Desconhecidos personagens ilustres dessa história e os primeiros passos em terras européias

Malas prontas. Graças aos amigos que apoiaram minha viagem, tinha roupas emprestadas para enfrentar o frio europeu, a mala de outra amiga, o lap top da prima, guias e mochila da irmã e de outros amigos. Sim, 90% da minha bagagem foi emprestada e junto com esses objetos, a sensação de que embora sozinha, estaria sempre acompanhada das boas energias, muita torcida e olhares que me acompanhariam por toda a viagem.

Meu mesmo, algumas poucas roupas, uma máquina que comprara uma semana antes e que resolveu não funcionar ainda no aeroporto, muita expectativa, medo, sonhos e desafios.

Sento no saguão do aeroporto e uma retrospectiva da minha vida passa por minha cabeça. Flashes de momentos, pessoas e sentimentos. Quando eu imaginaria que poderia estar ali… Mas estava e agora começaria essa aventura.

Saio para fumar um cigarro e uma moça negra, alta, bonita apesar dos olhos meio vesgos, e muito sorridente, vem falar comigo.

— Europa?

— Como sabe?

— Terra fria… Está carregando um casaco. Milão?

Estava escrito em minha testa?

— Sim.

— Eu também.

Dali em diante me divirto com seu sotaque baiano arrastado enquanto ouço o que era praticamente um monólogo. Conta sua vida em menos de 40 minutos. Em Ilhéus, onde viveu maior parte de sua vida, conhecera seu atual marido, um suíço, durante uma festa em sua cidade. Não escondia em suas palavras, o orgulho de tudo que conhecera e vivera nas terras européias. Ri bastante de suas histórias e do seu jeito descontraído. Tomamos duas cervejas e já estava na hora de pegar o avião.

Essa moça foi a primeira estranha que conheci na viagem. Esses estranhos sem nome, sem identidade. Figuras que farão parte de minhas lembranças para sempre. Com o tempo seus rostos ficarão apagados em minha memória, mas não suas histórias, nem as sensações que me passaram, nem como enriqueceram momentos que poderiam ser banais e solitários para mim.

Ao subir no avião nos despedimos. Procuro meu lugar.  Uma senhora de cabelos brancos e olhos muito azuis não escondeu sua irritação por ter que levantar-se para permitir que eu me acomodasse. Alguns poucos minutos depois ela conversa com a comissária de bordo em inglês. Não entendo nada, mas percebo pelo tom de voz que a conversa está cada vez menos amigável, mas o sonoro cala a boca foi possível entender. A moça sai desconsertada.

Pensei comigo, será uma longa viagem, mas logo em seguida essa senhora dormiu e eu voltei a conviver com meus pensamentos agitados e ansiosos. Foi uma noite tranqüila, apesar de não ter conseguido dormir quase nada. Assisti dois filmes e pela manhã me encantei com as paisagens aéreas, com as nuvens que ora desenhavam o céu, ora o cobriam com aquele imenso lençol branco. Mas perdi o fôlego mesmo com a beleza das montanhas rochosas dos Pirineus, com a neve alvíssima escorrendo de seus picos como uma calda.

A senhora ao meu lado parece acordar mais bem humorada, me diz que é italiana e se eu posso entregar-lhe a manta dada no avião, pois estava mal agasalhada e seus pertences não estavam com ela. Enfia a manta em uma sacolinha, juntamente com a dela e perde o humor mais uma vez quando percebe que não poderá levar nada do avião. Rio por dentro da situação inusitada que me distrai por alguns minutos da dor de barriga da chegada.

Já no aeroporto de Milão, fui recepcionada por um lindo sol de inverno. Sol esse que me acompanharia em quase todos os dias da viagem. Ao longe, a visão dos Alpes suíços. Ao sair do aeroporto, sinto o ar fresco em meu rosto. Respiro fundo. Tento gravar cada imagem, cada sensação, mas é muita informação.

Caminho errado, volto ao terminal para encontrar a estação ferroviária que me levará do Aeroporto Malpenza a Milano Centrale. Peço informação a um italiano e me sinto orgulhosa por conseguir me comunicar. O trem chega na plataforma e eu fico esperando a porta abrir. Um rapaz chega rindo perto de mim e aperta o botão para eu entrar. Ops! O primeiro mico da viagem rssr

Sento na janela e aproveito a paisagem diferente. O aeroporto, a estação e o trem estavam vazios, pois era Natal e não muitas pessoas escolhem essa data para viajar, mas das poucas pessoas que dividiam esses espaços comigo, grande parte eram brasileiros, casais e famílias. Ao chegar em Milano Centrale, fico realmente decepcionada de não estar com a máquina funcionando. Foi a estação de trem mais bonita que conheci na viagem toda.

Sua arquitetura majestosa exibe lindas estruturas de ferro ao alto. Vidros coloridos que cobrem a estação, dão uma luminosidade singular ao lugar. Painéis gigantes de pinturas decoravam as paredes da área repleta de lojas lindas que expunham suas elegantes roupas de inverno. Todos pareciam muito elegantes para mim, acostumada com Sampa e com a “deselegância discreta de tuas meninas”.

Não fico em Milão. Ali na estação mesmo já pego outro trem para Roma Termini. Aproveito enquanto é dia para conhecer Milão através da janela do trem. Suas árvores secas enfileiradas pareciam um exército a proteger a cidade, também rodeado de muitos e muitos muros pixados. Deve ser o subúrbio desse lugar… Recosto minha cabeça tentando relaxar, mas não resisto e assisto deliciada o primeiro pôr-de-sol em terras européias.

É Natal, o primeiro dia do melhor presente que ganhei em toda minha vida. Me entrego ao sono…

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Um pensamento sobre “Desconhecidos personagens ilustres dessa história e os primeiros passos em terras européias

  1. Ceres, viajei de volta a quase um ano atas quando embarquei pela primeira vez neste sonho. Toda angustia do vôo, a ansiedade represada, o cheiro e as cores do primeiro dia! Nunca irei esquecer a sensação que tomou conta quando subi as escadas do metro e me deparei com a Praça do Sol – madri! Como pareceu grande e magestosa..Ansiosa pelos seus proximos posts!!

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