Uma Perseguição Divertida

Dormi um pouco no ônibus e quando cheguei em Granada, o céu já exibia um azul marinho forte, salpicado de estrelas que tinham seu brilho parcialmente bloqueado pelas luzes artificiais da cidade. Quando saí da rodoviária, me dei conta que não tinha visto como chegar ao meu destino. Peguei o celular torcendo para que tivesse um pouco de crédito para ligar no hostel. Achei o celular pré-pago de lá caríssimo perto das promoções que são disponibilizadas aqui no Brasil. Eu praticamente não o usava e lá se iam quase 5 euros por dia. Por sorte ainda consegui fazer a ligação e havia transporte que passava bem em frente de onde eu estava. Quando eu subi no ônibus, dois japoneses me mostraram um papel e indicaram um ponto com o dedo. Eu não conhecia a cidade e fiz sinal que não podia ajudar. Então eles mostraram uma anotação com o nome da Catedral de Granada que era o mesmo lugar onde eu desceria. Fiz um sinal de positivo e me limitei a um tímido “me too”.

Desci em frente a bela Catedral e fiquei observando-a um pouco antes de seguir. Caminhei à minha direita, mas não estava fazendo sentido. Virei-me a procura de alguém para pedir informação e dei de cara com os dois jovens japoneses do ônibus que sorriram para mim e se viraram também na direção oposta. Depois de pedir informação segui pela lateral esquerda da Catedral, numa ruela de pedras largas e muito estreita. Atrás de mim os dois rapazes me seguiam. Parei mais uma vez para confirmar se estava no caminho certo e quando ia seguir a frente, lá estavam eles, rindo nervosamente. Sorriram para mim e disseram algo que pude identificar como um possível inglês.

— Sorry, I don’t speak english. Disse eu acompanhada de uma expressão “lamento, mas não posso ajudá-los”.

O jovem mais alto:

— No, you speak english. Acentuando a próxima frase com um tom de voz mais alta, ele seguiu: “I”don’t speak English. E juntando as mãos em sinal de súplica, soltou um “pleeeease” comprido e divertido.

Ri daquela situação inusitada. Tantas pessoas nas ruas e eles resolvem pedir informação para mim que não falo nada além de “the book on the table” e estava na cidade pela primeira vez! No final da ruela eu me encostei próxima a um poste de luz para verificar o mapa com mais facilidade. Parecia simples. Ao lado um grupo de rapazes com skates conversavam animados. Pedi a informação e perguntei se algum falava inglês. Um menino se apresentou e passou a explicar para os japoneses como chegar ao destino deles. Achei que era desnecessário continuar ali. Fiz um sinal de ok, sorri e segui meu caminho.

Alguns passos a frente e “please, please”.  Os dois deviam ser um pouco mais velhos que a Gabriela, minha terceira filha. Creio que 18 ou 19 anos. Eles realmente não deviam saber falar inglês também. Foi um sofrimento para mim. Nem o espanhol que me virava melhor eu tinha facilidade de falar. Sentia uma estúpida vergonha de errar e fazer ridículo. Isso apenas prejudicava a mim, porque as pessoas não se importam se você fala bem ou não. No final, só o que importava naquelas circunstâncias era conseguir se comunicar. Entre palavras soltas, escritas e risadas, consegui entender que encontrariam mais pessoas que seguiriam viagem com eles.

Aceitei o fato que eles não desgrudariam de mim até conseguirem ajuda e os acompanhei até a porta do hostel. Entre agradecimentos acompanhados de reverências e sorrisos, me despedi deles sentindo um carinho quase maternal. Fui embora aliviada de saber que estavam seguros. Esse sentimento me surpreendeu, pois eu nem os conhecia, mas o instinto maternal voltara com a mesma força que se manifestara na despedida do grupo do hostel em Roma.

