Começando as despedidas…

Eu tinha tentado fazer reserva no mesmo hostel onde Ricardo estava hospedado, mas descobrimos depois de uma conversa pela internet, ainda em São Paulo, que ele havia reservado a última vaga minutos antes de mim. Como o bar do Alessandro Palace Hostel é super descolado, resolvemos nos encontrar lá, mas quando eu cheguei ele não estava.

Resolvi atravessar a rua e comer em uma típica pizzaria romana que tinha na esquina, pois andara o dia inteiro e não havia me alimentado. Do lado de fora, ninguém arriscara enfrentar o frio, mas em seu interior, a casa estava lotada.

O lugar era bem simples, mas agradável. Tinha mesas compridas compartilhadas entre clientes desconhecidos.  O lado esquerdo estava completamente cheio. Quase fui embora, mas um típico garçom italiano se aproximou e me convenceu com sua simpatia e bom humor a ocupar o último lugar da última mesa do lado direito.

Ao meu lado dois rapazes. Um se dirigiu a mim perguntando se eu era espanhola.

— No… brasiliana.

— Ahhhh! De onde?

Soltamos uma risada descontraída ao perceber que ambos eram brasileiros. Ele era do interior de São Paulo, estudante e estava  na Europa de férias, mas pesquisando a possibilidade de se instalar e seguir seus estudos na Espanha, Portugal ou Inglaterra.

Os dois eram muitos simpáticos, mas o brasileiro, claro, era mais falante. Seu amigo era português e ficou muito entusiasmado a falar de sua cidade, quando soube que eu passaria quatro dias em Lisboa.

Com a ajuda dos dois e do garçom, acabei optando por uma pizza de marguerita. Olhando no cardápio, ela me parecia muito grande, mas eu a devorei e saboreei com prazer a massa leve e crocante que nada se parecia com as pizzas que comera em São Paulo. Não tenho nem como dizer se são melhores ou piores. São tão diferentes que não são comparáveis.

Em pouco menos de uma hora que estive ali, me deliciei com a comida, com a conversa divertida e com as brincadeiras incessantes do garçom. Como acontecera com quase todos esses desconhecidos que cruzaram meu caminho, me despedi sabendo que seria a última vez que nos falaríamos.

Atravessei a rua e tentei contactar Ricardo novamente. Ele deixara um recado na recepção do hostel pedindo que eu o esperasse e surgiu menos de 10 minutos depois.

Muito sorridente e amável, Ricardo me divertia com seu sotaque nordestino. Já comentei isso? Sotaques me encantam. Todos me encantam. Como mais tarde eu teria que encontrar Francesco que me hospedaria em sua casa, acabamos indo em direção ao meu hostel onde eu pegaria minhas coisas e sentamos na mesma lanchonete onde, pela manhã, eu havia comido o bolinho de arroz.

Acompanhada desse brasileiro inteligente e de uma cerveja geladíssima, compartihamos nossas visões a respeito de tudo que havíamos visto em Roma, sobre a influência e o apoio que o grupo de mochileiros nos oferecia e ele falou bastante de seus estudos.

Centrado e com objetivos bem definidos, via um pouco do meu filho nele. Bruno, meu segundo filho que mora em Florianópolis e estuda na universidade federal de lá, parecia muito no que se referia a planos de estudos. Ricardo apresentou no pouco tempo que conversamos uma aptidão para liderança e uma simplicidade como pessoa que eu admirei muito.

Ricardo não foi mais um estanho no qual eu cruzei no caminho e que nunca mais falei. Embora não seja muito frequente, continuamos nos comunicando e foi um privilégio tê-lo conhecido e ter agregado em minha vida mais uma pessoa que tem sempre algo valioso e despretensioso para ensinar.

Ele ia passar o Ano Novo em Viena, se não me engano, e eu em Madri. Nos despedimos desejando um ao outro uma viagem especial, cheia de novas experiências e superação de desafios e senti que entendíamos muito bem o que cada um procurava ali, porque estávamos, na posição de mochileiros — apesar dele já ter viajado em outras ocasiões –, em condições muitíssimo parecidas. 

Fui até o hostel pegar minha bagagem que haviam permitido que eu guardasse apesar da minha diária já ter vencido. Paguei a diária de um dia a mais que ficara lá e quando eu estava saindo, encontrei a jovem americana, muito feliz em companhia de seu irmão que ela esperara chegar com ansiedade.

Ela havia trocado de quarto, para um com só duas camas, onde os dois ficaram hospedados desde a noite anterior. No quarto que ela dividira comigo, duas irmãs mexicanas tinham ocupado nossas antigas camas.

Não lembro o nome das mexicanas, nem do irmão da americana, mas os três novos conhecidos falavam espanhol e conversamos um pouco antes de eu partir. O rapaz comentou que a irmã havia gostado muito de me conhecer, apesar de nossa comunicação ser tão falha. Rimos quando percebemos que eu e ela tomávamos a mesma atitude quando não entendíamos algo. Balançávamos a cabeça positivamente, sorrindo, e assim encerrávamos qualquer assunto com a mesma simpatia que sentíamos gratuitamente uma pela outra.

A entrada intempestiva de uma espanhola que escancarara a porta de entrada, interrompeu nossa conversa. Ela era sorridente e muito agitada. Cumprimentou a todos sem dar muita atenção a ninguém e falava praticamente sozinha. Parecia ter cerca de 40 anos e tinha um aspecto meio desleixado. Com a mesma rapidez que entrou em nossa conversa, se voltou para o quarto onde ia instalar-se e fechou a porta. Nós cinco nos entreolhamos divertidos e surpresos.

As duas mexicanas, muito bonitas com suas peles morenas e longos cabelos negros, eram mais tímidas e caladas, mas uma delas, a mais velha, perguntou-me sobre os perigos da cidade. Achei curioso perguntar isso a mim… Creio que ser mais velha às vezes passa um pouco de credibilidade. Mal sabiam…

Comentei que era minha primeira viagem e era tão inexperiente quanto elas que também eram novas aventureiras, mas elas ignoraram minha explicação e ficaram a espera de uma resposta convincente… olhares fixos no meu. Acho que meu instinto de maternidade devia estar soltando algum odor, como o odor que soltamos quando sentimos medo e que só os animais reconhecem…

Sorri para elas e desejei sorte. A mais nova me abraçou e minha garganta ficou seca. Senti uma saudade imensa dos meus filhos e percebi que uma viagem pode mudar muitas coisas, abrir horizontes e dar vazão a sonhos, mas nada pode mudar nossa essência…

Quando dei as costas à porta de entrada do B & B Rose Hostel, um sentimento de insegurança se alastrou. Ali eu já conhecia o espaço, me sentia segura.  Pela primeira vez em minha vida, iria me hospedar na casa de um desconhecido e poderia viver uma experiência tão enriquecedora quanto frustrante. Mas me arriscar, quebrar tabus e superar medos fazia parte das regras desse jogo que eu entrara por livre e espontânea vontade. Sem olhar para trás meus passos me levavam em direção a Roma Termini…

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