Próxima estação: Lembranças e Pensamentos

Despertei com o estridente som da campainha que alertava o próximo embarque. Olho para o painel. 16h08. Nunca me esquecerei daquele horário. Ainda faltava uma eternidade para a viagem… O letreiro digital laranja anunciava o embarque para Palencia e a lembrança de Jo inundou meus pensamentos.

Quando eu o conheci, pensava que sua cidade era Valencia. Só algum tempo depois, quando conversávamos com mais frequência, ele me explicou onde ficava e descrevia o cenário de um lugar tão pequeno e tão distante. Naquele momento, só o que me separava dele eram no máximo 2 horas, um pouco menos. Fosse cinco ou seis meses antes, eu não hesitaria em ir a seu encontro.

Depois que minha prima me apresentou a ele, criamos a princípio uma amizade gostosa e descontraída. Eu nada falava de espanhol, e pouco a pouco ele foi me ensinando. Quando ele começou a me paquerar, a primeira coisa que senti, é que seria impossível corresponder diante da dificuldade da distância. Mas ele já tinha me fisgado. Eu tentava resistir, mas quando dei por mim, cada vez que eu me conectava, era ele que eu procurava on line.

Em pouco tempo, falávamos todos os dias. Conversávamos por horas. Após algumas semanas já conhecíamos nossos horários e rotinas. Tínhamos hora certa para nos conectar. Não era combinado, mas estávamos lá. Eu sentia tanto prazer nas conversas sobre trabalho, família, móveis, filmes, música, sonhos, reformas, anseios… nunca faltava assunto. Acho que o que mais me conquistou nele foi sua educação, atenção e curiosidade contínua sobre tudo que se relacionava a mim e sua preocupação constante de sempre acabar uma conversa vendo em mim um sorriso espontâneo. Sua tranquilidade tinha o poder de me acalmar e houve um momento, que mesmo contrariando meu lado mais racional, eu não tinha como negar o quanto estava apaixonada.

Seguimos por meses e meses assim. Uma conversa por dia já não era suficiente. Qualquer tempo livre era destinado ao encontro virtual que foi inserido em nosso cotidiano e para minha família, como parte da minha rotina. Eram comuns as noites que meus filhos sentavam-se comigo e ficávamos nós três ou quatro conversando juntos.

A 8.000 km de distância, ele era a presença mais viva, o amigo mais leal e a companhia mais presente. Arrisco dizer que ele foi, e é, apesar de termos nos distanciado, uma das poucas pessoas que realmente me conhece como sou, onde as barreiras foram derrubadas e deram lugar a intimidade mais verdadeira que existe, a da alma. Após tantos anos de um casamento que me tosou de todas as formas, a nudez emocional a qual nos entregamos era rara e isso significou um renascimento em mim.

Após mais de um ano, os mesmos motivos que criavam admiração, encanto e paixão, davam vida a existência de uma frustração profunda e crescente. O anseio de estar perto e viver um relacionamento completo nos separou pela impossibilidade de torná-lo real. Passamos a nos falar menos e com uma formalidade incômoda de quem engole palavras… Descartamos das conversas os pronomes possessivos. De mi español, para español. De mi niña, para niña. Substituímos os temas das conversas e deixamos de nos inteirar da vida de cada um. Voltamos ao estágio inicial… a amizade, mas depois de tudo que sentimos, ela já não era mais descontraída. Era incompleta e me machucava.

Desperto de meus pensamentos com uma cena que me chamou a atenção. Uma moça passa a minha frente quando é parada por dois policiais. Estão relativamente longe, o bastante para eu não ouvir o que falam. Ela mostra os documentos, gesticula. Um dos policiais se afasta e outro fica com ela a ouvir o que parecem ser possíveis explicações. O policial que se afastara retorna e depois de alguns minutos de conversa, os dois a encaminham para fora e fiquei pensando qual drama estava correndo ali. Ela passou por mim cabisbaixa, cruzou meu olhar por um instante e estava visivelmente constrangida. Pensei como nos fechamos em nossos mundos sem nem nos alertarmos para o que ocorre ao redor. Desde pequenas abelhas que zumbem sobre as flores, até o grito inaudível dos desesperados pelo mundo. Eu já passara por tantas situações que desejara ser ouvida e ajudada, mas ali eu vivenciara um momento egoísta, totalmente meu, entre passagens em horários inapropriados e sentimentos confusos…

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2 pensamentos sobre “Próxima estação: Lembranças e Pensamentos

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