Chegada a Lisboa: Uma ponte para lembranças da infância

Depois de intermináveis caminhadas pelo corredor da estação e cochilos rápidos, o painel anunciara o embarque para Lisboa. Desço rapidamente até a plataforma, entro no trem e acomodo a bagagem bem atrás de meu banco. Para minha surpresa minha poltrona fica de frente a outra. Eu não podia acreditar! Após quase de dez horas de espera, meu corpo moído pela noite de Ano Novo, eu não teria como esticar as pernas, e seriam 9 horas de viagem! 

Muito rapidamente o vagão enche e os lugares são ocupados. À minha frente, duas japonesas. Ao meu lado um rapaz quieto. Na fileira à minha esquerda uma brasileira reclama do assento em igual condição, mas não se contenta com uma simples observação e continua uma ladainha que não resolveria nada, mesmo após a saída do trem. Tudo que eu queria era dormir… estava muito irritada. Após algum tempo ela consegue trocar de lugar, provavelmente com alguém que preferiu o conforto do silêncio ao da poltrona com espaço para esticar os pés.

Foi uma viagem difícil e cansativa, a pior que fiz durante todas as minhas férias, mas o cansaço foi mais forte e acabei dormindo boa parte dela. Pela manhã, sob a luz tímida que anunciava um dia nublado, cheguei em Lisboa. Ao levantar, a dor em minhas pernas era maior que no dia anterior. Desci do trem e vi meu primo no começo da plataforma, olhando curioso para o trem, a minha espera.

Somos de uma família muito grande. Quando éramos crianças, nossos pais se encontravam em longas tardes de domingo, onde os primos com idade próxima se juntavam e brincavam. Não íamos muito na casa de tia Noêmia, mãe do Fábio, lembro de minha mãe dizendo que era longe. Geralmente íamos lá em dias de festa que comemoravam algum aniversário de um dos cinco filhos. Eu tinha medo de chegar lá, pois meu tio constantemente apertava minhas bochechas num gesto de carinho que me causava dor.

Eles viviam em um antigo sobrado na Vila Mariana. Lembro do som oco do chão de madeira da sala quando passávamos, dos degraus estreitos e barulhentos da escada que nos levava aos cômodos superiores, das paredes repletas de quadros, do piano na salar de jantar, da minúscula cozinha, do quarto dos filhos que era repartido por uma divisória para dar mais privacidade aos dois meninos e três meninas, do pequeno banheiro com sua janelinha redonda onde me escondia às vezes para comer a pasta de dente listrada que só tinha lá, da pequena varanda de entrada onde sentávamos no muro e do grande quintal onde se encontrava um pequeno quarto de empregada e um porão repleto de livros e guardados. E nesse porão, nossas fantasias de criança criavam asas e passávamos horas a viver em nossos mundos paralelos.

Mas nessa época, a pouca diferença de idade significava muito e nem sempre os mais novos eram aceitos pelos maiores. Foi na adolescência que eu e Fábio nos aproximamos mais. Não foi uma fase longa, mas guardei em minha memória o carinho e cuidado com que ele tratava a priminha; eu.  Fase curta interrompida pelo início do meu namoro com meu ex-marido. Sem maturidade, não soube lidar com o ciúmes que ele sentia de meu primo e me afastei. Guardara comigo uma culpa de ter feito isso e quando o vi a minha espera, todo o sentimento de carinho aflorou, com a gratidão da oportunidade de curar antigas feridas.

Nos abraçamos e no caminho para sua casa, tínhamos tanto a falar que a conversa foi atropelada entre notícias da família e descrição das paisagens desconhecidas para mim. Fábio morava em Portugal há dez anos, desde que surgiu uma oportunidade de emprego e se mudara com Daisy, sua mulher e os dois filhos ainda pequenos. Ele era um paizão e provedor de família responsável que nada lembrava a criança levada e o adolescente rebelde que tantas vezes ficara preso quando servia o exército, por não conseguir obedecer a ordens e disciplina.

Chegamos em Parede – que eu cismara em chamar de Vassouras – que é como um bairro de Cascais, que por sua vez faz parte de Lisboa. Sua casa localizada em uma esquina, era bonita e aconchegante. O portão de entrada abria os braços para uma pequena e charmosa varanda. Entrando, uma sala confortável e impecavelmente limpa, ainda exibia a árvore de Natal donde reuniram-se sua família, minha outra prima Regina que também vive lá e alguns amigos, poucos dias antes.

A mesma saudade que tinha de ver meu primo, tinha de Daisy. Quando ela passou pela porta da cozinha para me cumprimentar com seu sorriso franco, não pude acreditar. Ela estava idêntica há dez anos atrás. Mesmo rosto, o mesmo corpo miúdo, mesma simpatia. Eu trabalhara com Daisy em uma Bienal do Livro em São Paulo há nem sei quantos anos atrás, e nesses dias, compartilhamos de uma amizade sincera que só não se aprofundou por conta do meu casamento turbulento. Nossas conversas naqueles dias, só provaram a pessoa sensível, inteligente e boa que ela representa e compartilha com todos que a rodeiam.

O cachorro deles entra pela cozinha, agitado, me paralisando por alguns segundos. Eu morro de medo de cachorros, mas ele era alegre, brincalhão e carinhoso, como seus donos. Daisy o leva ao quintal atrás da cozinha para distraí-lo, puxando a persiana da janela que liga os dois ambientes, e nos divertimos com a tentativa incessante do animal que tentava entre saltos alcançar a cortina em movimento.

Seus filhos ainda dormiam, era cedo, e enquanto Fábio cozinhava um delicioso strogonoff de frango e bebíamos um vinho português, conversávamos sobre tantos assuntos e novidades pendentes. Após sete dias só, eu estava novamente no aconchego da família. Observava meu primo que assim como eu trazia em seu rosto as marcas do tempo, com todas suas alegrias e tristezas. Não estávamos mais no porão de sua casa e vivenciando jogos de fantasias infantis. Compartilhávamos as experiências de uma vida, resumidas nas pessoas que éramos e nas ideias que representávamos naquele momento. E me senti feliz…

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