Colcha de Retalhos

Descendo a ladeira na saída do castelo, o bonde passava pelos mesmos prédios coloridos que vira durante o dia, mas que à  noite perdiam um pouco do charme. Fui até a Praça das Figueiras, onde tentei inutilmente fotografar, mas sou uma completa incompetente com máquinas fotográficas. Basta o céu nublar um pouco, cair chuva ou anoitecer e pronto, acaba-se a sessão de registros de imagens! Essa praça que comporta um pequeno terminal de autobus, possui a bela estátua de D. João I e é rodeada de prédios de quatro andares que acomodam hotéis, cafés e lojas. Dali peguei outro autobus e fui me encontrar com Regina na legendária fábrica dos Pastéis de Belém, que fica muito próxima ao Mosteiro dos Jerônimos, uma lindíssima construção que só pude observar por fora, iluminada por holofotes e que infelizmente não tive tempo de visitar.

A fachada da loja exibia faixas da típica azulejaria portuguesa com seus desenhos simétricos em azul e branco. Na calçada revestida por um mosaico de pedras brancas, a inscrição lembrava que essa fábrica funcionava desde 1837 e acima o reluzente letreiro antigo anunciava “Única Fábrica dos Pastéis de Belém”. Possuía uma grande vitrine entre as portas e janelas azuis, de onde era possível ver os funcionários trabalhando em um balcão a atender os vários clientes que lotavam as mesas.

Não esperei mais que dez minutos, quando olho para o outro lado da rua e vejo Regina acompanhada de Nelson, seu marido e seu filho Pedrinho. A convivência com a distância nos vacina contra a saudade dolorosa, mas quando nos deparamos com as pessoas que amamos, é como se apertássemos um botão que nos permite soltar a emoção. Ela estava ainda mais bonita que da última vez que eu a vira. Regina quando criança brincava mais com minha irmã mais nova, pois a idade era mais próxima. Mas depois que nos tornamos adultos, essas diferenças de idade se diluem em experiências comuns e entendimento maior da vida do outro.

Nos cumprimentamos e ficamos um pouco na porta da fábrica, enquanto eu tentava em vão um beijo de Pedrinho que escondia seu rosto no pescoço da mãe, envergonhado com a prima que ele só vira quando bebê, e que certamente não lembrava. Nelson também me recepcionou com uma amabilidade e carinho que demonstra a pessoa doce que é.

Lembro de ter pensado; que família bonita!

Entramos a procura de uma mesa vaga. O lugar estava lotado e eu me surpreendi com o tamanho do lugar por dentro. Por fora parecia menor. Como em todo começo de conversa de pessoas que não se vêem por muito tempo, falamos muitas coisas sem nos focar em nada em especial. Saboreamos o delicioso pastel de Belém e na verdade fiquei surpresa de ter gostado tanto, pois nunca fui uma amante dos sabores mais doces. Embora se encontre o tradicional doce português em muitos lugares, a fábrica esconde a receita original e merecidamente eleita como responsável por uma das iguarias mais saborosas do mundo.

No caminho para o apartamento deles, eles foram me mostrando o bairro e conheci a sogra de Regina, tão amável como o filho, e que visivelmente tinha uma ligação muito forte com o neto também, que demonstrou seu imenso carinho por ela. Pedrinho, pouco a pouco, perdia a vergonha e quando chegamos à sua casa, ela já pronunciava: Entra prima, como o pai havia lhe ensinado a me chamar.

O apartamento muito bonito e bem cuidado, não lembrava que uma criança morava lá. Exceto pelo quarto lotado de brinquedos, onde Pedrinho me mostrava seus carros e caminhões favoritos. Nelson, anfitrião gentil como se mostrou todo o tempo, foi dar banho no pequeno Pedro e em determinado momento todos nós estávamos ao redor da banheira atendendo aos chamados da criança que buscava nossa atenção. Quando Nelson levou Pedro para dormir, pensei como essa família estava entrosada, como estavam felizes. Que momento bom estavam passando, e me senti muito felizes por eles. Com os dois dormindo, eu e Regina nos entregamos a uma deliciosa conversa regada a uma deliciosa cerveja portuguesa.

Apesar de Regina ter que trabalhar no dia seguinte, ficamos conversando por horas. Foi uma conversa reveladora. De certa maneira, quando fico distante fisicamente das pessoas, acabo “congelando” suas idades, como se o tempo só estivesse passando para mim. Mas a prima que compartilhava suas experiências, sentimentos e histórias comigo naquele momento, era uma mulher madura, bem resolvida e com uma visão muito lúcida da vida e das pessoas. Ali, nós duas fomos montando uma colcha de retalhos de experiências e opiniões, de sentimentos e desejos, e naquele momento eu sentia como se nunca tivéssemos nos distanciado, pois havia a cumplicidade e compreensão que só encontramos em verdadeiras amizades, a risada descontraída de amigas que conversam à noite após saírem para se divertirem, o aconchego da família que sempre nos espera de braços abertos.

Foi uma noite simples, especial e deliciosa. Pela manhã nos despedimos rapidamente, pois eles iam trabalhar e o pequeno Pedrinho ia para escola. Foi melhor assim. Despedidas não são fáceis para mim.

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