Lisboa-palheta de cores vibrantes

Acordei tarde, cerca de 10 horas. Fábio tinha ido trabalhar e Daisy cuidava da casa. Desci depois de um banho e ficamos conversando até a hora do almoço. Ela me deu algumas sugestões de passeio, me explicou como me locomover pela cidade e fomos caminhando pelas calmas ruas do bairro até a estação de comboio. À noite, eu iria encontrar com Regina, minha outra prima, e dormiria na casa dela, então combinei com Daisy de nos encontrarmos no dia seguinte, no mesmo ponto.
Peguei o comboio até a estação Cais de Sodré e fui caminhando até a Praça do Comércio. À minha direita, o Rio Tejo banhava a encosta com muitos pássaros a busca de alimento. O sol brilhante, refletia no mar a cor prata ofuscante. As árvores de folhas multicoloridas e outras de tronco branco e secas, enfeitavam as calçadas.
Cheguei na Praça do Comércio, e por mais que já a conhecesse por foto, não estava preparada para a magnitude daquele grande espaço rodeado de prédios antigos, cuja base é formada por lindos arcos, e que hoje abrigam vários Ministérios do Governo português. No centro a bela estátua de D. José I, exibe uma pátina esverdeada que contrasta com sua base muita branca. Ao fundo, o Arco Triunfal da Rua Augusta impõe respeito e desperta olhares encantados. À frente, o belo Rio Tejo completa a imagem fascinante de uma das maiores praças da Europa. Destruída por um terremoto em cerca de 1750, a biblioteca sediada nessa praça perdeu diversos arquivos reais importantes, inclusive vários documentos relacionados a descoberta do Brasil. Parada lá, não pude deixar de pensar na importância daquele local e em quantos personagens que ilustravam nossas aulas de história haviam pisado o mesmo chão onde eu estava.
Abaixo do gigantesco Arco, os corredores laterais cobertos pelos arcos dos prédios formavam uma linda passarela enfeitada por grandes luminárias antigas penduradas por suportes de ferro trabalhados com ricos detalhes. O teto formava um desenho perfeitamente geométrico onde vários arcos se encontravam em um ponto central. Era lindo. Atravessando o Arco me vi diante da linda rua Augusta, uma das mais importantes da baixa de Lisboa, onde o acesso é proibido para carros. Toda sua extensão é seguida de lojas de todo tipo, muitas vitrines cuidadosamente arrumadas e alguns restaurantes distribuíam suas mesas no centro da rua formando uma ilha, onde as pessoas tomavam um café fumegante ao som da flauta tocada por um artista de rua.
As pequenas vielas de paralelepípedo, insinuavam as ladeiras que rodeavam a região e eram cortadas pelos trilhos dos charmosos bondes elétricos. Foi em um deles que subi para ir até o Castelo São Jorge, batizado com esse nome por D. João I, em devoção ao santo padroeiro dos cavaleiros e das Cruzadas. Minha primeira intenção era ir caminhando, mas meus pés doíam com a bota que comprara poucos dias antes. Enquanto esperava o bonde, observava a vitrine de uma pequena loja cheia de produtos artesanais e acabei encontrando uma pequena coruja que comprei para minha irmã, colecionadora dessa ave de olhos grandes e curiosos.
O rápido passeio de bonde até o Castelo foi agradável e muito bonito. Serpenteava entre as ruelas estreitas e prédios coloridos. No primeiro portal de entrada do castelo, um artista cantava Ai se eu te pego, numa versão cheia de arranjos musicais criativos. Essa canção me seguiu por toda a viagem, e mesmo não gostando dela, acabei criando um tipo de carinho pelas lembranças que ela remete. Comprei o ingresso de entrada e antes do segundo portal havia um bar apinhado de gente que conversava alegremente. À direita, pequenos prédios antigos e coloridos, davam charme à cena local com suas sacadas cheias de roupas estendidas em busca de sol para secar.
Dois grandes portões de ferro abertos convidavam os visitantes a mergulhar em uma viagem no tempo. A primeira visão foi do piso formado de grandes pedras cuidadosamente encaixadas, onde a grama baixa formava um rejunte vivo e um pavão passeava calmamente, já acostumado com a companhia de humanos. À frente, conforme eu avançava em direção à mureta que rodeia o castelo, a vista da linda Lisboa surge, revelando suas ladeiras, os telhados terracota e o lindo Rio Tejo, o qual não encontrei palavras que fizessem justiça à importância da sua presença na composição de beleza daquela paisagem. Se via também ecortando o horizonte além Tejo, o Cristo Rei, inspirado no Cristo Redentor do Rio de Janeiro, e a Ponte 25 de Abril.
A extensão da muralha era salpicada de canhões que outrora foram usados para defender a cidade e o sol dourava toda essa paisagem, as paredes de pedra do castelo, dava mais vida ao verde das plantas e formava sombras através de árvores, arcos e postes de luminárias, enriquecendo ainda mais a beleza daquele lugar. Os jardins muito bem cuidados ganhavam vida com os vários pavões, que por vezes desviava os olhares curiosos do castelo para eles.
As muralhas do castelo propriamente dito, escondiam um pátio interno onde um talentoso artista tocava violão, repercurtindo o som por todo o interior do castelo. Altas escadas me fizeram imaginar como antigos guerreiros conseguiam subir e descer pelos grandes degraus de pedra, carregando suas pesadas armas e armaduras, em meio a confusão e tensão de batalhas. As muretas das sentinelas e do alto das torres, formadas pelos típicos desenhos dentilhados, davam espaço para uma vista mais completa da cidade. Meu olhar se perdia em cada detalhe e o sol já enfraquecido com o início do fim da tarde, começava a colorir o céu com cores quentes e vibrantes.
Ao sair do castelo, o céu escurecia rapidamente e presenciei uma revoada inesperada de pavões em direção ao alto de uma árvore, onde se aninharam para passar a noite que viria. Mais adiante, à direita, outra construção abrigava um museu com os achados arqueológicos do local, e tive a sorte de ser uma das últimas pessoas a entrar antes do encerramento das visitas. Inteiramente revestida de tijolos perfeitamente encaixados, abóbodas formavam um lindo desenho no teto. Cerâmicas que tantas vezes usei como referência na época que pintava, eram expostas por trás de vidros nas paredes e em vitrines centrais. Haviam dois vasos de terracota com cerca de 70 cm de altura que não consigo imaginar como foram reconstruídos, em um trabalho que só quem tem amor à arte e à história seria capaz de fazer.
Do lado de fora, indo em direção à saída das dependências da construção medieval, não resisti ao pôr-do-sol que foi um dos mais bonitos que assisti em toda a minha vida. Voltei em direção às muralhas que rodeiam o castelo e observei o céu que exibia uma palheta de cores que pareciam quase irreais. Despedi desse lugar sob um céu púrpura que nunca tinha visto antes. Saí de pensando como tudo aquilo sobrevivera a tantas batalhas, guerras e terremotos. Eu estava profundamente emocionada…
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Um pensamento sobre “Lisboa-palheta de cores vibrantes

  1. Imagino a sua emoção.Vc consegue transmiti-la com muita intensidade.Admiro sua capacidade de se ater a detalhes que, acredito, passam despercebidos a muitos turistas. Com certeza é sua alma de artista! Bjs da mama

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