Entre templos e compras

Depois de quase 50 minutos na fila, eu poderia até ter ficado entediada, não fosse uma cena que me surpreendeu bastante. Um senhor que aparentava cerca de 60 e poucos anos, resolveu pular a cerca de segurança para não ficar na fila. Esse fato em si não é surpresa, porque afinal, gente mal educada existe em qualquer canto do mundo, mas fiquei admirada com uma viatura de polícia que surgiu no mesmo instante com a sirene ligada em alto e bom som. Até agora não consigo imaginar de onde saiu esse carro e quão rápido foram em sua missão. 

Sob os aplausos da pequena multidão que já se sentia injustiçada esperando na fila, os policiais, um homem e uma mulher, impecáveis em seu uniforme, conduziram gentilmente o senhor de volta ao centro da praça, como se fosse ele, uma ovelha desgarrada do rebanho.   

Depois de ter a bolsa revistada e devidamente liberada, fui em direção a basílica. Talvez eu decepcione os mais devotos, mas não me emocionei diante da beleza do santuário. Ao observar tanta riqueza incrustrada nas paredes, não pude deixar de pensar que nada daquilo me remetia à espiritualidade.

Logo na entrada um teto ricamente trabalhado me impressionara, assim como o do interior do templo com suas pinturas sublimes e o brilho do ouro. Como arte, foi como entrar em um magnífico e luxuoso palácio, com esculturas gigantescas e mármores multicoloridos formidáveis distribuídos no piso e em altas colunas. A luz do dia surgia através do alto da cúpula central, iluminando o altar como um holofote. E a luz das janelas laterais davam mais vida a algumas pinturas.

De todas as pessoas que dividiam aquele espaço comigo naquele momento, aparentemente só observei um senhor compenetrado, mãos cruzadas, ajoelhado em frente ao longo corredor que leva ao altar. Parecia solitário e deslocado, e seu olhar era o único que eu vira, que não focava nada, alheio a todas as informações visuais daquela obra.

Pensei em seguir para a Capela Sistina, mas já era tarde para isso. Pensei em voltar no dia seguinte, pois seria meu último dia em Roma.

No caminho de volta, desci na estação Roma Termini e presenciei o pôr-do-sol mais bonito de todos aqueles dias. O céu exibia um tom dourado e as árvores e construções formavam um horizonte escuro recortado. Aquela imagem perfeita foi enriquecida com uma revoada de pássaros que parecia sob encomenda para uma cena de filme.

Caminhei em direção à Piazza Della Repúbblica. A água da fonte no centro da praça brilhava revelando o reflexo do colorido dos prédios ao redor, com suas luzes acesas que irradiavam das dezenas de janelas e que combinavam com os tons pincelados do céu. Levo alguns minutos para conseguir atravessar a praça por causa dos carros e motos que passavam rápido e intensamente.

Já na Via Nazionalle tingida de dourado, me entrego a maior e mais cara compra que fiz para mim na viagem. Uma bota e duas blusas de frio, totalizando 158 euros pagos com muita dor no coração.


Ao que parece eu teria que ter providenciado uma lipoaspiração nas panturrilhas, pois não encontrava uma bota que me servisse. Os preços eram altos, mas eu precisava de um calçado novo para substituir o meu já tão gasto e que acabara de rasgar devido às andanças. Na terceira loja, três italianas muito atenciosas me receberam. A dona da loja, uma senhora magra, alta, elegante e falante, não economizou esforços para encontrar algo que me agradasse. Acabei comprando algo que me servisse, enfim, era uma boa bota de viagem; forte, quente e confortável, isso me bastou naquele momento.

Já na loja de roupas, não foi fácil resistir a tantas novidades, tecidos quentes e modelos bonitos. Bravamente lutei contra meus desejos mais fúteis e saí com duas blusas que me serviram muito durante a viagem até o final. Hoje, quando abro o armário, olho para elas e não me parecem tão bonitas, mas as guardo como a amuletos. É como se enquanto elas existirem, eu tenha a prova que estive lá. Que não foi só um sonho…

A noite e seu ar frio já tinham coberto as ruas. Se eu quisesse encontrar Ricardo antes de ir embora deveria correr…

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