A caminho do incerto…



Ainda faltavam 40 minutos para encontrar meu futuro host. Parei em um bar em frente a Basílica Santa Maria Maggiore… seria a última vez que essa vista já tão familiar iria encher meus olhos de encanto. Ventava bastante e o frio era intenso, mas preferi ficar do lado de fora saboreando uma cerveja que veio acompanhada de batatinhas chips.
Vi muitos mendigos em Roma, a maioria acompanhados de seus cachorros, mas o que apareceu naquele momento parecia muito perturbado e discutia alto com um ser imaginário. As pessoas que andavam pela calçada ficaram visivelmente assustadas com uma cena que não deve ser tão comum quanto as que já presenciara tantas vezes em São Paulo.
Meu olhar se desvia ao chegar, muito alegre, o mesmo nigeriano que havia tentado me vender suas belas esculturas em madeira na segunda noite que passei em Roma. Ele me reconhecera e parou em sua última tentativa de venda. Falava um espanhol muito melhor que muitos italianos. Ao observar a bagagem ao meu lado, desejou-me uma boa viagem e fez votos de que eu regressasse a Roma em breve, com a promessa que me levaria para dançar em uma casa onde só tocam músicas brasileiras.
Eu só havia passado três dias e quatro noites em Roma, mas a sensação de tempo era impressionantemente diferente. Eu vivera tantas coisas e apesar dos feriados natalinos e de eu ter conhecido uma Roma mais vazia que a usual, interagira com tantas pessoas de culturas diferentes. É certo que o fato de eu estar sozinha era um facilitador, pois acompanhados nos fechamos em nossos pequenos clãs e nem percebemos as imensas possibilidades que perdemos. Em contraponto passei por sensações que teria adorado compartilhar, enfim, nunca se pode ter tudo…
Paguei minha conta e tentei ajeitar a bagagem da maneira mais prática possível, já arrependida de ter levado tanta coisa.  De toda a viagem, carregar bagagem foi o que mais me incomodou. Eu levara uma mala média de rodinhas, uma mochila e um saco de dormir que não coube dentro de nenhuma das duas, além de uma bolsa que levava atravessada no corpo com meus documentos, dinheiro, as máquinas fotográficas e o mais importante; minha maquiagem. Mochileira sim, mas desleixada nunca!
Certamente teria sido uma opção melhor um grande mochilão ou uma mala maior, me livrando de uma das duas que estava usando, mas não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento.
Já muito próxima da estação, atravessei uma rua que tinha trilhos – creio que algum ônibus elétrico ou bonde passava por ali, mas eu nunca vira. Tropecei e caí no chão como um grande e pesado saco de batatas. Foi um daqueles momentos que parece que tudo se congela e você pensa… não acredito! Já era tarde e a rua estava bem vazia. Senti a mão em meu braço. Era o garçom que havia me servido minutos antes no bar. Ele me ajudou a levantar. Recolhemos minha bagagem e parei na calçada para agradecer.
Mesmo envergonhada, minha curiosidade falou mais alto e perguntei se eu estava enganada ou se ele que estava me servindo há pouco. Ele não entendeu de imediato, mas depois explicou-se dizendo que saíra em seguida. Sugeriu que sentássemos na próxima lanchonete e tomássemos um vinho para eu me recompor. Foi tentador, mas precisava seguir adiante. O horário de me encontrar com meu futuro anfitrião já estava no limite.
Agradeci pela ajuda e pelo convite e me despedi diante de um italiano com um enorme sorriso, estendendo os braços em um gesto brincalhão indignado.
Francesco era jovem, loiro, cabelos encaracolados e grandes olhos verdes. Provavelmente quando criança parecera com um tipo angelical, mas seu jeito meio aflito e nervoso não tinham nada de celestial. Chegou poucos minutos depois de mim e depois de um rápido e frio cumprimento, nos encaminhamos para Trastevere, um local ainda desconhecido para mim…
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