Entre Fantasmas

Subo a escada de degraus largos em direção ao primeiro lance de arquibancada. O frio daquele lugar me causava arrepio. Mais que o frio fui arrebatada por uma energia intensa e inexplicável.

Diante da escada, uma cruz, símbolo do cristianismo, perfeitamente centralizada, foi a primeira visão que tive do interior desse anfiteatro famoso pelas mortes de escravos e de homens que não depositavam sua fé nos vários deuses romanos e no grande César.

O sol que até aquele momento surgia timidamente, rasgava as nuvens pedindo passagem e invadia o anfiteatro através de seus arcos, criando feixes de luz que iluminavam seu interior, como a um palco sob holofotes.

Era quase possível sentir o medo dos pobres homens que agonizaram ali, a bravura dos gladiadores e o cheiro do sangue que banhava a arena depois do espetáculo. Podia ouvir a multidão histérica implorando por sangue e morte, e os rugidos dos tigres e leões raivosos. Quantas atrocidades o homem foi capaz de fazer, e ainda faz…

O pequeno labirinto que formava a galeria subterrânea, com suas danificadas paredes de pedra que repousam lá por milênios estavam forradas pelo musgo que cresce no frio e úmido ambiente fantasmagórico donde tantas feras e homens em seus últimos dias de vida passaram.

Do repúdio que sentia pela história triste e cruel do lugar, à fascinação e admiração daquela arquitetura impressionante e monumental…

Por toda extensão das arquibancadas superior e inferior, pedaços de colunas de mármore, esculturas, pedras com inscrições, me fez imaginar como seria ali em seu tempo de esplendor, sem a deterioração do tempo.

A simetria perfeita dos arcos e o encaixe exato de pedras e tijolos são impressionantes e belos. Cada arco esconde uma imagem diferente por detrás e a arquibancada mais alta, guarda a surpreendente e linda vista aérea da Via dei Fori Imperiali, do Monte Palatino, Foro Romano e do horizonte recortado pelas igrejas, basílicas, monumentos e sinagogas. Como um formigueiro, os turistas enchem a Via di San Gregorio que tem seu início marcado pelo Arco de Constantino, acompanha a lateral do Monte Palatino e que nos leva até os arredores do Circo Massimo, cenário das tão populares corridas de quadrigas.

Antes de seguir nesse túnel do tempo, fui almoçar em um restaurante próximo ao Coliseu, com vista para a Via Dei Fori Imperiali. Era meu último dia em Roma e eu desejava fazer uma bela e saborosa refeição tipicamente italiana.

O charmoso restaurante devia ser lindo durante a primavera e o verão, pois sua área externa era coberta por um caramanchão forrado de folhagem seca, dando um ar quase abandonado, mas que em contrapartida, permitia a entrada de raios de sol que alegravam o ambiente.

Fui recepcionada por um senhor de idade, alto e magro. Fosse mais formal e austero, o confundiria com um mordomo inglês, mas sua aparência altiva nada tinha de pedante. Era amável e simpático.

Pedi brusquetta com rúcula, tomate e atum como primeiro prato, fettuccine à bolonhesa como segundo prato e vinho da casa. Delicioso! Fiquei observando aquela vista à minha frente, sabendo que seria a última vez. Absorvendo todo o possível, tentando congelar em minha mente cada imagem, a sensação do frio em meu rosto, o som da rua…

Segui para o Monte Palatino onde enfrentei fila, discussão entre os visitantes e um pequeno tumulto antes de conseguir entrar.

Diz a lenda que Rômulo e Remo foram encontrados pela loba nessa região e que após Remo ter matado o irmão, ali fundara a cidade, sendo assim, o ponto mais antigo de Roma com uma história datada de 1.000 a.C.

Um dos pontos mais bonitos da colina, o Hipódromo de Domiciano parece um circo romano, mas é menor. Até hoje estudam o real uso e importância dele. Visto de cima sugere um jardim que um dia deve ter sido um recanto de tranquilidade e prazer.

Os jardins que rodeiam as ruínas desses palácios são exuberantes e muito bem cuidados, apesar de eu crer que na primavera sejam mais belos ainda. Em um ponto ou outro dessa extensa colina, encontram-se pedaços de pisos revestidos por azulejos, colunas e outras relíquias que enfeitam a cidade fantasma.

No final do Monte Palatino me deparo com o Arco de Tito que marca a entrada nas ruínas do Foro Romano, onde funcionava o comércio e o centro da antiga cidade de Roma. As ruínas e relíquias que habitam esse local são mais bonitas e conservadas do que as vistas no Coliseu e no Monte Palatino, mas quando olhei ao redor tive a sensação de estar pisando em um solo que acabara de passar por um terremoto.

Eu andara tanto que meus pés não aguentavam mais. Eu já estava mancando e sentei-me em meio as ruínas com pernas dormentes… Não havia mais tempo para visitar a Capela Sistina e eu nem tinha mais forças para andar, mas a experiência desse dia fora tão forte, emocionante e avassaladora, que nem cheguei a ficar triste.

Voltei em direção a Trastevere, exausta. Meu pensamento ainda vagava pelas ruínas e naqueles tempos onde a beleza das construções, a crença em deuses representados em esculturas e a crueldade conviviam juntos…

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Um pensamento sobre “Entre Fantasmas

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