Cabalgada de Los Reyes e a minha para dentro de mim mesma

Só encontrei um comércio aberto. O bar era simples e tinha uma televisão ligada que passava um programa humorístico com pegadinhas. Um cliente ria alto, sozinho na mesa, deixando esfriar o leite fumegante que distraidamente esquecera na mesa. O balcão continha uma vitrine expondo os vários bocadillos à venda. Optei por um delicioso, recheado com jamón, tomate e aceite de oliva. Enrolei um pouco ali, aproveitando para esticar as pernas, depois saí para vasculhar um pouco mais da região. O sol subia iluminando as ruas e dando espaço para o colorido espanhol das construções. Eu estava me sentindo muito cansada, então após pouco tempo de caminhada, com os comércios abrindo, fui em direção da importante Avenida de Los Reyes Católicos. Lá encontrei um salão de beleza e entrei para fazer as unhas. Um horror! Elas simplesmente não sabem fazer como se faz aqui. Na hora de escolher o esmalte, sete opções de cores… Saí irritada pensando que para ficar daquele jeito, poderia ter comprado um esmalte e feito eu mesma. Além de tudo achei caríssimo; 12 euros. Ok! Eu sei… momento perua… 

Caminhei um pouco pela Plaza Nueva, agora sob a claridade do sol, com suas árvores de folhas de cores quentes que tingiam o lugar com pinceladas de amarelo, laranja e vermelho. Andando meio sem rumo, acabei saindo em uma rua de comércio. Procurei por uma loja de telefonia, pois ainda passaria muitos dias na Espanha e ter um telefone me ajudaria bastante para fazer contato com as várias pessoas que povoariam essa minha viagem. Compra feita, unha mal feita, pernas latejando e olhos coçando, voltei para o hostel onde quem me receberia não era mais o simpático senhor espanhol, mas uma jovem bonita não muito falante. Fui para o meu quarto quando tive a agradável surpresa, de apesar de ter doze camas, estarem todas vagas.
Na verdade, eram dois quartos com uma passagem aberta entre eles. Haviam três beliches em cada cômodo e um armário pequeno para cada hóspede. Do lado de um dos quartos, um banheiro com três boxes e um vaso sanitário fixado ridiculamente em cima de um degrau alto. Pensei comigo a sorte de estar sozinha ali, pois certamente me sentiria constrangida de usar esse banheiro na presença de outras pessoas. Arrumei minha bagagem, tomei uma ducha que não estava muito quente e fui descansar um pouco. Dormi pesado e acordei revigorada. Já era fim de tarde e me arrumei ansiosa para sair, pois eu iria vivenciar a Calbagada De Los Reyes.
Além das riquezas históricas e arquitetônicas da Espanha, o que mais me conquistou nesse país, além é claro da receptividade e alegria do povo, era a importância e a manutenção de suas tradições e hábitos. Quando saí do hostel, as ruas já estavam lotadas e as pessoas se dirigiam em direção à Avenida de Los Reyes Católicos, onde passaria o desfile, em uma procissão alegre e festiva. Eu não tinha ideia da dimensão daquela festa. Era muita gente. As calçadas lotadas, os bares cheios. Pouco a pouco foi ficando difícil caminhar entre a população de todas as idades, desde bebês até idosos que enchiam as ruas para comemorar a festa milenar.
Essa festa tem tanta importância na Espanha, ou mais, quanto o Natal. Durante minhas caminhadas pela manhã, as lojas exibiam produtos e as pessoas faziam compras freneticamente para encherem as pessoas queridas de presentes. A tradicional festa espanhola comemora a chegada dos três reis magos em carros alegóricos que lançam balas de caramelo para as crianças que observam o desfile. A tradição manda que as crianças durmam cedo para que no dia seguinte encontre os presentes que os três reis deixaram em suas casas durante a noite.
A alegria festejada sem desordem e os olhares ansiosos das crianças, enriqueciam o momento. A procissão passava com seus carros alegóricos temáticos. Eu esquecera de carregar a bateria da máquina, o que me impediu de fotografar três reis em cima de seus cavalos tomando cerveja simultaneamente em garrafas long neck, tão pouco registrei a euforia não só de crianças, mas de adultos que também disputavam as balas de caramelo lançadas. Um rapaz jogou-se ao chão de braços abertos, varrendo as balas em sua direção.

