O dia que começou sem rumo certo…

Acordei tarde e o café da manhã no hostel já tinha encerrado. Meu corpo sentia o cansaço das intensas caminhadas. Não tinha feito nenhum plano do que visitar naquele dia. Acessei a internet e confirmei minha hospedagem na casa de um dos membros do grupo, Francesco. Eu o encontraria naquela noite em frente a estação Roma Termini. Marquei também com Ricardo, o rapaz que havia organizado o encontro de mochileiros no primeiro dia e que eu não conseguira encontrar.

Já na rua, paro em uma lanchonete ao lado da parte da frente da Basílica Santa Maria Maggiore, que ocupava um quarteirão inteiro e cuja arquitetura continuava me fascinando apesar de vê-la todos dias ao sair do hostel. O garçom divertido que me cumprimentava regularmente, pois ali eu passara várias vezes, me sugeriu um bolinho de arroz bem típico. Pelo nome, não me senti atraída de início a aceitar tal palpite, mas acabei cedendo e me surpreendendo com o tempero forte e com o sabor.

Enquanto eu comia, observava, distraída, a rua movimentada e o vai-e-vém de pessoas escondidas por detrás dos casacos, cachecóis e luvas. Ventava muito e apesar do sol, a sensação de frio era mais intensa que nos outros dias.

Parado na calçada diante de mim, um grupo de turistas animados esperava um ônibus do programa City Sight Seeing. É um serviço de turismo que consiste em um ônibus de dois andares, sendo que o andar superior é aberto, e segue um roteiro incluindo os principais pontos turísticos da cidade. A pessoa pode descer e subir do ônibus quantas vezes quiser e ele passa em um intervalo de cerca de 30 minutos em locais específicos.

Pensei bem e achei uma boa oportunidade de ter uma visão global da cidade que, até diante do curto tempo que eu ficaria ali, seguramente eu não conseguiria visitar por completo.

Eu já tinha visto esses ônibus que eram vermelhos e amarelos, dependendo do roteiro que podia ser escolhido entre dois. Seus adesivos mais coloridos ainda, davam um ar meio cafona a eles e chamava a atenção das pessoas nas ruas onde passava, mas acabei me divertindo no andar superior, onde a visão dos monumentos era melhor, apesar do frio que parecia me congelar devido ao vento que açoitava meu rosto sem piedade.

O roteiro que eu escolhi tinha oito estações. No decorrer do trajeto, percebi que haviam apenas três vantagens naquele tour. A primeira era ir até o Vaticano, que era mais distante do local onde eu estava hospedada e que caminhando seria impossível, mas eu poderia ir com outro meio de transporte mais barato. A segunda era visitar ruas que eu não passaria, e como todo o resto de Roma, eram tão lindas e charmosas que valiam cada olhar. E a terceira, que justificou o passeio, foi aproveitar o serviço de guia de áudio fornecido em oito idiomas. Resolvi não descer na primeira viagem e decidir, depois de completar uma volta completa, o que eu visitaria a partir da curiosidade despertada em um primeiro momento.

Depois de me deliciar com as paisagens e conhecer um pouco do caótico trânsito da cidade que ainda não vivenciara, decidi descer no Vaticano, onde a cúpula da Basílica San Pietro havia me impressionado, insinuando sua existência por detrás dos prédios da rua próxima onde passava o ônibus.

Fui recepcionada por uma fila de freiras que caminhavam em direção a Praça São Pedro, que eu arriscaria dizer, é mais impressionante que a própria basílica em si. Na verdade, o luxo e a ostentação da maior basílica do mundo não me encantaram tanto quanto a grandiosidade da construção dessa praça com as 340 estátuas de santos, mártires e anjos que rodeiam as laterais do imenso círculo, bem ao alto, recortando o céu, parecendo proteger aquele terreno como a um lugar sagrado.

A praça estava muito cheia de turistas, aglomerados em um círculo como um rebanho. A fonte que se encontra em sua lateral direita é impressionantemente grande, apesar do design simples frente às outras que foram construídas pela cidade. Enormes postes com luminárias enfeitavam o lugar e o sol coloria a cena como se tivesse calculado o quão enriquecia as formas e as sombras que habitavam paredes e piso.

Uma fila imensa desanimava qualquer turista ávido por conhecer o interior da basílica, mas após quase uma hora que vasculhei cada centímetro da praça, entre presépios, crianças, fontes, luminárias e estátuas, acabei me rendendo e aguardando por minha vez para entrar.

Enquanto eu esperava ali, ouvi idiomas diversos numa fila sem fim, senti o morno sol a amenizar a sensação incômoda do vento e encantei-me com crianças que tiravam fotos em frente ao presépio montado a frente da basílica. Estudantes uniformizadas enfileiravam-se diante de uma gigantesca árvore de Natal que enfeitava o centro da praça ao lado do obelisco e não pude deixar de pensar em meu pai e em seus doces poemas natalinos, quase infantis.

Estar ali para ele seria um momento milagroso. Apesar de eu não ter a mesma fé que ele, a integridade dele fortemente influenciada por suas crenças que beiravam a ingenuidade, inegavelmente contribuíram na minha formação como ser humano. Naquele momento, tudo o que eu sentia era um imenso desejo de um dia poder levá-lo lá…

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