Havia um italiano no meio do caminho

vi dei fori imperiali

Parcialmente recuperada, atravesso a grande Via e caminho entre os turistas, ambulantes e os vários artistas de rua que enriquecem esse panorama que parece saído de uma cena de filme.

Artesãos fazendo estatuetas de folhas de palmeira, esculpindo em cenouras… Pintores reproduzindo cenas e pontos turísticos através de aquarela, spray, carvão… Músicos fornecendo um fundo musical típico dos filmes épicos…

A grande maioria dos ambulantes são imigrantes. Muitos indianos vendendo lindos lenços e tecidos. Castanhas torradas vendidas em um pequeno funil de papel me deram água na boca. O aroma se espalhava pelo ar…

Estátuas vivas a cada dez passos alegram principalmente as crianças que se assustam vez e outra, mas se divertem jogando moedas dadas pelos pais. Páro em frente a eles, como a desafiar quanto tempo conseguirão se manter ali sem se mover.

Achei um deles, particularmente interessante. Estava vestido de centurião, mas no lugar do vermelho vibrante das vestes típicas, usava preto e cinza. Com a pele toda coberta por carvão, só apareciam seus olhos incrivelmente azuis que pareciam fixados em mim, me deixando consternada.

Creio que a maquiagem tão bem feita criou aquele efeito que se tem em alguns quadros, que temos a sensação que de qualquer lado, estão a nos observar.

Continuo caminhando por ali. Sigo um muro de tijolos repleto de arcos. No final desse muro, subo uma escada até a estação Coliseo do metrô. Ali, no alto, sou presenteada com outro ângulo do mesmo panorama que me emocionara tanto. Tive depois muitas oportunidades de observar aquele lugar de ângulos totalmente diversos, e cada um é sempre uma surpresa.

Após caminhar por cerca de 3 horas por ali, perdendo meu olhar entre monumentos e gente, entre luminárias de rua e pedras de calçada, me dirijo a uma pequena praça em frente ao Foro Romano. Lá embaixo, filas de turistas serpenteiam entre ruínas.

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Encontro um banco vazio e mal posso acreditar. Precisava sentar um pouco… Ao lado uma estátua que acredito era César, não me lembro bem… Três amigos vem em minha direção apontando a máquina para pedir para eu tirar uma foto deles, o que faço rindo das poses engraçadas.

Entrego a máquina e me viro para sentar, mas há um homem sentado no banco. Acho que não pude disfarçar a decepção! Meia volta, alguns passos e sinto uma mão em meu braço. Olho surpresa. O homem fala algo em italiano que não entendo. Ele sorri.

— Espanhola?

Balanço a cabeça negativamente.

–Brasiliana?

Eu sorrio desconfiada.

Ele pergunta se falo inglês ao perceber que não entendo italiano, eu respondo que um pouco de espanhol. Pede desculpas pela brincadeira, pois havia percebido que eu ia me sentar… Estende a mão em direção ao banco e eu não resisto. Agradeço, estico as pernas e meu olhar desvia à Iglesia Santi Luca y Martina à minha frente.

— Essa igreja é muito bonita, não? Desculpe, não quero incomodá-la, mas se importaria de conversarmos?

Era um homem grisalho, devia ter cerca de seus 45 anos. Não era exatamente bonito, mas era charmoso. Quanto à elegância… bem, ele era italiano, dispensa comentários. Ele estava sendo educado e mesmo que eu não tenha achado graça em suas tentativas de me fazer rir, ele era simpático. Eu não tinha nada a perder. Guardei minhas defesas para hora mais necessária e me entreguei a uma conversa agradável.

Ele conhecia muito bem o local e tinha informação sobre cada imagem onde pousei meu olhar (ou era muito bom em improvisar e inventar histórias).

É bom ter explicações sobre tudo. Na maioria das vezes, eu tive que recorrer a internet e guias para saber o que exatamente eu já tinha visto ou ainda ia visitar. Histórias, particularidades e curiosidades enriquecem muito a experiência e como turistas, muitas vezes perdemos muitas histórias na ânsia de ver o máximo de lugares possíveis.

Massimo, esse era seu nome, me convida para caminhar até a Piazza Del Campidoglio. Ele continua a descrever cada ponto que passamos, mas começa a me lembrar aula de história, pois muda muito rápido de um assunto para outro, sem me dar tempo de assimilar.

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Ao atravessar a praça, desvio meu olhar ao Palazzo Nuovo e fico impressionada, mesmo sem vislumbrá-la por completo,  com o tamanho da estátua da entrada do museu. Assustadora e maravilhosa.

Massimo me puxa pelo braço e me leva a uma pequena entrada, quase escondida que fica do lado esquerdo da praça, antes da escadaria que nos leva em direção a Piazza Venezia. Há um pequeno arco e um caminho de pedras. O burburinho dos turistas fica para trás e me deparo com uma pequena praça, não muito bem cuidada, mas bem bonita. Um refúgio silencioso que oferece uma vista inigualável de outro lado da cidade que eu ainda não tinha visto.

Bem próximo, o Teatro Marcello e suas ruínas, no centro e à direita, um oceano de telhados e ao fundo a visão do Vaticano. Era realmente lindo. Meu olhar se perde na paisagem quando desperto assustada com duas mãos em minha cintura. Me viro rapidamente em meio ao susto.

— Opa, opa, opa! Você entendeu errado! Eu era uma completa idiota! O que eu podia esperar? Que ele quisesse fazer trabalho voluntário de guia turístico?

Ele segura meu rosto com as mãos e tenta me beijar, eu desvio e caminho apressada em direção à praça cheia de gente…

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4 pensamentos sobre “Havia um italiano no meio do caminho

  1. Esse pedaço eu não sabia…mas valeu a experiência e a oportunidade de ficar mais alerta. Vc está escrevendo MUITO bem, de forma clara, sucinta, sinto-me viajando junto. Herança de seu pai, capaz de enxergar detalhes e beleza, onde os olhos de reles mortais não alcançam. Parabéns!!! Bjs

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