Rose B & B Hostel

Um homem sai do prédio ao lado e eu tento pedir informação. Ele não me entende. Entra novamente no prédio e sai com uma mulher que se dirige a mim. Ela era italiana, mas falava espanhol suficiente para conseguirmos nos comunicar. Confirmou que o hostel era ali mesmo e pediu-me que eu esperasse um pouco, pois ia procurar o telefone do dono que devia ter em alguma gaveta de sua casa.
 
Me sento na calçada resignada. Não havia muita coisa que eu pudesse fazer. Para telefonar para o hostel, eu teria que achar um telefone público, que não é tão comum de se encontrar, levar a bagagem, e talvez me comunicar com alguém que não falasse português ou espanhol. Meu inglês é na melhor das hipóteses macarrônico. Resolvi sentar, acender um cigarro e me distrair olhando a arquitetura das antigas construções ao meu redor e das plantas que enfeitavam as sacadas. Parecia cena de algum filme que não conseguia identificar, mas que em algum momento da minha vida já tinha me encantado.
 
O ar frio não chegava a ser incômodo. Sentia-me segura naquela ruela deserta. Se não encontrasse o dono do hostel, já havia decidido caminhar até o Coliseu que estava próximo e deixar para resolver uma hospedagem a luz do dia. Só havia passado por hotéis caros e estava fora de cogitação me hospedar em qualquer um deles.
 
Fico ali, pensando e não percebi o tempo passar. A “vizinha” volta sorridente, como se tivesse encontrado um tesouro. “Cá está! El teléfono del dueño!” Telefona de seu próprio celular para ele e explica que estou a espera. Eu agradeço, mas ela faz questão de esperá-lo chegar. Quanta gentileza! Na verdade tive raras oportunidades de conhecer italianas simpáticas ou que estivessem dispostas a conversar, no decorrer dos quatro dias que passei em Roma.
 
À minha esquerda, no alto da viela, vislumbro dois perfis andando apressados em minha direção. Vinham o dono e uma menina de cerca de 12 anos. Ele está visivelmente atrapalhado. Começa a se explicar ainda longe de mim. Fala um italiano rápido e gesticula muito. A sorridente italiana vê sua missão cumprida e se despede me desejando uma boa viagem por Roma.
 
Tento explicar que não entendo italiano e ele tenta um inglês que pasmem, é pior que o meu rsrsr. A pequena italiana não desgruda os olhos de mim. Ela era linda. Cabelos loiros, lisos e muito encorpado. Grandes olhos verdes e expressivos que me lembravam minha filha mais velha. Ela me cumprimenta e diz que fala um pouco espanhol e então serve de intérprete para nós dois.
 
O dono do hostel tem um resturante próximo e seu funcionário havia sido dispensado por causa da data natalina, por isso estava sozinho para cuidar de tudo. A menina me explica as regras básicas do hostel, mostra minha cama, me entrega as chaves e o código de segurança para entrada e eles se vão tão apressados quanto chegaram.
 
No quarto de paredes amarelo vivo haviam três beliches e seis pequenos armários individuais para as clientes. Era um quarto só para mulheres. Duas garotas já dormiam. Uma japonesa bonita lia um livro em sua cama e continuou na mesma posição sem nem ao menos levantar os olhos para verificar quem entrava. Haviam duas americanas que falavam alto e riam como adolescentes. Me cumprimentaram com um gesto de cabeça e seguiram em sua entusiasmada conversa.
 
O quarto era limpo e quente. Havia uma mesa central e um computador para acessar a internet. Arrumo minha bagagem e vou tomar o tão desejado banho. Que delícia! Era tudo que eu precisava naquele momento. Uma ducha forte e quente para relaxar e me recuperar do cansaço e da ansiedade de uma viajante inexperiente.
 
Dias antes eu havia combinado com um membro do grupo de mochileiros do qual participo, que o encontraria em um bar juntamente com outros viajantes de vários países, todos desconhecidos, na mesma situação que eu.
 
Quando voltei para o quarto, percebi que não ia conseguir dormir naquele momento com a luz acesa e com as meninas que continuavam ali conversando. Resolvi tentar encontrar o grupo. Pedi licença para procurar o mapa no computador e fui dar meu primeiro passeio em Roma, sem bagagens, sem tempo, só absorvendo tudo ao meu redor.
 
Já era tarde, quase 1 hora da manhã do dia 26 de dezembro. Nas ruas desertas, cruzei com poucas pessoas em meu caminho. Tudo me encantava. O ar frio em meu rosto, as luzes, as ruas formadas por mosaicos de grandes pedras e a arquitetura que até o último dia de viagem continuaria me hipnotizando. Não encontrei o grupo, afinal já era tarde, mas o passeio valeu a pena. Sozinha ali, senti como se fosse dona daquele lugar. Sem vozes pra interferir, só o silêncio da noite… Relaxei finalmente e voltei ao hostel onde uma cama quente me esperava e uma noite revigorante de sono…
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4 pensamentos sobre “Rose B & B Hostel

  1. Querida Ceres,To aqui curtindo seu diário de viagem.No fim, me parece que o imprevisto de viajar só, acabou por produzir uma experiência ainda mais incrível.Beijos, Pam

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