Sevilla e a segurança de uma companhia amiga


Mario gentilmente foi me buscar na porta do hostel. Andamos alguns poucos quarteirões e fomos nos encontrar com seus amigos em um bar no Paseo de Cristóban Colón. A larga calçada abrigava mesas de vários bares. A luz amarelada dos aquecedores contribuíam para um ambiente acolhedor e coloriam de uma maneira especial cada rosto das pessoas que ocupavam as cadeiras ao redor da mesa redonda de tampo de vidro que refletia a luz dos aquecedores em um tom dourado.

Com os amigos de Mário, me senti um pouco tímida e envergonhada, mas era um problema totalmente meu, pois eles eram acolhedores e simpáticos. Eu entendia relativamente bem o espanhol, mas na região de Andalucía, onde a pressa da fala e onde as pessoas engolem sílabas, isso se tornou uma tarefa um pouco mais difícil. Nada que um pedido de repetição mais lenta não resolvesse. A turma era animada e contavam dos presentes recebidos na festa da noite anterior, e pelo que consegui entender, depois discutiam política entusiasticamente, importação de produtos chineses e sobre direitos trabalhistas, mas nessa hora perdi a linha de raciocínio e não consegui acompanhar mais a conversa.

Cerca de seis meses antes, conheci Joana em minha própria casa, em uma festa regada a muita cantoria que acabou só no dia seguinte. Nos demos bem logo de início e assim começou nossa amizade. Ela vivera na Espanha por cerca de um ano e quando soube que eu ia, fez questão de me ajudar com sugestões, me emprestou um guia muito útil e me apresentou ao Mário. Ela dizia que conhecer Sevilla com ele transformaria a viagem à cidade em uma experiência muito mais intensa. E pude comprovar que estava certa.

Conhecera Mario em São Paulo, junto com Jose Luis, também de Sevilla. Joana os levou a uma festa de final de ano que alguns amigos e eu comemorávamos em um bar perto da Avenida Paulista. Jose Luis é mais tímido e calado, mas seu sorriso reflete a pessoa doce que é. Mário ao contrário, é extrovertido, conhece pessoas em todos os lugares por onde anda e tem um jeito meio durão, às vezes quase autoritário, mas conhecendo-o melhor, não passa de um menino, tão doce como Jose Luis. Ao contrário do que ele mesmo pensa, apesar da sua teimosia, é extremamente generoso como pessoa. Sua generosidade é demonstrada na preocupação em agradar e dar segurança às pessoas ao seu redor.

Eu e Mário nos identificamos desde a primeira vez que nos encontramos. A conversa fluía, ríamos, estávamos à vontade. Eu havia encontrado minha família em Lisboa, mas durante a viagem, encontrar o Mário em Sevilla, após doze dias de viagem em terras estranhas, me trouxe uma sensação confortável e me animei de pensar que viveria um outro lado nessa viagem que ainda não vivera, de passar algum tempo rodeada de gente, conversando e me divertindo.

Ficamos ali naquele bar um tempo, até que eles resolveram ir para outro lugar. Ao contrário daqui, eles passam de bar em bar por toda a noite. Nunca ficam em um só. Esse costume durante os momentos de lazer, me fizeram perceber como estamos ligados aos nossos hábitos, porque demorei a me acostumar com isso. Confesso que algumas vezes isso chegou a ser incômodo para mim. Quando eu começava a relaxar, já era hora de seguir em frente. Por outro lado, era também divertido e me deu a oportunidade de conhecer muitos lugares diferentes.

Fomos à um restaurante onde Jose Luis nos esperava para juntar-se ao grupo. Lá, nos alimentamos bem com várias porções dessa culinária que me dá água na boca. Lembro que quando estava  lá, me surpreendia porque a comida era simples, mas criativa e bem temperada. Era tão simples que sempre pensava que poderia fazê-la em casa, eu mesma, mas hoje, não sei se pela variedade ou se pela idade rsrsrs, não consigo me lembrar dos ingredientes, e me sinto frustrada e cheia de saudade dos sabores e aromas.

Saindo desse restaurante que era simples, mas aconchegante, o grupo se dispersou e Mário, Jose Luís e eu seguimos em direção à      Ponte de Triana. Logo que chegamos, vimos um bar que anunciava uma caipirinha brasileira como atração e por lá ficamos por um par de horas, onde a conversa rolou solta, nos perdemos entre tentativas frustradas de fotografar a noite e poses de pássaros ensaiando um vôo. Nós três conversamos muito naquela noite, e apesar da birra, a conversa chegou em alguns momentos a ser densa e reveladora, pelo menos para mim, que me senti confortável para compartilhar com eles momentos muito pessoais da minha vida.

Fim de um dia intenso e de uma noite divertida, fomos para o pequeno e aconchegante apartamento de Mário. Dormi ansiosa para saber o que mais aquela cidade me ofereceria no dia seguinte…

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