Pescados e boa companhia… uma união que não pode faltar em uma viagem a Sevilha


O apartamento de Mário era pequeno, muito organizado e a decoração simples, com móveis de madeira escura que compunham bem com as cores terra do resto da sala, demonstrando bom gosto e uma personalidade bem masculina. Dormi no confortável sofá da sala, abaixo da larga janela que abre uma visão para o pátio central do prédio. À frente uma mesa retangular baixa que separa o sofá do deck com a televisão. Do lado direito, encostada na parede uma pequena mesa de jantar e do esquerdo, o balcão da minúscula cozinha americana.
Conforme havíamos combinado na noite anterior, Mário veio me acordar pela manhã, mas eu já estava desperta. Me aprontei rapidamente e enquanto ele se arrumava para sairmos, fui até a rodoviária para comprar uma passagem de ônibus para Granada, onde eu pernoitaria e passaria o dia seguinte visitando Alhambra. A caminhada curta até a estação foi regada por um sol brilhante e ar frio. Na volta, Mário já estava pronto e fomos de moto em 10 minutos até o Mercado para comer pescados, onde ele havia marcado com alguns amigos.
Se eu estivesse sozinha caminhando ali, nem perceberia que depois da estreita passagem de entrada que formava um corredor, se escondia um pátio, cuja parede de tijolinhos à vista na lateral era uma antiga igreja, que tinham algumas mesas espalhadas, mas estava tão cheio de gente que a maioria das pessoas se encontrava em pé, tomando caña e aguardando uma mesa vaga. Como eles, nós fizemos o mesmo. Uma pequena mesa redonda alta serviu de apoio para os copos até desocuparem duas pequenas mesas. Nos sentamos nas poucas cadeiras e nos degraus da pequena escada que levava aos  somente quatro ou cinco balcões, onde os vendedores gritavam os nomes dos responsáveis pelas encomendas. Pensei como conseguiam atender a todos naquele pequeno caos.
As deliciosas porções fizeram valer a espera. Reaprendi a comer peixe com a maravilhosa culinária espanhola. No grupo haviam quatro amigos de Mário que não recordo bem os nomes. Também estavam conosco Jose Luis e Flô, uma linda francesa, alta, grandes olhos verdes, cabelo comprido loiro e cacheado, e extremamente simpática. Ela foi uma daquelas pessoas que senti tristeza de não poder continuar convivendo. Eu estava um pouco tímida e falava pouco. O grupo era animado, com um senso de humor refinado, característico de pessoas inteligentes.
Para não perder o costume espanhol, não poderíamos ficar em um só lugar. Depois de alimentados, cedemos o lugar às outras tantas pessoas que enchiam aquele ambiente que me lembrou um pouco o clima das feiras brasileiras, com os vendedores gritando, o burburinho de vozes animadas e uma simplicidade cativante.
Seguimos até o Corral de Esquivel que fica em frente a  Alameda Hércules, uma ilha retangular que separa duas ruas paralelas compridas. Dois obeliscos marcavam cada extremidade da praça, formando dois portais em homenagem à figura mitológica . As árvores coloridas iluminadas pelo sol refletiam sua sombra rendada no chão. Crianças que corriam e andavam de bicicleta por ali, espalhavam alegria através do seu riso genuíno. Pensei no Diogo na hora, meu filho menor. Certamente ele teria adorado estar ali.
O bar tinha várias mesas na calçada e dentro um balcão em meia-lua ocupava boa parte do ambiente. Nas paredes opostas ao balcão, mesas vazias aguardavam os clientes que lotariam a casa durante a noite. A madeira escurecia o salão e pôsteres com rótulos antigos da coca-cola davam um ar vintage na decoração. O jovem garçom bem-humorado nos serviu e eu estava mais relaxada, me divertindo bastante, quando Mário lembrou-me que era hora de ir. Ele me levou até a rodoviária e o ônibus já estava na plataforma.
 
A caminho de Granada, a noite caía rapidamente colorindo o céu num degradê de azuis cada vez mais escuros, ocupando o lugar que, minutos antes, o dourado e o vermelho se esparramavam. Olhava pela janela, mas meu pensamento estava em Sevilha. Como eu poderia estar tão pouco tempo em um lugar e me sentir tão à vontade? Era como se eu sempre estivesse estado ali. Sentia-me confortável e segura. Estava feliz e em paz. A tranquilidade que eu sentia certamente não era fruto apenas daquela cidade fascinante, mas do conjunto de toda a viagem até aquele momento. Todos os dias eu era presenteada com beleza, história e uma cultura que me encantara. O descanso daqueles dias e estar sozinha na maior parte do tempo, me faziam bem. Era como se eu tivesse finalmente conseguido esvaziar minha cabeça. E eu não estava com pressa de reorganizar os pensamentos. Eu só disfrutava de cada imagem, de cada sensação e cada momento com todas as forças que podia.

Anúncios
Postado em Sem categoria

2 pensamentos sobre “Pescados e boa companhia… uma união que não pode faltar em uma viagem a Sevilha

  1. Tudo o que vc viveu ficará indelevelmente marcado no seu coração, impulsionando-a para sempre continuar, agora sabendo que não é impossível a realização dos sonhos. É querer com muita força e coragem.E essas qualidades eu sei que vc tem.Só senti falta de uma foto sua nesse cenário, com esses amigos que tanto a empolgaram. Bj da mãe sempre corujona.

Seja você uma parte desse mosaico. Compartilhe suas impressões, sentimentos e opiniões aqui.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s