La Nochevieja

Cerca de meia hora depois de esperar sem ver nada que sugerisse que o grupo estava lá, resolvi caminhar pela praça enquanto ainda não estava completamente repleta de gente. Minuto a minuto as pessoas chegavam guardando seu lugar e em pouco tempo eu não teria a menor chance de encontrar ninguém.
Encontrei o grupo em frente a entrada da estação de metrô Puerta del Sol que é coberta por  uma cúpula de vidro muito moderna – chega a destoar da arquitetura e prédios antigos que emolduram todo o redor da praça. É muito fácil identificar quando estamos reunidos, observando a variedade de estrangeiros, um comportamento alegre, descontraído e muito pacífico. Aproximei-me um tanto envergonhada, pois não reconhecera ninguém que encontrara no bar na noite anterior. Perguntei:
— Couchsurfing?
Então um enorme sorriso se abre da menina que me dá as boas vindas e em seguida um a um fomos nos apresentando e uma conversa divertida já me fez relaxar. Já estava em casa.
Assim como o resto da praça, o grupo logo reuniu muitas pessoas. Tantas que foi impossível interagir com todos. Um rapaz que não lembro o nome, organizava o encontro e alertou-nos que não poderíamos mais esperar naquele lugar, pois não conseguiríamos chegar ao ponto privilegiado, bem em frente ao relógio que em breve seria alvo de tantos olhares.
Fiquei impressionada das pessoas chegarem tão cedo a espera da meia noite. Aqui no Brasil, mesmo que já estivesse reunida com outras pessoas, sempre me dirigi ao ponto onde esperamos a queima de fogos, muito próximo do horário, mas lá, às 21 hs a praça estava completamente lotada e eu já não conseguia visualizar mais nada a minha frente diante de tanta gente. Ir a algum banheiro seria impossível, pois não teria mais como voltar.
O grupo formado por espanhóis, três russos, franceses, italianos, um belga, uma americana e eu, entre outros que não cheguei a conversar, havia se conhecido na maioria naquele momento, mas estávamos à vontade e ríamos muito.
Um chinês passou vendendo uvas, que eu não pude deixar de comprar para seguir a tradição espanhola, apesar de considerar 3 euros por um saquinho com doze uvas, um absurdo de caro.
A multidão com suas perucas, apitos, máscaras e chapéus, coloriam e alegravam aquela cena. Vez e outra levantavam as mãos formando uma hola, como uma verdadeira onda naquele mar de gente, urrando e assobiando para anunciar que a hora se aproximava. Às vezes os olhares eram dirigidos para o prédio oposto ao do relógio, onde a imprensa se localizava para filmar aquele formigueiro humano que distribuía alegria e esperança de um ano novo magnífico, acenando para as câmeras como se pudessem se descartar da multidão.
Com o ruído de vozes e cantoria cada vez mais alto, o grupo foi se dividindo e se fechando em rodas menores, onde era possível ouvirmos uns aos outros. A linda Ania da Rússia que vive e estuda em Madri, um casal que era convidado dela também russos, a francesa com jeito brasileiro Mathilde e eu, acabamos nos aproximando mais e foi com eles que passei a maior parte do tempo enquanto estávamos na praça.
Depois das 23 horas, as holas se tornaram mais frequentes, acontecendo a cada 15 minutos e ao chegar a contagem regressiva, a energia que emanava daquela multidão era tão contagiante como comovente. Chegou a hora tão esperada. Comi as uvas, aumentei o coro com a contagem, fiz meu desejo de olhos grudados no céu atrás do relógio a espera dos fogos, mas nem uma biribinha… Não acreditei que não haveria queima de fogos! Ano Novo sem enfeitar o céu com chuvas prateadas, cogumelos multicoloridos, pequenos cometas artificiais ao som ensurdecedor dos rojões, era inconcebível para mim. Mas a minha fugaz decepção foi interrompida diante dos abraços, brindes e desejos de um feliz ano novo. O espetáculo ali não era originário de produtos comprados, era o mais forte e emocionante que poderia haver, o mais genuíno, eram as pessoas.

Rapidamente a praça começou a esvaziar e formamos um cordão humano para não nos perdermos na multidão. O chão da praça estava absurdamente sujo, coberto por papéis e muitas garrafas quebradas. Era difícil andar sem se desiquilibrar. As saudações de Feliz Año continuaram por muito tempo. Recebi diversos abraços e felicitações de pessoas que não conhecia, mas que estavam simplesmente compartilhando aquele espaço e aquela euforia que não diminuía mesmo depois da meia noite.
Estávamos indo em direção da pizzaria do namorado de Ania, onde iríamos nos alimentar antes da festa que ia acontecer em um bar com outros membros do grupo. No caminho encontramos brasileiros cantando. Nos juntamos a eles e uma enorme roda com umas vinte pessoas tentavam acompanhar a música que para a maioria era desconhecida.
“Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo, que tudo se realize, no ano que vai nascer… Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender”
Já na pizzaria meus companheiros de nochevieja pediram para que eu explicasse a letra da música e que ensinasse a melodia. Rimos muito e acabei desistindo da missão quase impossível que era ensinar aos russos que não tinham o menor conhecimento nem em espanhol, quanto mais português.
A pizza vendida em retângulos, de uma massa grossa, mas crocante, caiu muito bem. A noite só estava começando… Entre Feliz Año, Adeus Ano Velho e Ai se eu te pego caminhamos felizes em direção ao Nolita Bar, onde seria a festa. Não havia se passado nem uma hora, quando no trajeto para o bar, atravessamos novamente a praça Puerta del Sol, já quase vazia e para minha surpresa, já parcialmente limpa e lavada.
Na Gran Via, lindamente iluminada, encontramos outras pessoas que haviam se desgarrado do grupo em meio à multidão e levamos cerca de 40 minutos até chegar à danceteria. O lugar não era muito grande e as paredes de um lado eram pretas, contrastando com as brancas que ficavam do lado do balcão iluminado com luzes fluorescentes coloridas que se estendia por quase todo o bar, e a parede oposta era espelhada dando a impressão que o local estava mais cheio do que a realidade.

 
Ali foi mais fácil interagir com mais gente. Conheci diversos membros do grupo de Madri. Dancei, como se eu soubesse, a noite toda, rimos e comemoramos até de manhã. Cheguei no hostel de táxi, que dividi com Mathilde e Aléssio, um italiano que também estava conosco. Já eram quase 8 hs da manhã e eu estava exausta. No jardim de inverno do hostel ainda parei para conversar com algumas pessoas que também lutavam contra a exaustão e o sono. E quando todas as minhas forças estavam perdidas, fui para meu quarto. Olhei em direção as camas dos dois brasileiros que eu esquecera de me encontrar à tarde no bar do hostel. Estavam dormindo pesado. Agora sim era o fim da nochevieja, só me restava ir dormir.
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2 pensamentos sobre “La Nochevieja

  1. Simplesmente incrível a experiência que vc viveu!!! A palavra mágica "couchsurfing" uniu vc ao mundo!!! Para mim, é dificil entender como esse grupo tão heterogêneo compartilhou esse evento tão especial.Que noite linda,deu para sentir sua vibração e espanto diante de tanta novidade. E as fotos enriqueceram a reportagem. Leia e releia, para que nunca saia de seu coração essa enxurrada de emoções. E que dê forças para que, nesse dia-a-dia atual, vc consiga continuar enxergando a beleza da vida.Mama

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