vazio

  1. Ao ler o título já comecei a chorar. Estou tentando superar a mesma síndrome, mas agora também com o afastamento dos netos. Não afastamento por vontade própria, mas o chamamento da vida.A razão compreende, mas o coração reclama. Lei da vida!!! Não dá mais para abrir as asas e abrigá-los. Sou feliz quando os vejo felizes e basta!

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