A corrida atrapalhada em direção ao próximo destino



Acordei assustada. Olhei o relógio sem quase conseguir abrir os olhos. Eram 11h15. Dei um salto da cama do alto do beliche. Eu teria que fazer o check out até às 11hs com o risco de pagar mais uma diária. Juntei minhas coisas em menos de cinco minutos. Escovei os dentes, molhei o rosto e saí correndo. Quando chego no térreo me dou conta que o saco de dormir emprestado de um amigo não está comigo. Volto correndo para o quarto, vasculho tudo e não encontro.
Na recepção não tive problemas pelo meu atraso e por sorte o saco de dormir estava lá, desde o primeiro dia, e nem tivera sentido falta. Vou em direção a Puerta del Sol apressada pois havia combinado com Mathilde de passar em seu apartamento que ficava em uma ruela muito próxima dali. Ela gentilmente oferecera guardar a mochila para que eu pegasse na última semana, quando voltasse a Madri.
Era um prédio bem antigo, sem elevador. Considerando a bagagem que carregaríamos por três andares, decidimos que o melhor era eu  separar o que levaria ali mesmo, sentada no primeiro lance daquela escada de madeira estreita. Enquanto eu organizo meus pertences, rimos bastante relembrando os melhores momentos da noite anterior. Mathilde se diverte de me ver tão atrapalhada. Ela é uma francesa muito bonita, com a pele perfeita da juventude, só usava um delineador para realçar seus grandes olhos expressivos. De riso fácil e uma amabilidade intensa, nos identificamos muito e sinto que se vivêssemos perto, ainda compartilharíamos muitos momentos de diversão e talvez até uma amizade mais profunda. Me despedi dela emocionada, pois grande parte do sucesso da noite passada, se devia ao fato dela ter acolhido a mim de forma especialmente atenciosa. Todo o tempo se preocupara se eu estava bem, precisando de algo ou me divertindo.
Entrei na estação Sol do metrô, passando por baixo da moderna cúpula de vidro e fui, pela linha 1, sem ter que fazer  nenhuma baldeação, para a estação ferroviária Pinar de Chamartín, de onde saía o trem para Lisboa. Estava um pouco tensa, pois o metrô de Madri, apesar de ser muito eficiente, pode ser confuso à primeira vista para quem não conhece tantas linhas que se cruzam.
Rapidamente eu cheguei lá. Apesar de aliviada por carregar menos bagagem, cada vez que eu chegava em alguma estação, seja de trem, metrô ou mesmo ônibus, eu ficava preocupada com a possibilidade de não ter escadas rolantes. Como várias estações europeias são muito antigas, é comum não encontrá-las. Em Roma, no dia que fui de trem para o aeroporto, foi um verdadeiro martírio carregar a mala pela escada comprida que levava a plataforma. Em Chamartín foi muito fácil, o que me deixou muito aliviada, pois eu estava cansadíssima.
Fui direto ao guichê e para minha surpresa, o único trem que ia para Lisboa, saía às 22h25. Faltavam quase dez horas para o embarque! Não adiantava ficar irritada. Comprei o bilhete e fui ao banheiro em busca de um espelho para poder me recompor da correria. Rosto lavado, maquiagem retocada, organizei minha bolsa e vasculhei meu moleskine em busca do telefone de Fábio, meu primo que me hospedaria em Lisboa, para avisá-lo da hora da chegada. Quem me atendeu foi Daisy, sua esposa. Providências tomadas, eu podia relaxar.
Andei um pouco pela pequena estação com alguns poucos comércios abertos, na maioria de comida e souvenirs, a procura de um locutório para acessar a internet, mas não encontrei. Não tive coragem de sair dali, mesmo sabendo do largo tempo que aguardaria pelo embarque, pois teria que levar a bagagem junto. Resignada a aceitar a longa espera, dei ouvidos aos pedidos urgentes de meu estômago e fui almoçar.
O restaurante nada tinha de charmoso, bem parecia mesmo com esses de shopping, com várias mesas e cadeiras grudadas ao chão. Serviam um self-service que já não estava funcionando naquele horário em decorrência da escassez de clientes. A estação estava bastante vazia por ser feriado. Serviam também alguns pratos combinados. Optei por uma salada bem variada, frango grelhado e fritas, e é claro, minha coca-cola zero estupidamente gelada. O prato era farto e estava muito gostoso e eu necessitava intensamente de uma refeição digna naquele momento.
Já bem alimentada, fui sentar em uma das cadeiras desconfortáveis em frente ao painel de aviso de embarque e desembarque. Tentei ver as fotos do dia anterior, mas a bateria da máquina tinha se esgotado. Procurei algo para ler com a esperança de passar o tempo mais rápido, mas os guias estavam (minha única fonte de leitura durante a viagem) no fundo da mala. Pensei em escrever um pouco, mas não estava mais conjuminando meus pensamentos. Fora o primeiro momento que eu realmente relaxara desde a noite de La Prévia de las Uvas. Minhas pernas latejavam e meus músculos das pernas doíam devido ao exagero da dança da noite anterior. Meus olhos coçavam como se estivessem cheios de areia. Eu estava exausta. Coloquei a mala deitada à minha frente e estiquei as pernas nela, o saco de dormir na lateral do banco como um travesseiro, a bolsa com meus pertences mais importantes atravessada no corpo, e dormi por cerca de 40 minutos.
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2 pensamentos sobre “A corrida atrapalhada em direção ao próximo destino

  1. Ufa!! Que epopéia!!! E esperar 10 hs dp de tudo,ninguém merece.Mas valeu os 40 minutos de sono. Sobessaltos sp acontecem numa viagem assim, sem muita programação. Mais uma história inesperada para ser contada como folclore. Bjs da mama

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