Seguindo o meu caminho, passei por uma pequena praça redonda, rodeada de muitos bares e restaurantes, como em toda Espanha, lotados de vozes, gente bonita e clima de alegria. Uma rua que saía da praça me levou até o hostel, que apesar de estar à apenas um quarteirão do burburinho, era completamente deserta e o silêncio só foi interrompido pelo som dos meus passos.

O quarto do térreo era duplo, mas não havia ninguém além de mim. Sorte mais uma vez! Um pequeno armário de madeira clara e duas camas com colchas coloridas e bem esticadas, ocupavam praticamente todo o espaço. Havia um espelho acima de uma pia e uma pequena mesa com duas cadeiras, era quente e limpo. Perfeito! Na verdade, me oferecia até mais do que eu ia necessitar em apenas algumas de horas de sono que passaria ali. O banheiro não era no quarto, mas a porta era bem em frente. Espalhei minhas coisas pelo quarto e fui tomar um delicioso banho quente. Limpa, cheirosa e agasalhada, procurei um ponto de internet e entrei em contato com minha filha, que dera a sorte de estar conectada naquele momento.

Marina, a mais velha, é simplesmente linda. Pele clara, olhos verdes, seu loiro cabelo crespo e volumoso lhe oferece uma beleza exótica. Delicada e meiga, seu visual engana a pessoa de personalidade e convicções fortes que é. Possui uma maturidade incomum em mulheres da sua idade. O companheirismo que nos acompanha durante toda nossas vidas é um tesouro raro e valioso. As experiências de dificuldades que vivemos talvez tenha nos aproximado dessa forma amiga além da relação de mãe e filha. Depois da separação, seu apoio e incentivo para que eu seguisse minha vida e encontrasse novos caminhos de reconstrução como ser humano, me davam força. Apesar dela ter apoiado a viagem, acho que no fundo se sentia um pouco insegura, como a maioria dos familiares, se eu realmente sabia o que estava fazendo ou se era a hora certa. Mas conforme a viagem foi seguindo, as pessoas puderam perceber que não era uma aventura descabida ou perigosa. A maior aventura estava acontecendo dentro de mim. Estar lá abrira um espaço para eu ser apenas eu mesma, de viver para mim exclusivamente pela primeira vez na minha vida. Foi muito bom conversar com ela naquela noite.

— Mã, está tudo bem por aqui, aproveita sua viagem…

Quase pude ouvir sua voz calma e doce através das palavras que apareciam na tela. Sentia seu carinho e a segurança que tudo estava bem em casa. Eu podia acreditar em suas palavras, porque ela simplesmente sofre de uma gigante incapacidade de disfarçar seus sentimentos quando está contrariada.

Saí para comer. À princípio pensei em parar em algum lugar, mas me intimidei com as casas lotadas e acabei entrando aleatoriamente em um espaço mais vazio. Alguns poucos clientes ocupavam quase metade do espaço da pequena lanchonete. Um som estridente e irritante vinha da televisão, onde os clientes assistiam a um jogo de futebol. Levei um sanduíche com fritas para comer no quarto do hostel. A queda de temperatura era imensa. Já tinham me alertado para isso. O frio gelava meu nariz e mãos, mesmo com luvas. Ao passar pela porta de vidro da entrada do hostel, havia um pequeno hall de entrada com paredes forradas de azulejos com estampas islâmicas azuis e brancas. Reconheci  a voz desagradável do locutor que enchia a pequena sala com aquele som. Dois homens assistiam o jogo, esparramados em um grande sofá de couro marrom. Eles nem perceberam minha presença. Entrei rapidamente no quarto, tranquei a porta, comi e me aninhei embaixo do edredon quente. O som esganiçado da sala ao lado entrava no quarto, mas não foi o suficiente para impedir que eu dormisse enquanto pensava saudosa nos rostos dos meus filhos.

Anúncios

Seja você uma parte desse mosaico. Compartilhe suas impressões, sentimentos e opiniões aqui.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s