Depois de ficar cerca de uma hora e meia encantando-me com o desfile, a multidão começou a me incomodar e resolvi caminhar pela cidade. Voltei para a Plaza Nueva, onde acontecia a Feria de Artesanías. Linda! Bijouterias, trabalhos em couro, prata, seda… tinha de tudo. Para mim que trabalhei tantos anos com artesanato, foi como estar em um parque de diversões. Passei pelo menos duas horas ali observando deliciada a riqueza, o colorido e a qualidade dos vários produtos expostos em seu último dia de feira. Conversei com vários artesãos e quando fui embora, estava um pouco frustrada por não ter dinheiro para levar tantas coisas lindas que vira ali. De tudo que eu vi, só levei como lembrança um par de brincos, que perdi no dia seguinte uma das peças… Culpa dos casacos e cachecóis que pressionam o brinco para cima, deslocando-os da orelha. Consegui perder quatro brincos durante a viagem! Sim… outro momento perua! 
Me senti um pouco sozinha nessa noite. Durante o dia, enquanto caminhava e me distraía com novidades, monumentos e a arquitetura dos lugares, a solidão não me incomodava. Pelo contrário, era bem-vinda. Mas à noite, quando via os bares cheios de rodas de amigos, de casais andando de mãos dadas, risadas e conversas entusiásticas, sentia um pouco de inveja e saudades de pessoas que eu teria prazer em ter como companhia. Mas fazia parte do pacote, e na verdade, nem sempre isso me incomodava. Continuei andando pela cidade e acabei me embrenhando entre as ruelas próximas do hostel, até a hora que me vi completamente perdida. Que idiota sair à noite sem o mapa da cidade! Andei por cerca de 2h30 sem rumo. Perguntava aqui e ali como voltar para Calle Santas Patronas, mas as pessoas não conheciam a rua, até que me lembrei de usar como referência a avenida principal que me levaria a ela. Foi quando consegui informação e voltei aliviada para o hostel.
Ainda assim era cedo para uma notívaga como eu. A cidade estava em festa. As ruas repletas de gente, de risos e euforia. E eu voltaria para o hostel em minha primeira noite em Sevilla! Ufff… Passei em um bar e comprei cerveja para levar ao hostel. Chegando lá, cumprimentei o moço que estava na recepção e fui para o quarto a fim de entrar na internet para fazer contato com minha família. Não consegui me conectar. Pensei: ok, vamos organizar as fotos. Fiquei um pouco ali, escrevendo e arquivando as fotos em seus devidos lugares. Dormira à tarde e apesar das quase seis horas de caminhada noturna intensa em meio à festa espanhola, não estava cansada. Desci até a recepção para pedir ajuda para conectar-me, mas ao que parece, o problema era do lap top que estava usando, já que o rapaz pegou o dele e conseguiu conectar-se no mesmo instante. Ele gentilmente me ofereceu o computador da recepção do hostel para eu usar. Olhei os e-mails e mandei recado de que estava em segurança para minha mãe. Mandei e-mail a meus filhos, olhei o facebook e enfim… não encontrei ninguém conectado para jogar conversa fora.
O rapaz da recepção era um angolano. Conversamos um pouco ali, falando sobre as belezas da Espanha e ele me contou um pouco da sua vida e de sua busca por estabilidade financeira em outro país. Sofria de saudades de sua terra, mas como fora muito jovem para Espanha, não sentira-se mais à vontade para deixar para trás os vários amigos que fizera em seu novo lar. Subi no pequeno e estreito elevador claustrofóbico até o refeitório do hostel. Era um ambiente muito limpo, gostoso e aconchegante. A cozinha bem montada oferecia panelas, pratos e qualquer utensílio necessário para cozinhar, mas optei pelo abridor de garrafas, já que comprara uma long neck que não tinha a tampa de rosca. Do lado oposto ao da cozinha, uma sala de refeição tinha dois sofás, um a frente do outro, duas bonitas poltronas de bambu com as almofadas forradas com um tecido estampado com grafismos africanos que coloriam o ambiente. A mesinha quadrada central tinha um narguilé ao centro, e seu vidro rosa da base me lembrara o pequeno lar encantado de Jeannie, a gênia ciumenta e apaixonada pelo mortal da NASA. Um console largo e de madeira escura, encostado na parede, servia de apoio para alguns enfeites e uma grande televisão. Depois do salão, havia uma varanda retangular e estreita que oferecia uma linda vista, apesar de interrompida por vários prédios que obstruíam o horizonte.
Dali da varanda, ainda podia ouvir o burburinho do povo comemorando a noite em festa. Disfrutei de um momento de prazer, paz e plenitude que não consigo expressar em palavras. Minha mente livre de qualquer pensamento. Só senti o prazer de cada sensação que respondia aos estímulos do ar gelado no rosto, das luzes da cidade, dos risos e vozes distantes e da cerveja gelada. Sevilla era linda! Eu poderia ter nascido ali. Me sentia em casa. Confortável e segura. Despertei desse entorpecimento quando o frio foi maior que o prazer da sensação de paz que sentia. Voltei ao meu quarto, quente e acolhedor apesar de impessoal, e dormi.
Anúncios
Postado em Sem categoria

Um pensamento sobre “Cabalgada de Los Reyes e a minha para dentro de mim mesma

Seja você uma parte desse mosaico. Compartilhe suas impressões, sentimentos e opiniões aqui.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s