Primeiro dia em Madri

Puerta Del Sol é uma praça ampla e não tão bonita como a Plaza Mayor, mas encanta pela mesma energia contagiante do que dá vida a ela. Estátuas humanas, vendedores, muitos comércios, vozes, risadas e o aroma misturado que vinha dos vários restaurantes caracterizavam essa importante praça. Marcando o centro dela, a bela estátua de Carlos III sobre seu cavalo e à sua frente o famoso relógio donde todos olhares se voltam na contagem regressiva do Ano Novo. Na lateral a estátua que de El Oso y el Madroño que simboliza a capital espanhola, representado em seu brasão, é disputada entre os turistas para fotos.

Parei para comer em uma pequena lanchonete chamada Maoz Vegetarian. É uma rede que não existe aqui no Brasil e que oferece uma refeição à base de falafel — bolinhos de grão-de-bico, mas ali creio que me serviram bolinhos de carne de soja. Parecia um sanduíche formado por dois pães sírios grossos e macios dispostos em cone. Adicionei aos bolinhos, um molho que parecia uma maionese temperada, salada de grão-de-bico, rúcula e uma couve-flor frita com alho, tenra e muito saborosa. Uma porção de batatas fritas também acompanhava a refeição. Desde que chegara na Europa, não tinha me alimentado com tanta fartura. Além de estar uma delícia, foi muito barato.

Aproxima-se de mim, uma morena, miúda, cabelo preso, avental e uma vassoura na mão, muito sorridente.

— Brasileña?

Afirmo com a cabeça pega de surpresa com a boca cheia.

— Você é bonita… como todas as brasileiras… Sou mexicana. E estende a mão para cumprimentar-me.

Varrendo a loja, conta de sua história. Conhecera um espanhol, cuja família era muito austera, mas diante do amor à primeira vista, ele havia se rebelado e casara-se com ela contrariando a opinião dos pais. As reuniões de família eram sérias e cansativas, mas ela adorava dançar e rir.

— Na minha cidade, as festas são animadas e todos dançam. Eu danço muito bem. Meu marido fica encantado ao me ver dançar!

Eu sorrio sem saber o que falar. Ela prossegue:

— Os espanhóis são muito atenciosos e educados. Os mais velhos nem tanto… As mulheres não gostam da gente. Acham que viemos roubar seus homens! Elas que aprendam a dançar, não é?

Sorrio de novo sem palavras.

Ela pára. Segura a ponta do cabo de vassoura entre as mãos, apóia seu queixo e pergunta:

— Você samba?

— Eu? Não… nada.

Ela me olha estranho, como se aquilo não fizesse sentido ou como se fosse eu uma traidora. Fica em silêncio por alguns segundos e encerra a conversa:

— Bom, mesmo assim eles adoram as latinas. Sorri para mim e se dirige aos fundos da loja.

Me divirto com essas situações inesperadas e com a necessidade que as pessoas têem de falar de si. A maioria dos desconhecidos com quem cruzei, desenrolaram um verdadeiro monólogo. Eu, era apenas a platéia, que como tal, se esbaldava com o espetáculo.

Peço para embrulharem o restante do lanche para viagem, pois não aguentara nem metade dele. Sigo em direção ao hostel para tomar um banho e ir de encontro com o grupo de mochileiros que se encontraria à noite às portas do Teatro Calderón em frente a Plaza Jacinto Benavente.

Em meu quarto no hostel, dormia uma moça e um rapaz arrumava sua bagagem. Ele não falou comigo e eu fui direto para o banho que tinha que apertar a válvula de descarga de água de minuto em minuto, pois não ficava aberta livremente. Mesmo assim foi um banho quente e a ducha era forte. Uma das coisas que mais sinto saudades da viagem, eram dessas duchas quentes e revitalizadoras.

Desci para o porão, onde era o bar do hostel e me conectei a internet para confirmar se o evento do grupo ainda aconteceria, para consultar o mapa de como chegar e dar notícias à família.
Enquanto analiso o mapa e percebo que passara pelo lugar nas caminhadas durante a tarde, Jo, um espanhol que conhecera há cerca de dois anos atrás, conversava comigo pelo chat do facebook.

Tenho uma prima que mora no México. Uma vez, quando veio passar férias no Brasil, tirou fotos que compartilhou com ele. Jo, que era amigo dela, se encantara pelo meu sorriso e pedira para ela nos apresentar. Nunca imaginaria quanta história surgiria depois disso… Nos despedimos desejando um ótimo Ano Novo e eu só pensava se teria coragem e se era o certo a fazer, encontrá-lo em algum momento da viagem. Mas essa é outra história…

Saio do computador e sento no porão escuro que tocava uma música gostosa para esperar a hora de ir ao encontro do grupo. Uma moça me convida para sentar ao seu lado e dividir uma cerveja. Não lembro seu nome, mas a verdade é que em uma viagem solitária como essa, conhecemos tantas pessoas que nomes são apenas detalhes. Um detalhe que não diminui, nem enfraquece a importância desses momentos, que ainda fugazes, valorizaram o que poderia se tornar sem importância para mim.

Portando a alegria invejável dos jovens, ela discursa sobre sua viagem e conta suas impressões de lugares que eu ainda pretendia conhecer durante minhas férias. Em determinado momento, em meio a conversa, ela dirige seu foco a um jovem bonito e tímido que está sentado sozinho e o convida para sentar conosco. Ele era um canadense estudando em Santander e fora passar “la noche vieja” em Madri. Em meio a uma paquera cada vez mais entusiasmada, eu me retiro e vou de encontro ao grupo, deixando um espaço que já não existia para mim naquela conversa.

Em direção ao Teatro Calderón, as ruas muito destoam das de Roma. Estavam cheias de pessoas de todas as idades, bares e restaurantes lotavam as calçadas. Vozes e vida habitavam as ruas e cada centímetro por onde eu passava. Em frente ao teatro, me encontro com o grupo de múltiplas nacionalidades que depois de completo se encaminha para um bar onde eu encontraria muitos membros da comunidade de Madri. Membros que me proporcionariam um Ano Novo com uma energia nunca vivida, uma experiência totalmente nova e uma noite que ficará marcada em minha memória para sempre…

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